terça-feira, 3 de março de 2020

Crítica: O Homem Invisível




Quando a Universal Pictures surgiu com a ideia da criação de um “Dark Universe”, muitos fãs criaram expectativa. A ideia era fazer um reboot de todos os filmes clássicos de monstros, unindo-os em uma linha temporal, assim como é feito no universo da Marvel. Porém, as críticas negativas e o pouco sucesso de filmes como Drácula: A História Nunca Contada (2014) e A Múmia (2017), fizeram com que os planos desse novo universo fossem interrompidos. A ideia (até o momento) acabou sendo a de produzir filmes solos, longe desse universo compartilhado. E parece que pode dar certo.

O Homem Invisível é o primeiro longa dentro dessa nova ideia de um filme solo. A adaptação do livro homônimo escrito por H. G. Wells em 1897, já gerou uma série de filmes para o cinema. A mais conhecida delas foi a realizada pela Universal Pictures em 1933, que contou com  Claude Rains como o cientista que descobre uma fórmula para se tornar invisível, mas que ainda precisa descobrir um  antídoto para reverter o processo. O longa foi dirigido por James Whale e até hoje impressiona pelos efeitos visuais usados na época em que foi produzido.


Nessa nova versão da história, o diretor australiano Leigh Whannell ficou encarregado pela produção executiva, roteiro e claro, direção. Whannell é conhecido pelo seu papel do Specs na franquia Sobrenatural (Insidious nos EUA), responsável por ajudar a médium Elise Rainier a enfrentar os espíritos malignos do filme. Vale lembrar que Whannell roteirizou todos os longas da franquia, além de ter dirigido o terceiro filme, Sobrenatural: A Origem (Insidious: Chapter 3, 2015).

Em O Homem Invisível, Cecilia Kass (Elisabeth Moss), é uma mulher que está tentando fugir de um namorado extremamente abusivo, o cientista Adrian Griffin (Oliver Jackson-Cohen). Quando consegue, a mulher descobre que seu ex se suicidou. Tentando retomar sua vida enquanto vive na casa de seu amigo de infância, James (Aldis Hodge), Cecilia parece sentir a presença de Adrian no local enquanto coisas estranhas passam a acontecer.

Se Um Lugar Silencioso (A Quiet Place, 2018), brincou com o sentido auditivo do espectador, O Homem Invisível brinca com a visão. É muito válido quando um filme se agarra a isso para criar uma constante expectativa de que algo ruim poderá acontecer. Mesmo que outras adaptações dessa história já tenham tratado da invisibilidade, a direção de Whannell é muito eficaz ao criar uma grande tensão na primeira parte do filme.

Para começar na primeira sequência, a protagonista já está tentando fugir de casa sem ser vista pelo namorado, que está dormindo. A mansão onde vive o casal tem uma arquitetura moderna ao mesmo tempo em que evoca uma sensação de frieza e isolamento. O lugar fica no topo de uma colina e as paredes e muros cinzas, dão ao local justamente a ideia de uma fortaleza que de fato aprisiona Cecilia. Nessa mesma sequência há uma impressão clara de que a mulher não pertence àquele lugar. Mesmo tendo o estímulo visual, esse início do filme trabalha também a tensão do som que pode surgir a qualquer momento e acordar Adrian.


Uma vez que já sabemos que o filme se trata de uma ameaça que não pode ser vista, a câmera costuma enquadrar Moss deixando um espaço ao seu lado, onde claramente é ali que Adrian deve estar. Há muitos momentos assim e são neles em que o suspense e a expectativa de que algo ruim possa acontecer, fazem o espectador ficar apreensivo e esperando o pior. Às vezes a câmera faz uso de movimentos panorâmicos acompanhando a protagonista de um ponto a outro dentro de um cômodo, quando resolve voltar para o ponto inicial, agora sem acompanhar a personagem. Esses segundos até a câmera chegar ao seu destino onde não há “nada” para ser visto, intensificam mais nossa expectativa de que Adrian pode estar planejando fazer algo.

Os velhos sustos também agradam o espectador mais acostumado com cenas convencionais dentro do gênero do terror. Porém eles são honestos e quando surgem, são em cenas mais impactantes que não enganam o espectador e às vezes o pegam realmente de surpresa como em uma cena em especial dentro de um quarto, que deve pegar muita gente de surpresa. 

A segunda parte do filme se torna mais convencional com cenas de ação e fuga, mas que ainda assim continuam competentes graças à boa direção de Whannell. O final também pode não ser tão previsível para alguns, e mesmo que alguma ação em especial no desfecho possa ter sua veracidade questionada, nada disso atrapalha o filme.


Talvez o mais notório nisso tudo é usar esse filme para falar de questões tão pertinentes e finalmente faladas com mais finco nos últimos anos, como as relações abusivas. O gaslighting para quem não sabe, é um tipo de abuso psicológico em que o abusador omite ou manipula informações para que a vítima passe a duvidar de si mesma ou até mesmo de sua sanidade mental. O termo tem origem na peça teatral Gas Light, que depois foi adaptada mais de uma vez para o cinema. Uma delas em 1944 contou com a participação de Ingrid Bergman.

Mesmo Cecilia já sabendo que Adrian está por perto, ela não tem credibilidade já que seu argumento está fora da realidade. Sua sanidade é posta à prova a ponto da personagem ser internada. A manipulação de Adrian ao ficar invisível, mesmo que faça parte de uma narrativa de fantasia, ainda assim mostra como momentos de manipulação que podem ser conferidos em tantas relações abusivas. Nesses casos  a mulher é vista como alguém que precisa de ajuda psicológica por ser sempre desacreditada por pessoas próximas. Adrian até mesmo manda um e-mail do computador de Cecília para sua irmã,  Emily (atriz), para criar conflito entre as duas mulheres.

Mesmo não havendo 100% de profundidade no drama da personagem, dando mais espaço para as convenções do gênero do terror, há cenas bem interessantes e pontuais do relato de Cecília, em que a mesma fala um pouco sobre sua relação com Adrian e sobre como seu ex-namorado vai aos poucos controlando sua vida. Destaque para uma cena em que ela confronta ele e diz que não sobrou mais nada dela para ele querer levar. Vale apontar como Elizabeth Moss está mais uma vez excelente.

O Homem Invisível já pode ser considerado um dos filmes de terror de 2020 até o momento, e tem diversos aspectos que irão agradar o espectador que procura um filme de terror mais convencional, mas também o uso do enredo para falar de questões sérias.  

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Crítica - Morto Não Fala




Morto Não Fala foi dirigido por Dennison Ramalho e inspirado no conto escrito por Marco de Castro em 2004. Castro que na época era repórter policial, possuía um blog chamado Casa do Horror, com diversas histórias assustadoras e macabras.  

A ideia inicial era fazer um curta adaptando o conto, mas que depois se transformou na ideia de uma série. Muita coisa aconteceu e como nada pode ser previsto, quinze anos depois a ideia finalmente virou um filme produzindo em coprodução com a Globo Filmes, Canal Brasil e Casa de Cinema de Porto Alegre, e que agora sim poderá virar uma série. 

Apesar desse ser seu primeiro longa, Dennison Ramalho já dirigiu oito curtas na carreira, sendo um deles fazendo parte do filme antológico O ABC da Morte 2. Morto Não Fala teve boa resposta lá fora, sendo exibido em 40 festivais de diversos países. No site Rotten Tomatoes o índice de aprovação é de 92%, além de ter sido eleito pela revista New York Times como um dos melhores filmes de terror de 2019.

Stênio (Daniel de Oliveira) trabalha como plantonista noturno de um necrotério. No seu trabalho, o homem tem o dom de falar com os corpos que ali estão para serem abertos e  examinados por ele. Depois de quebrar uma espécie de regra do mundo sobrenatural e ouvir de um dos mortos que sua mulher está tendo um caso, Stênio é preso por uma maldição que irá prejudicar sua via e das pessoas próximas a ele.


Morto Não Fala não busca em sua essência fazer uma crítica social, mas é possível perceber algumas pinceladas de uma crítica no primeiro ato do filme, quando percebemos a quantidade de corpos de pessoas negras no necrotério onde se passa boa parte da história. Mesmo que essas pessoas um dia fizeram parte de organizações criminosas, sabemos como o caminho do crime tomado pelas populações pobres e negras no brasil, não se trata de uma simples “escolha”. Já em uma sequência em que corpos vão chegando no necrotério sem parar, descobrimos que o resultado de uma deslizamento de terra fez com que tantas pessoas morressem. Mesmo sem mais explicações sobre o acidente, sabemos como esse tipo de tragédia também ocorre muito. Seja por falta de alguma fiscalização ou pela desigualdade social que obriga as pessoas a fazerem suas casas em áreas de risco.

Esses pequenos momentos de crítica aparecem no filme, mas nada acaba indo além disso. Até mesmo o dom do protagonista de conversar com os corpos, pode pegar muita gente de surpresa e frustrar um pouco quando depois do conflito, essa premissa acaba ficando de lado e dando espaço para um filme de terror mais convencional. Essa mudança de tom que poderia prejudicar o longa, acaba não acontecendo graças às sequencias bem dirigidas e criativas de Ramalho.


Quando se estabelece o conflito do filme, passamos a temer não só por Stênio, mas também por seus filhos. Há ainda um suspense envolvendo um segredo que sabemos, mas que é desconhecido por Lara (Bianca Comparato), que aos poucos começa a fazer parte da vida de Stênio e seus filhos. O protagonista é um anti-herói e o equilíbrio entre o lado obscuro do personagem e seu amor por sua família enquanto tenta fazer com que nada de mal aconteça a ela, equilibra o bem e o mal que habita o personagem.

Parece que o diretor além de estar bem familiarizado com o cinema hollywoodiano do gênero de terror, o mesmo também está atento na forma como cria sequências de medo e tensão. Há muitas delas que se constroem efetivamente a partir de momentos de tensão e estranhamento do que de sustos gratuitos. Mesmo quando faz uso de alguns desses sustos, são em momentos que não procuram enganar o espectador, mas de fato mostrar algo sobrenatural acontecendo naquela cena. Além disso, o cineasta usa elementos da própria cultura brasileira para criar as cenas de terror.


Algo que chama muito a atenção, são os efeitos visuais usados nos rostos dos corpos que conversam com Stênio. Bonecos muito bem feitos a partir de moldes dos corpos dos atores, foram usados nas cenas do necrotério. O ator gravava seu rosto dizendo suas falas e depois esses rosto era sobreposto o rosto dos bonecos. O resultado pode causa estranhamento, mas ao mesmo tempo dá um tom bizarro ao filme. Não se sabe se essa ideia foi proposital, já que colocar os atores deitados nas mesas de exame e filmá-los lá mesmo enquanto dão o texto, teria sido uma opção mais barata e até óbvia. De qualquer forma isso não tira o mérito do filme e dos efeitos especiais de maquiagem que são bem convincentes.

Morto Não fala foi uma grata surpresa no ano de 2019, principalmente para o Brasil, que é tão carente de filmes de gênero. Mas a boa recepção do longa lá fora, acaba sendo uma boa forma de divulgação e apreciação do filme aqui no Brasil.





terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Imagens: o filme de terror de Robert Altman (Crítica)



Cathryn (Susannah York), é uma escritora de livros infantis que começa a sofrer de transtornos causados por uma aparente esquizofrenia. Suas visões consistem em imagens de homens com quem ela teve algum relacionamento no passado, mesmo estando casada com Hugh (Rene Auberjonois). Quando o casal resolve passar alguns dias em uma casa de campo, tudo piora e as visões da mulher se tornam frequentes.


Assim é a sinopse de Imagens, o que podemos considerar com o único filme de terror (psicológico) dirigido por Robert Altman, conhecido por filmes como Short Cuts - Cenas da Vida (Short Cuts, 1993) e M.A.S.H. (1970), que apresentam histórias paralelas e críticas à sociedade. O longa é mais um daqueles que consegue com eficiência retratar os elementos do horror como alegorias para aquilo que faz parte do nosso próprio mundo, como nesse caso, a esquizofrenia.

Além de retratar isso, o espectador é logo colocado dentro da cabeça da protagonista. A narrativa é totalmente do ponto de vista de Cathryn, e a ótima direção de Altman nos faz mergulhar em um universo que por inúmeras vezes remete a um mundo onírico e constantemente estranho.


Imagens, como o próprio nome já diz,  brinca justamente com o que estamos vendo. Por vezes não sabemos se um determinado evento realmente aconteceu ou estamos diante de um delírio da personagem, que chega a se ver durante o filme, como uma representação de sua própria doença e da tentativa de fugir dela. Altman não precisou construir um mundo exagerado para nos mostrar explicitamente que a personagem está delirando. Sabemos que a personagem está em um mundo real, porém distorcido.

A forma com que o tempo e o espaço são manipulados, são essenciais para esse efeito de desconexão. No momento em que Cathryn está em pé numa colina e de repente se vê entrando na casa de campo, é como se o tempo entre ela descendo a colina para chegar até a casa, fossem suprido. Isso cria uma fragmentação das imagens que representa muito bem sua mente. Às vezes somos surpreendidos com uma mudança de personagem que parece representar o marido da protagonista, mesmo quando claramente estamos vendo outro ator em cena. Por vezes essa mudança se torna fluída, enquanto em outras, a edição faz o uso de cortes secos para mudar ações da própria Cathryn dentro da cena.

No decorrer do filme, a mulher descobre que “matando” essas imagens, seja com espingardas ou facas, parece ser a única solução para se livrar de suas visões. Porém, a única imagem impossível de se livrar, é justamente a sua, como uma forma de lembrar que ela não pode ficar livre de sua própria mente. A câmera aliás, objeto usado justamente para produzir imagens, é vista constantemente no filme, já que Hugh é fotógrafo e está trabalhando em um projeto. Não é à toa que em um determinado momento em que Cathryn dispara uma arma, a bala atinge justamente a câmera. 


O filme foi filmado na Irlanda e o local acabou sendo muito apropriado para a criação de uma atmosfera de incertezas e constante estranheza. Em muitas cenas o céu está nebuloso, e até em cenas em que mostram paisagens mais bonitas e até tranquilizadoras, o filme nos insiste em lembrar que estamos dentro da mente de uma mulher esquizofrênica. Isso aliás é justificável para qualquer cena que o espectador possa ver, já que tudo o que acontece, pode ser questionado. A dubiedade é retratada muito bem na direção de arte, que usa espelhos em algumas cenas ou reflexos de Cathryn para reforçar essa ideia de “dois mundos”.


A música tem um papel importante no filme, agindo praticamente como um personagem a parte. Personagem esse responsável por perturbar o espectador com sons que incomodam e que por vezes não parecem harmônicos, contribuindo ainda mais para uma imersão do público. Os sons foram criados pelo percussionista Stomu Yamashta, que utilizou instrumentos de corda e percussão. John Williams também contribui com a trilha, criando uma atmosfera sinistra. 

Imagens é mais uma prova de como é possível fazer um bom terror psicológico (literalmente) ao tratar de um lugar que pode ser mais aterrorizador e obscuro que muita casa mal-assombrada: a mente humana.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

O código Bill Gates



O código Bill Gates é uma minissérie documental da Netflix, dirigida e produzida por Davis Guggenheim, documentarista famoso por grandes sucessos polêmicos, como “Uma Verdade inconveniente” (2006) e “Esperando pelo super-homem” (2010).

A série é composta de três episódios nos quais podemos ter mais informações sobre e a vida e a história da controversa da figura de Bill Gates, o homem que construiu um império, revolucionou a tecnologia mundial com o bum dos computadores pessoais e com a presença massiva de seus sistemas operacionais, se tornando e permanecendo por anos a pessoa mais rica do planeta.

A pesar da série trazer parte da história de Gates ela não foca tanto em seu passado, ou em como ele se tornou uma das pessoas mais poderosas do mundo, a cada episódio temos na verdade uma grande entrevista com o próprio Bill Gates, no qual ele mesmo nos apresenta sua vida, divide lembranças, e perincipalmente ficamos sabendo o que ele anda fazendo agora que não está mais a frente da Microsoft.

Aos 64 anos de idade Bill Gates se dedica aos projetos da sua fundação, “Bill e Melinda Gates”, e é sobre esses projetos que a série se estrutura, nas causas humanitárias da fundação filantrópica que tem metas grandiosas como levar saneamento básico a áreas remotas da terra, acabar com a poliomelite, e a busca por uma solução em relação as mudanças climáticas na produção de energia limpa e barata.

Todos esses projetos são gigantescos e não possuem muitas possibilidades de sucesso total, pois envolvem mais do que invesamentos milionários e boa vontade, exigem cooperação global e politica. Vamos descobrindo que problemas tais como construir um banheiro em uma aldeia muito pobre passa por uma série de fatores como a ausência de água encanada ou mesmo a falta de uma estação de tratamento de esgoto, e que caso alguém queira apenas construir banheiros, vai ter que levar isso e muito mais em consideração.

A série apresenta Bll Gates como um homem que sua maior qualidade é ser um excelente programador, genial na hora de solucionar problemas e resolver algoritmos, de reverter tecnologia em soluções importantes, da mesma forma como dedicou boa parte de sua vida ao mundo da informática a frente da Microsoft, ele agora trata dos assuntos de sua fundação da mesma forma, tentando resolver problemas sociais, como um grande quebra-cabeça cheio de peças que precisa se encaixar. Como um algoritmo que precisa ser resolvido e isso torna a série atraente e envolvente para quem está assistindo, o espectador fica realmente interessado em saneamento básico e em higiene e intrigado em como isso pode salvar milhares de vidas.
A série nos leva a refletir, como nunca nos preocupamos com coisas básicas como essas porque já temos acesso à água e a esgoto encanado, e nos esquecemos que ainda existe uma parcela enorme da população que mundial que ainda sofre pela falta de recursos considerados básicos.

Para solucionar problemas como vacinar uma população é necessário mais que vacinas e voluntários precisa de mapas claros de regiões, o que, por incrível que pareça, sim, ainda existem regiões africanas sem mapas, completamente esquecidas, devastadas por guerras onde boa parte da população ainda morre de poliomelite, e levar a vacina que já existe a anos exige enfrentar todas essas adversidades.

O tema mais polêmico da série é em relação a ideia de produção de energia limpa a partir da produção de energia nuclear, ideias que parecem completamente antagônicas, e que sim, é objeto de pesquisas sérias e investimentos de Gates. A série tenta nos mostrar o quanto isso é possível e seguro. O fato é que a ideia ainda não pode ser provada e testada por uma série de fatores, porém conta com cientistas e engenheiros entusiastas do assunto que estão trabalhando no projeto que promete ser uma solução viável para o problema de produção de energia limpa global.

Em meio a essas metas gigantescas vamos conhecendo de forma íntima Bill Gates, conhecendo partes de sua infância e adolescência, sua paixão pela leitura e pelo conhecimento. A Série não deixa de fora nem mesmo a história polêmica do processo sofrido pela Microsoft e por Bill Gates nos Estados Unidos, da lei o que quase levou a empresa a falência, por desrespeitar as leis antitruste.

Vale a pena conferir a série documental, ela é muito bem estruturada e interessante, dirigida com delicadeza, utilizando de diversos recursos de linguagem para aborda temas não tão fáceis de serem digeridos.

sábado, 4 de janeiro de 2020

As Quatro Voltas - A vida em ciclos




As Quatro Voltas (Le Quattro Volte, 2010) é o segundo longa-metragem do italiano Michelangelo Frammartino, cuja forte ligação do homem com a natureza, parece ser um tema que agrada bastante o cineasta.


Em As Quatro Voltas não é diferente. Um velho pastor que cuida de seus bodes em uma pequena vila que fica na Calábria, no sul da Itália. O nascimento de um cabrito que se perde da mãe e acaba encontrando abrigo embaixo de uma árvore. Uma árvore que é derrubada e usada em uma festa que acontece na própria ilha. A lenha queimando em uma casa, produz a fumaça que sai pela chaminé. O que tudo isso tem a ver? Absolutamente tudo. Através de um cinema contemplativo e sem diálogos, Frammartino nos apresenta um bonito ciclo de uma vida.

Atribuída ao filósofo e matemático Pitágoras, a teoria da Metempsicose ou da transmigração das almas, consiste no pensamento de que a alma é imortal. Segundo o filósofo, quando morremos nossa alma transmigra para outro corpo e assim sucessivamente, parando esse processo no momento em que essa alma atingir a purificação e consequentemente se libertando. Esse novo corpo que recebe a alma, pode ser tanto vegetal quanto mineral, ou até mesmo animal.


É com esse pensamento filosófico que o filme na verdade quer falar sobre a igualdade entre humanos, vegetais, animais e minerais. Todos aqui são personagens principais no filme, tendo seu protagonismo devido durante esses ciclos que acontecem ao longo da narrativa. Com muita naturalidade e planos longos, temos a sensação contemplativa da conexão do homem com a natureza que o cerca.

A religiosidade é também retratada aqui de forma que não busca um julgamento, mesmo quando nos deparamos com o pastor misturando o pó do chão da igreja da pequena vila, com água para que sirva de remédio para sua enfermidade. Talvez em primeiro lugar esteja a representação da fé do que a religiosidade em si.



O espectador vai percebendo a conectividade entre o velho pastor, o bode, a árvore e a lenha que queima na casa, como forma de simplesmente mostrar o papel que cada um exerce no planeta e na própria humanidade.

Ficou curioso? Então confira  o trailer de As Quatro Voltas aqui abaixo!

O filme está disponível completo e legendado no Youtube.





segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Crítica: A Antena (Netflix)





Talvez um dos filmes mais inusitados a fazer parte do catálogo da Netflix, A Antena é uma produção argentina dirigida e roteirizada por Esteban Sapir e lançada em 2007.

Uma cidade com um visual típico da década de 1920 ou 1930 (mesmo com algumas tecnologias avançadas para a época), vive sob o domínio do Sr. TV (Alejandro Urdapilleta), responsável por roubar todas as vozes da população. Todas exceto a voz de uma famosa cantora conhecida como "A Voz" (Florencia Raggi), a única pessoa conhecida na cidade que ainda pode falar. Sr. TV resolve agora usar a cantora para roubar as palavras das pessoas e usá-las como matéria prima de seus produtos  nocivos que vende para a própria população da cidade.

Com referências claras aos filmes Metrópolis (1927) e Viagem à Lua (1902), A Antena tem um visual impecável, como se fosse mesmo uma grande produção da década de 1920. O cinema mudo e o uso dos intertítulos (usados na própria cena e não em um fundo preto), são sabiamente usados para justificar a falta de voz de quase todos os personagens da trama. Quando resolvem aparecer, as palavras brincam com o contexto da cena, como por exemplo palavras saindo de um megafone enquanto um personagem grita através do objeto. 



Há também o uso de stop motion, maquetes e projeções de fundo. Tudo isso ajuda a compor uma cidade em preto e branco e cheia de neve, cujos prédios parecidos e repletos de outdoors da estação de TV, formam uma atmosfera pouco alegre e monótona.

Cabe ao núcleo protagonista interromper os planos do Sr. TV. Composto por um inventor (Rafael Ferro), seu pai (Ricardo Merkin), sua ex-esposa (Julieta Cardinali), sua filha Ana (Sol Moreno) e o amigo da menina, Tomás (Jonathan Sandor), filho de “A Voz”, o grupo se une para ir até a uma antena desativada para usar a voz de Tomás para impedir que as palavras dos habitantes da cidade sejam roubadas. A pequena aventura vivida no filme, conta com um pouco de ação e perseguição, e por mais que a narrativa seja óbvia em seu maniqueísmo, o estilo proposto como um clássico filme mudo, não nos causa incomodo com personagens bem definidos entre mocinhos e vilões.  



A mensagem não poderia ser mais clara e infelizmente tão atual. Trata-se basicamente do uso da mídia como um produto nocivo e manipulador das massas que estão anestesiadas e literalmente sem voz. O símbolo da estação de TV nada mais é que uma espiral, muito usada para representar a hipnose. O símbolo é visto nos outdoors, na programação da Tv e até nos biscoitos vendidos para a população e fabricados pela própria estação do Sr. TV.

Nosso vilão não satisfeito em roubar as vozes das pessoas, pretende roubar também as suas palavras, o pouco que lhes restaram. Curioso como “A Voz” e Tomás possuem o poder de fala, porém lhes falta traços físicos. Enquanto “A Voz” não tem rosto, Tomás não tem os olhos e vive escondido dentro de casa, sendo que sua existência jamais pode ser descoberta pelo Sr. TV. Por ser ainda criança, é como se o menino não fosse literalmente capaz de enxergar a maldade do mundo a sua volta.


Há claras alusões ao nazismo e aos judeus em cenas em que o laboratório do cientista que ajuda o Sr. Tv com seus experimentos, forma o símbolo da suástica quando o ambiente está à meia luz. Já Tomás quando está preso à uma espécie de maca para que sua voz seja capturada pela antena, é nítido como o objeto tem a forma da estrela de Davi. Colocar a criança como a única capaz de salvar a cidade, traz a esperança de que a próxima geração possa fazer algo de melhor para ajudar o planeta.


Com uma trama interessante e um estilo incomum, A Antena é um excelente filme para os fãs de cinema mudo e de clássicos como Metrópolis. Não perca tempo e vá correndo conferir esse novo filme no catálogo da Netflix. 

domingo, 24 de novembro de 2019

Crítica: A Camareira (pode conter spoilers)




A Camareira (La Camarista, 2019) é o primeiro filme de Lila Avilés. O longa foi selecionado pelo México para competir na categoria de Melhor Longa-Metragem Estrangeiro na 92ª festa do Oscar.


A história acompanha o dia a dia de Eve (Gabriela Cartol), que trabalha em um dos hotéis mais luxuosos do México. Todos os dias a mulher é responsável pelo vigésimo primeiro andar onde troca roupas de cama, limpa banheiros e deixa shampoos, sabonetes e toalhas nas suítes.

Dentro de uma estrutura narrativa que desdramatiza todo o filme, observamos Eve quase sempre trabalhando e estudando dentro do próprio hotel, através de um programa fornecido pelo próprio lugar para que seus funcionários retomem os estudos. Lá ela tem alguns colegas de sala e entre eles, ela conhece Miriam (Teresa Sánchez), uma mulher que sempre que pode, ajuda Eve na limpeza de algum quarto.

Reservada, a personagem tem como objetivo duas coisas: a primeira é conseguir ganhar um vestido vermelho que foi esquecido por uma hóspede do hotel. Eve costuma passar pelo setor de “achados e perdidos” para checar se alguém veio pegar a peça de volta. Caso não apareça ninguém depois de um determinado tempo, a roupa será dela. Seu segundo objetivo e o principal deles, é sair do 21º andar e ir para 42º, onde costumam se hospedar pessoas importantes com altos cargos em empresas e no governo.



Nessa estrutura sem grandes conflitos, ficamos atentos nas pequenas ações do dia a dia da protagonista. Os eventos presentes na narrativa, servem como forma de análise de um mundo competitivo e cheio de interesses, além de um interessante estudo de nossa personagem principal. A humanização de Eve passa por questões tanto de sua maternidade quanto de sua própria sexualidade, tudo dentro do hotel, que ao mesmo tempo em que se trata do trabalho da personagem, é nesse mesmo lugar que Eve está “aprisionada” e o espectador tem apenas esse mundo dentro do trabalho da protagonista para analisar os principais aspectos de sua vida.

A fotografia desse mundo em que está inserida Eve, faz muito o uso de câmeras estáticas e cores brancas e acinzentadas. Curioso como o hotel sendo um dos mais conceituados na história e frequentados por classes altas, ganha um design de produção monótono e pouco convidativo, representando exatamente seu significado na vida da camareira.

A gentileza da mulher que toma conta do vestiário onde os funcionários do hotel tomam banho e trocam de roupa, carrega sempre a intenção de vender Tupperware ou cremes para as mãos. E o que dizer da hóspede argentina que cria um “laço” com Eve quando pede para que ela cuide seu filho enquanto ela vai tomar banho ou se depilar. A forma amigável e gentil da mulher também esconde seus interesses. Até mesmo Miriam em um primeiro momento, insiste para que Eve compre um brinquedo que ela está vendendo, logo quando surge essa “amizade” entre as duas.



São nesses momentos em que podemos descobrir mais de Eve, que precisa pagar alguém para cuidar de seu filho enquanto ela trabalha no hotel. Enquanto cuida do filho da hóspede argentina, fica claro a alegria da personagem em ficar com a criança, simbolizando o tempo que não teve para ficar com seu próprio filho.

Até o flerte (depois de Eve primeiramente recusar) entre a personagem e um funcionário encarregado de limpar os vidros das janelas do hotel, acontece de forma curiosa. Um strip-tease feito por Eve acontece em um dos quartos vazios enquanto o homem observa tudo do lado de fora no andaime enquanto trabalha. Tudo é distante e o vidro parece lembrar o distanciamento da camareira de seu mundo privado, e nesse caso da sua própria vontade de exercer sua sexualidade. Tudo em prol de sempre trabalhar para dar uma vida melhor para ela e seu filho. As janelas do hotel costumam aparecer muito no filme, também reforçando a possibilidade de algo fora do hotel, como quando Eve às vezes olha a vista lá fora de dentro dos quartos.



Depois de algumas decepções que refletem bem a competição e as injustiças no trabalho e  a pouca importância do hotel com um futuro melhor para os seus funcionários, Eve é obrigada a se contentar apenas com seu tão sonhado vestido, que agora já não é mais importante para a protagonista. É como se a personagem tivesse despertado para algo, que resulta na única cena em que vemos Eve do lado de fora do hotel: em cima de um heliponto olhando para o céu, como se pudesse finalmente respirar melhor.

O destino de Eve é ambíguo. Tudo o que vimos pode nos ter levado a crer que a personagem não será mais a mesma e que o despertar de sua consciência dentro do grande hotel, fará com que a mulher busque outros caminhos além das enormes janelas. Uma visão mais pessimista nos fará enxergar tudo o que presenciamos, apenas mais uma fatia de vida de uma camareira de um hotel luxuoso.

Erotismo e a cidade: Vidas nuas (1967) de Ody Fraga

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