segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Crítica | A Noite Devorou o Mundo - Zumbis como forma de autoajuda

Lançado nesse ano, A Noite Devorou o Mundo (La nuit a dévoré le monde, 2018) é o primeiro longa do francês Dominique Rocher que traz no seu currículo os curtas-metragens La vitesse du passé (2011) e Haiku (2009). Em A Noite Devorou o Mundo, Rocher retrata o universo dos filmes de zumbi de uma forma que nega alguns clichês que fazem parte de várias obras já conhecidas.
Sam (Anders Danielsen Lie) é um homem antissocial. À noite ele vai até o apartamento de Fanny (Sigrid Bouaziz), sua ex-namorada, para pegar uma caixa de fitas. Ao chegar no local, descobre que a garota está dando uma festa. Sem o menor interesse em interagir com as pessoas, Sam vai até o escritório do apartamento (a pedido de sua ex-namorada) para que eles possam conversar. O jovvem adormece no local e no dia seguinte, descobre que Paris (e provavelmente o resto do mundo) foi dominada por zumbis.





Lembrando muito uma versão zumbi de Robson Crusoé, o longa nega muitas características de outros filmes e séries, como cenas de ação, conflitos entre personagens e até os ataques mais violentos. Esses elementos até estão presentes em algumas cenas, mas fica claro que essa não é a principal proposta do diretor, que faz preferência por um ritmo mais lento ao focar apenas no protagonista e como ele lida com a situação a sua volta.
Situação essa aliás, que acaba que sendo bem confortável para ele, já que o personagem se vê completamente só nesse pequeno prédio. Aos poucos Sam vai se virando ao conseguir se livrar dos zumbis que habitam o local para conseguir ter acesso aos outros apartamentos para assim poder pegar mantimentos e até dar aos corpos de um casal de idosos que vivia no apartamento de baixo (e que se suicidaram), um fim respeitoso.



Mas o que aos poucos parece ser uma forma de viver perfeita (dadas as circunstâncias), se torna aos poucos um incomodo para Sam, que vai se sentindo incomodado e desconfortável com sua solidão. Alfred (Denis Lavant), um médico já transformado em zumbi e que ficou preso no elevador do prédio, serve de “companhia” para Sam. Aliás, através dele é que o personagem acaba desabafando sobre sua vida e sobre o que sente, servindo para que o próprio espectador saiba mais sobre a vida do protagonista.
Com o passar do tempo a vida vai ficando difícil para Sam, principalmente com a chegada do inverno, que acaba sendo usado no filme como um grande empecilho tanto para a sobrevivência do homem, quanto para frisar ainda mais sua solidão.  
Uma companhia especial fará com que o personagem reveja seus conceitos sobre a forma com que lida com essa situação, mudando de forma significativa sua forma de ver a vida e o próprio mundo.
A Noite Devorou o Mundo serve como uma interessante alegoria sobre pessoas que se veem em uma zona de conforto em que mesmo quando tudo parece (só parece) estar bem, é preciso mudanças e seguir em frente. Mesmo se o mundo lá fora parece ser ameaçador, temos que desbravá-lo e enfrentá-lo, correndo riscos.


segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O Canibalismo como Autoconhecimento e Canalização de Tensões



Se tem algo capaz de expandir o cinema de horror/terror e dar a ele substância para que o roteiro não seja algo que se resuma a ações e acontecimentos gratuitos,  é quando encontramos em um filme desse gênero, a capacidade de abordar temas reais e que afligem as pessoas serem transformados em alegorias que nos chocam e perturbam. Felizmente, filmes mais recentes têm trazido questões pertinentes e que rendem boas discussões, tanto sobre a forma, quanto sobre o conteúdo.
Imagine um filme sobre as inseguranças e pressões de uma adolescente que acaba de começar a faculdade. Até aí tudo bem. Mas imagine como esse assunto seria em uma abordagem que explora o canibalismo. É isso o que a francesa Julia Ducournau retrata em Grave (Raw, 2016), seu primeiro longa-metragem.
O filme foi um dos que mais chamaram a atenção do público e da crítica em 2017, principalmente pelos relatos de espectadores que teriam passado mal durante a exibição. Independente de notícias e até entrevistadores que estão mais preocupados em falar sobre o quão chocante o filme pode ser (embora seja compreensível que cada pessoa reaja de uma forma a cenas bem pesadas), Grave explora de forma eficaz as descobertas de Justine (Garance Marillier), uma jovem vegetariana que acaba de entrar na faculdade de veterinária. Após uma espécie de ritual realizado pelos veteranos para receber (e humilhar) os calouros, Justine passa a sentir um impulso que a faz desejar por carne, seja ela crua, cozida, de animal, ou…humana.
Ainda na França, Marina de Van lançou Em Minha pele (Dans ma peau, 2002). A história gira em torno de Esther (Marina de Van), uma mulher que após se cortar em uma festa, descobre um desejo crescente em consumir pequenos pedaços de sua própria carne.
Da mesma forma que Mate-me, por favor (2015), filme brasileiro dirigido por Anita Rocha da Silveira, trouxe o horror através das angústias da protagonista, o mesmo acontece em Grave e Em Minha Pele. Se no primeiro filme as reações da personagem podem ser entendidas como metáforas para suas inseguranças, mas talvez o mais importante, suas descobertas, no filme de Marina as questões que parecem mais obvias são de fato as preocupações, inseguranças e pressões de Esther.
Em Grave Justine sofre praticamente uma enxurrada de descobertas que parecem forçá-la a um amadurecimento em tão pouco tempo. A escolha da faculdade como local onde ocorre tudo isso, foi uma opção bem interessante. Em um dos diversos trotes que ocorrem no lugar, os calouros precisam engatinhar, o que pode facilmente remeter a ideia do engatinhar de uma criança que depois irá aprender a andar sozinha. O ato como alegoria para a própria ideia de amadurecimento, se encerra quando os alunos chegam a uma festa de boas-vindas, agora podendo ficar em pé e se divertirem.
Para Justine o engatinhar tem mais de um significado. Ele representa um ato meio animalesco e primitivo, levando em conta a descoberta que será feita pela própria garota, que começará a querer comer carne crua. Na festa, ela se sente completamente perdida enquanto procura por Alexia (Ella Rumpf), sua irmã mais velha, já veterana na faculdade.
Durante as aulas Justine observa um cavalo sendo anestesiado, autopsia de animais ou os mesmos dentro de potes de vidro para se manterem conservados. Esses símbolos casam muito bem tanto com o mórbido, quanto com a ideia da presa fácil, assim como parecem representar a vulnerabilidade de Justine diante de sua insegurança, que a torna naquele momento um “animal” acuado.
Com tantas exigências e hostilidade vindas até do próprio professor, começam os atos da personagem como forma de canalizar toda essa situação desconfortável. A tricofagia (transtorno comportamental na qual a pessoa transtornada passa a engolir os próprios cabelos), é retratada aqui em uma cena agoniante e repulsiva. São nesses momentos que o gênero do horror mostra sua maestria ao maximizar algo que por si só já seria aflitivo.
Mas mais visceral, é claro, está na descoberta da protagonista em comer carne crua. Essa descoberta é sem dúvidas a mais importante para o amadurecimento da personagem. O que no primeiro momento pode parecer algo feito apenas para chocar ou causar repulsa, ainda mais pelo fato do filme ser de terror, traz um significado que vai mais além do gore: uma descoberta de instintos que Justine sabe que se não controlados, podem fazer mal às pessoas à sua volta. Sua vontade de comer carne vai aos poucos extrapolando as fronteiras do permissível quando ela passa a olhar para Adrien (Rabah Nait Oufella), seu colega de quarto, de uma forma diferente. Aqui esse olhar representa também tanto uma afloração da sexualidade, já que a personagem ainda não teve nenhuma relação sexual, como o desejo pela carne do colega.
Justine então tem a tarefa de usar o racional para que nada saia do controle. O canibalismo aqui é retratado como algo que não pode ser negado, pois faz parte de Justine, ao mesmo tempo em que deve ser usado o bom senso, culminando numa forma excêntrica em como o filme aborda a importância do autoconhecimento como forma de evoluirmos como pessoa.
Além disso, a relação entre Justine e Alexia também é retratada no filme. A relação das duas irmãs é responsável pela exploração rica das personagens, que tantas vezes é deixado de lado nos filmes de terror. A relação que se por um lado está entre o amor e o ódio, além de muita competição entre ambas, por outro mostra um amor incondicional entre elas que está acima de qualquer desavença. Até mesmo em uma briga entre Justine e Alexia, o trabalho corporal das duas atrizes as fazem parecer dois animais selvagens, marcando mais uma vez o animalesco e o visceral tão presentes no longa.
Em Minha Pele a complexidade da protagonista pode ser considerada até mais simples, do que em Grave.Sem haver de fato uma explicação para o que desencadeou o comportamento de Esther, algumas pistas dão a entender que a mulher sofre várias pressões, seja no trabalho ou até em seu relacionamento com o seu namorado. Mais intimista, seu vício não prejudica ninguém ao seu redor, a não ser ela mesma.
A direção se concentra em cenas demoradas como forma de deixar tudo ainda mais perturbador. A personagem analisa seu corpo de forma lenta antes de começar a se morder. Em uma cena em que Esther estica a pele de sua barriga, o desconforto para o espectador aumenta gradativamente enquanto a cena propositalmente demorada, cria essa inquietude em quem assiste.
Diferente de Grave, Esther passa o filme todo escondendo sua situação de todos e acaba ficando completamente só. A personagem parece não sentir dor, como se já estivesse anestesiada diante do mundo e sendo assim incapaz de sentir. Aliás ela até sente algo, que é justamente tudo aquilo que a faz insegura e inquieta. Mas essas questões parecem tão mais fortes, que morder seu próprio braço acaba sendo algo que além de servir como escapatória para seus problemas emocionais, serve para aliviar certas dores que podem ser mais fortes do que a dor física.
Conforme vai se isolando de tudo e todos, Esther muitas vezes é vista por nós como uma usuária de drogas, como se de fato seu vício em comer sua própria carne fosse também uma alegoria para uma fuga nas drogas e que ganha aqui um sentido mais literal de autodestruição.
Sem dúvidas tanto Grave quanto Em Minha Pele, conseguem chocar sem deixar de lado uma boa construção de personagens, que através de diversos aspectos psicológicos e comportamentais, cria uma narrativa sólida e capaz de usar o horror para abordar questões que fazem parte dos males da humanidade.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Razões para você assistir ao filme "Corpo Elétrico"

Marcelo Caetano já tinha (e tem) uma carreira bem consolidada antes mesmo de dirigir e roteirizar esse, que é seu primeiro longa-metragem. Dirigiu os curtas Bailão (2009), Na Sua Companhia (2011), Verona (2013) e Blasfêmea (2017), codirigindo o último com Linn da Quebrada. Seus curtas foram exibidos em festivais como Roterdã, Clermont-Ferrand, Indie Lisboa, Huesca e Montreal. O cineasta também foi co-roteirista e assistente de direção de Mãe só há uma (2016) de Anna Muylaert, assistente de direção e ator em Boi Neon (2015) de Gabriel Mascaro, produtor de elenco em Aquarius (2016) de Kleber Mendonça Filho e diretor assistente deTatuagem (2013) de Hilton Lacerda.
Corpo Elétrico (2017) gira em torno de Elias, um rapaz vindo da Paraíba para trabalhar em uma confecção na cidade de São Paulo. Observamos o personagem na sua rotina, saindo com seus amigos e conversando com outros caras sobre seus sonhos e sua vida depois de uma transa sem qualquer compromisso.
Com vários temas abordados, Elias foge no clichê do personagem clássico que vem do sertão e vem trabalhar em São Paulo. Aqui o clássico “cabra macho” num sentido machista, dá espaço para um jovem de 23 anos de idade, homossexual e que ainda não sabe bem que rumo tomar na vida. Elias apenas vive, e a narrativa também não se preocupa com um formato clássico, trazendo mais o que se pode chamar de “uma fatia da vida de seus personagens”, do que uma história transformadora.
1 . A dualidade das relações entre os personagens no ambiente de trabalho e fora dele
O longa demarca muito bem dois mundos: o dia a dia de Elias na confecção e quando sai com os colegas de trabalho. Na fábrica a paleta de cores apresenta tons brancos e acinzentados que estão presentes nas paredes e nos uniformes dos funcionários. A câmera mais estática e com pouca movimentação, também parece representar a monotonia de Elias, assim como os planos mais demorados que enfatizam mais o tempo do protagonista na tela enquanto ditam um ritmo mais parado no ambiente de trabalho. Os funcionários, tanto figurantes quantos personagens, aparecem em suas mesas de trabalho organizados e alinhados, exatamente como uma linha de produção, que reforça bem os sons das máquinas de costura trabalhando.
Tudo muda em um plano sequência muito interessante em que os personagens estão saindo da confecção e andando por uma rua em direção ao bar. Sem seus uniformes, a câmera passeia por esses pequenos grupos enquanto ouvimos pedaços de conversas sobre as vidas, sonhos e batalhas de cada um. Nesse momento surge um calor mais humano no lugar do som das máquinas, que dão espaço para conversas mundanas, mas capazes de nos apresentar a esses personagens de forma orgânica e fluída.
  1. Relações de amizade e de sexo fluídas. O corpo importa.
Corpo Elétrico apresenta um diferencial na forma de retratar a vida sexual de seu protagonista, Elias. Com uma vida sexual ativa, o personagem é visto tendo relações sexuais, desde com amigos até ex-namorados. Essas relações sexuais são mais sugestivas do que concretas e explícitas, uma vez que o roteiro parece buscar aqui um outro sentido na forma em que exibe essas cenas.
O corpo aqui está em primeiro lugar e juntamente com o encontro de outros corpos é que também emana essa eletricidade vinda do título. Os sons de beijos, lábios sobre a pele, são realçados no longa como forma de ampliar ainda mais essa noção do contato com o outro, algo bem diferente das relações na confecção.
Essas relações também não ganham etiquetas de definição. Não há um compromisso sério entre os parceiros sexuais de Elias, apenas um momento de troca de energia e prazer. O carinho com essas pessoas está bem mais além de um compromisso e até do próprio sexo, que acaba sendo mais uma consequência de tudo.
  1. Naturalidade nas atuações
Os diálogos por vezes se sobrepõem, enriquecendo o contato e a harmonia entre eles. Há cenas de festa, ou até de uma simples conversa no bar em que esses personagens conversam e nós nos sentimos como se estivéssemos lá com eles. Isso deve-se muito a escolha do elenco, que por não ter atores conhecidos do grande público, principalmente o televisivo, ajuda a criar essa naturalidade essencial no filme.
  1. Pluralidade nos núcleos e interação entre os mesmos
Drags, gays afeminados, trans, mulheres e homens cis heterossexuais, sendo um deles vindo de Guiné Bissau. Tudo junto e misturado. Esses núcleos não só representam uma pluralidade interessante, como também se juntam durante o filme. Elias por vezes se perde por todos esses núcleos ao ponto de se despir de seu papel de protagonista. Isso não é algo negativo, pelo contrário, traz mais naturalidade ao personagem que transita por esses núcleos, reforçando uma união.
Drags fazem um casamento simbólico de um casal heterossexual, mulher trans faz sexo com um homem cis homossexual, gays em uma festa que acontece em um jogo de futebol e até um samba no ônibus onde gays e heterossexuais cantam juntos. Utopia no país onde se mais mata LGBTs no mundo? Não, pois Corpo Elétricoestá mais preocupado em celebrar as diferenças e o respeito entre elas. Pode ser difícil de achar, mas tem.
  1. Curtir o momento às vezes é tudo o que precisamos no momento
Elias é cobrado por um funcionário da confecção sobre seu futuro e o que fazer da vida. Quem nunca teve uma fase assim? Somos constantemente cobrados pela sociedade um rápido amadurecimento que nem sempre estamos prontos para atender. Às vezes um dia na praia e não aparecer no trabalho, é algo que precisamos fazer, podendo ser metaforicamente ou literalmente, como ocorre no filme. E é nessa fatia de vida de Elias que percebemos que algumas fases da vida não precisam de um entendimento ou que faça um grande sentido no momento, e é isso o que o roteiro de Corpo Elétrico também busca.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Anomalisa



Está na Netflix uma das animações mais interessantes dos últimos anos: Anomalisa (2015). Dirigido por Charlie Kaufman, responsável pelo roteiro do cultuado Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004), o longa conta a história de Michael Stone (que conta com a voz de David Thewis), um palestrante motivacional que está em Connecticut para um seminário. No hotel onde está hospedado e onde também ocorrerá o evento, Michael entra em contato com uma antiga namorada. Após a tentativa de reaproximação falhar, o homem conhece Lisa (voz de Jennifer Jason Leigh), por quem se apaixona.
Anomalisa tem algumas contradições excelentes. O tema é claro ao abordar a falta de conexão de Michael com seus próprios sentimentos e principalmente com as pessoas. Curiosamente o filme foi todo feito em stop motion utilizando justamente bonecos que reforçam essa ideia de algo “mecânico”. Mas engana-se quem pensa que os personagens têm seus movimentos de forma pouco natural. Pelo contrário, com exceção de alguns vincos propositais nas faces de todos os personagens, que frisam a ideia de que eles são de fato bonecos, todos no filme caminham e agem de forma bem natural. Como se não bastasse, a história é de uma humanidade imensa.
Outro detalhe que chama a atenção, é a voz dos personagens. O longa conta com três atores: dois já citados acima, e Tom Nooman, que dá voz a todos os outros personagens no filme. Até mesmo às personagens femininas. Vale lembrar que o rosto desses personagens são bem parecidos entre si, e no momento em que até a voz se torna a mesma, isso é claramente a representação de um mundo monótono para Michael e sua incapacidade de enxergar as pessoas como indivíduos únicos, embora ironicamente o livro escrito por ele, fala exatamente sobre o tratamento especial que uma empresa deve dar aos seu clientes.
Tudo muda porém, quando Lisa entra em cena. Nesse momento fica impossível não criarmos uma expectativa em torno desses dois personagens. Insegura e com uma cicatriz no rosto, Lisa é uma mulher comum e que gosta de ouvir as músicas de Cyndi Lauper, em especial Girls Just Want to Have Fun. Vale apontar que a protagonista é a única que tem uma voz feminina, caracterizando algo de especial nela, que é facilmente reconhecido por Michael e que o faz se apaixonar por ela. O “Anomalisa” vem da junção de “Anomalia” com “Lisa”, junção essa criada por Michael e que agrada a mulher. Lisa se diferencia no filme justamente pela sua simplicidade, que ao mesmo tempo em que a faz ser alguém que não se destaca no mundo, uma “anomalia”, ao mesmo tempo a destaca dos demais no filme.
Será que temos um grande romance em Anomalisa? Vivemos na era do amor líquido, onde emoções e sentimentos vêm e vão com facilidade. Pensamos sentir algo, mas às vezes tudo é questão de momento. Sendo assim, essa falta de conexão existente no tema do filme, foi apontada por alguns espectadores como algo que respingou até nos personagens, em especial Michael, que frequentemente é citado nos comentários sobre o filme, como alguém que não desperta a empatia de quem assiste. Proposital? Talvez.
Anomalisa é um excelente filme de estudo de personagens inseridos em um contexto pós-moderno, que merece ser discutido e refletido. Sem dúvida alguma, se você ainda não conferiu o filme, vá correndo ver na Netflix.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Um Mundo de Sombras: O Gabinete do Dr. Caligari e o expressionismo alemão

A arte expressionista já existia na pintura (tomando conta rapidamente do teatro e da literatura), e se desenvolveu principalmente na Alemanha, fazendo com que surgissem importantes artistas como Vincent Van Gogh e Edward Munch. O movimento artístico na pintura procurava a expressão dos sentimentos e das emoçõe, sem necessariamente representar uma realidade objetiva. O lado pessimista da vida também pode ser representado dadas as circunstâncias históricas da época, como o isolamento e a alienação.
A Primeira Guerra Mundial destrói o movimento, mas não o extingue, criando-se assim outra forma de se expressar: o cinema. O contexto histórico do Expressionismo Alemão se encontra na participação da Alemanha na Primeira Guerra Mundial. O país saiu derrotado e humilhado da guerra e um sentimento de incerteza em um mundo sem clareza, com perda de suas referências e uma constante preocupação com o amanhã, tomou conta do país e de seu povo naquela época. Essa situação também trouxe para a Alemanha um questionamento da sua realidade social, o que foi suficiente para que os cineastas da época se jogassem nesse contexto histórico para expressar toda essa obscuridade em seus filmes.
Se formos citar um filme que marca esse movimento por agrupar todos os elementos típicos do expressionismo alemão, esse filme é sem dúvidas O Gabinete do Dr. Caligari de 1920. A história se passa em um pequeno vilarejo onde um misterioso hipnotizador (Dr. Caligari) chega acompanhado do sonâmbulo Cesare, que supostamente estaria adormecido por 23 anos. À noite, Cesare perambula pela cidade, concretizando as sinistras previsões de seu mestre. 
O longa traz um universo fantástico e cheio de dúvidas e incertezas. Tudo isso com um visual extremamente forte e atraente. Embora a Alemanha também tenha na sua produção filmes que não necessariamente tenham um forte e característico visual como em O Gabinete do Dr. Caligari, eles também se encaixam no movimento expressionista alemão. Personagens ambíguos, cenários tortos (propositalmente) e o uso de sombras, parecem revelar o estado psicológico dos personagens, como que uma representação do “mal” (o chamado autoritarismo e elitismo) que dominou a Alemanha.   
O expressionismo alemão evoca uma morbidez, horrores e elementos fúnebres que criam uma atmosfera de pesadelo que refletia a alma sofrida da Alemanha, depois da Primeira Guerra Mundial. O movimento é considerado o berço dos filmes de terror que surgiriam a seguir e traz até hoje, em seu forte estilo visual, inspiração para diversos filmes no mundo todo.
Confira O Gabinete do Dr. Caligari completo, abaixo!

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Suspense de Qualidade na Netflix: “Um Contratempo”












O cineasta Oriol Paulo conta com apenas seis trabalhos em que atuou na direção. Mesmo assim, o diretor espanhol já apresenta alguns filmes bem significativos em dois gênero que são predominantes em suas obras: o thriller e o suspense. Em Os Olhos de Júlia (Los Ojos de Julia, 2010) , Oriol apenas colaborou com a escrita do roteiro, que conta a história de Júlia (Belén Rueda), uma mulher que tenta investigar o misterioso assassinato de sua irmã gêmea enquanto perde a visão aos poucos por conta de uma doença degenerativa. Mesmo com sua pequena colaboração, o tom sombrio e de mistério estão presentes no longa, dirigido por Guillem Morales.
O primeiro trabalho de fato mais significativo na carreira do cineasta, foi com o filme O Corpo”(El Cuerpo, 2012), escrito e dirigido por Paulo. No filme, o detetive Jaime (Jose Coronado) procura pelo corpo de Mayka (Belén Rueda), que sumiu do necrotério, deixando seu marido Álex (Hugo Silva) como o principal suspeito de ter assassinado a mulher. Com diversas reviravoltas e um final surpreendente, Oriol Paulo conquista facilmente o espectador com uma narrativa intrigante e cheia de surpresas. O longa se encontrava disponível na Netflix até começo do ano, mas infelizmente já saiu do catálogo.
Essas características presentes no cinema do diretor, continuam vivas em Um Contratempo (Un Contratiempo, 2016), que está disponível na Netflix. Dessa vez um jovem homem de negócios, chamado, Adrián Dória (Mario Casas), é acusado do assassinato de Laura (Bárbara Lennie), sua amante. Enquanto aguarda o início do julgamento em seu apartamento, seu advogado contrata os serviços de uma outra advogada, Virginia Goodman (Anna Wagener), para orientá-lo melhor nas suas declarações perante o juiz. E é nessa sala do apartamento de Adrián, que a trama se desenrola durante muitos relatos, suposições, mentiras e claro, revelações.
O roteiro brinca conosco no que diz respeito ao ponto de vista. O espectador é apresentado a uma cadeia de acontecimentos que são contados a partir do ponto de vista, ora de Adrián, ora de Virginia. O embate entre a advogada e o acusado se dá através de alguns jogos que são feitos entre eles. Enquanto Virginia precisa saber de toda a verdade para assim criar uma estratégia sólida para defender seu cliente, Adrián não parece confiar muito na mulher até ter certeza de que pode contar mais detalhes do que aconteceu. A partir daí, percebemos como a morte de Laura é apenas a ponta do iceberg na trama. Os relatos (que aparecem todos em flashbacks) apresentam boas reviravoltas e possibilidades que às vezes fazem nos perder (de maneira positiva creio eu) ao indagarmos em que ponto estamos ouvindo a verdade ou se um determinado personagem é ou não confiável.
Além disso, a forma como alguns personagens e elementos estão organizados no enquadramento são essenciais para “mascarar” pontos que entregariam a narrativa e que só terão um grande impacto mais adiante da história. A fotografia basicamente se divide em cores quentes e frias. As cores quentes são usadas justamente nas cenas cujas discussões (como na sala de Adrián) são mais acaloradas e quando os personagens estão perto de descobrirem algo que está sendo ocultado deles mesmo. Já os tons mais acinzentados ficam para a cidade e as cenas de rotina de Adrián, cujo sucesso como um bem-sucedido homem de negócios, se mistura com sua frieza com que às vezes é capaz de mentir e tentar se dar bem a todo custo.



As atuações são muito boas também, mas o destaque fica para Anna Wagener, que consegue passar em sua personagem, uma dureza e ao mesmo tempo uma sensibilidade, principalmente se levarmos em consideração suas motivações diante do caso que ela tenta decifrar. O jogo feito por ambos os personagens principais, conta muito com expressões que carregam subtextos, já que cada um ali na sala enxerga a situação de forma diferente e principalmente com objetivos diferentes.
Se você gosta de um bom thriller, vá correndo assistir Um Contratempo e aproveite para conferir os outros trabalhos de Oriol Paulo, que já mostra ser um excelente diretor, capaz de nos prender com suas histórias cheias de tensão e suspense. Sem duvidas, um cineasta pra ficarmos de olho.


segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Praticamente da Família - as relações entre patrões em empregadas nos filmes "A Criada" e "Que Horas Ela Volta?"



Que Horas Ela Volta? (2015) de Ana Muylaert, foi sem dúvidas um grande marco no cinema brasileiro. O longa com uma história simples, conseguiu revelar todas as sutilezas que desvendam os limites dentro da convivência entre patrões e empregadas domésticas. O “praticamente da família” pode parecer até um elogio em um primeiro momento, mas ao longo do filme vamos percebendo essas linhas que separam a família de Val (Regina Casé).
Já em A Criada (La Nana, 2009), filme chileno dirigido por Sebastián Silva, as semelhanças com Que Horas Ela Volta?, terminam logo quando percebemos uma abordagem mais intimista ao mesmo tempo em que também vai revelando as relações entre os integrantes da casa com Raquel (Catalina Saavedra), empregada que trabalha há anos na casa da família.
Mas o que se destaca entre esses dois filmes, é sem dúvida o ponto de vista das protagonistas e o arco das personagens. Esses duas mulheres veem uma ligação forte com as famílias para quem trabalham, enquanto o espectador mais atento está ciente de que essa relação quase familiar não existe. Val e Raquel passam o filme todo sem essa consciência, embora elas evoluam ao longo da narrativa e tomam decisões importante em suas vidas.
Na apresentação de Val, vemos a rotina da personagem nos seus afazeres da casa e na sua relação com os integrantes da família, em especial, Fabinho (Michel Joelsas), único filho de seus patrões Bárbara (Karine Teles) e Carlos (Lourenço Mutarelli). Tanto aqui quanto em A Criada, as duas personagens criaram os filhos dos patrões e consequentemente criaram fortes laços com eles, gerando muitas vezes um grau de intimidade maior do que com a própria mãe desses personagens.
No filme de Sebastián Silva, o próprio espectador já está inserido na cozinha. A câmera que está dentro do cômodo, nos coloca no lugar onde a personagem passa boa parte de seu tempo. Enquanto isso, vozes em off vindas da sala de jantar nos apresentam a família a partir dos diálogos sobrepostos de crianças e adultos. Segundos depois entra na cozinha, Raquel, que se senta à mesa e começa a jantar enquanto encara a câmera por alguns segundos.
Anna Muylaert também vai trabalhar esse ponto de vista da cozinha em algumas cenas de forma também efetiva, quando a câmera que fica na cozinha, enquadra uma parte da sala de jantar e da cabeceira da mesa. Esses enquadramentos coloca tanto Val, quanto Raquel no lugar que no final das contas é aquele que sempre irá de fato pertencer à elas: a cozinha.
Quanto aos patrões, eles de forma alguma caem no estereótipo dos vilões carrascos e arrogantes. Pelo contrário, tratam bem seus funcionários e como observado em A Criada, preparam até mesmo uma festa de aniversário surpresa para Raquel. Depois do jantar, claro. E com direito a um pequeno sino tocado pela patroa para que Raquel apareça na sala de jantar e receba seus presentes. Em A Criada, a protagonista Raquel é uma pessoa introvertida e que fala pouco de si. Aqui o roteiro trabalha algo mais intimista ao mesmo tempo em que aborda essa relação da emprega doméstica com os patrões. A narrativa está mais voltada para a descoberta da personagem na real amizade e companheirismo que está dentro da própria casa, mas que não vem de seus patrões, mas sim de sua colega de trabalho. Lucy (Mariana Loyola) é contratada por Pilar (Claudia Celedón) para que a mesma ajude Raquel nos afazeres domésticos, quando percebe que a mulher parece estar cansada demais para dar conta de toda a casa.
Até chegar em Lucy, Raquel dava um jeito de atrapalhar a vida das outras funcionárias que passaram pela casa. Sua tática preferida era trancar as mulheres para fora, gesto esse que diz muito sobre Raquel. Esse forte “vínculo familiar” construído pela personagem ao longo dos anos, é baseado apenas no ato de servir seus patrões. A personagem não aceita mais ninguém fazendo isso a não ser ela mesma. Enquanto os patrões até se esquecem do tempo exato em que Raquel trabalha com eles, ou até mesmo da idade da personagem, Raquel nunca tem a consciência que nós temos como espectadores. “As crianças me adoram” é uma frase dita mais de uma vez por Raquel, que nutre esse vínculo praticamente sem reciprocidade.
Lucy, recém-chegada a casa, é a única que consegue enxergar Raquel de outra forma e tirar de letra a forma hostil com que foi tratada pela personagem. Com humor, Lucy lapida o material bruto que existe na protagonista e a faz descobrir que ela não é uma ameaça. Lembrando que essa capacidade de transformação da personagem, nunca foi alcançada por seus patrões durante todos os anos de convivência.
Já em Que Horas Ela Volta? Val é bem diferente de Raquel. Mais expressiva e bem-humorada, ela nutre um carinho especial por Fabinho, que também o criou desde criança. O conflito aqui é estabelecido a partir de sua filha Jéssica (Camila Márdila), que ficou em Pernambuco para que sua mãe trabalhasse durante todos esses anos em São Paulo. Também com essa abordagem mais intimista da relação das duas, o filme de Muylaert está mais equilibrado, sendo ao mesmo tempo social ao falar das mudanças ocorridas no Brasil a partir da personagem de Jéssica, ao mesmo tempo em que mantém a abordagem pessoal da relação mãe e filha.
Jéssica chega a São Paulo para prestar vestibular e sua mentalidade não a coloca como a clássica filha da empregada. Ela fica no quarto de hóspedes da casa até chegar o dia da prova. Diferente de Pilar em A Criada, Bárbara é um pouco fria enquanto tenta ser mais simpática com Jéssica. Existe um tipo de confronto velado entre a patroa que se sente incomodada ao ver a filha da empregada na piscina da casa e da jovem que não quer se sentir diminuída por ser a filha da mulher que trabalha para Bárbara. Val no entanto, com uma mentalidade bem diferente, até por conta da diferença de gerações, não compreende a filha e defende que a pessoa deve saber qual é o “seu lugar”.
Com duas mulheres protagonistas e que não têm consciência alguma dessas sutilezas capazes de revelar as reais relações entre patrão e empregado, tudo acaba ficando mais claro para o espectador que é capaz de notar essa falsa reciprocidade e a falta de laços que permeiam a convivência entre essas personagens. A libertação de Val em Que Horas Ela Volta? É mais explícita do que em A criada. Compensar o tempo perdido com a filha se torna uma prioridade para Val, que toma uma decisão talvez até já esperada pelo público.  Já em A criada, Raquel gera uma mudança interna, pensando mais em si e se abrindo mais para o mundo e para as pessoas, enquanto continua pertencendo “praticamente da família” na casa de seus patrões.

Erotismo e a cidade: Vidas nuas (1967) de Ody Fraga

  O aspecto mais interessante em Vidas nuas é a fluidez como a cidade de São Paulo é filmada, desde seu primeiro plano quando temos acesso ...