terça-feira, 13 de agosto de 2019

Crítica - Histórias Assustadoras para Contar no Escuro


E chega aos cinemas Histórias Assustadoras Para Contar no Escuro. O longa é uma adaptação de uma série de livros homônima escrita por Alvin Schwartz. As obras que são divididas em três livros, contam com histórias do folclore americano e também de lendas urbanas voltadas para o público infantil.


Na adaptação para o cinema, o roteiro foi escrito por Dan e Kevin Hageman e dirigido pelo cineasta norueguês André Øvredal, responsável por filmes como O Caçador de Troll (2010) e Autópsia (2016). O que chama atenção e que acabou fazendo toda a diferença no filme, é a produção de Guillermo del Toro (que quase dirigiu o filme em um primeiro momento), que também foi responsável pelo design das criaturas no longa.


A história se passa em 1968 e gira em torno de  três adolescentes, Stella, Auggie e Chuck, que vivem em uma cidade do interior da Pensilvânia. Na noite de Halloween, o grupo está se preparando para se vingar de Tommy, um garoto que sem oportuna o grupo. 

Em meio a uma perseguição, os três amigos conhecem o mexicano Ramon e juntos decidem explorar uma casa mal assombrada que pertenceu à família Bellows, responsável por fundar a cidade. Na casa, eles encontram uma sala secreta e um livro de histórias assustadoras pertencentes a Sarah Bellows, que por conta de sua doença, era renegada e maltratada por toda família. Stella desperta o espírito de Sarah e histórias perturbadoras envolvendo um a um de seus amigos e pessoas próximas, passam a serem escritas sozinhas no livro encontrado.


Antes de mais nada é preciso levar em conta que o filme tem a classificação de 14 anos e que o espectador precisa estar ciente de que não estamos diante de um Invocação do Mal. Sabemos que quando se fala em terror, um filme voltado para um público mais novo, tende a fazer com que fãs adultos do gênero do horror, torçam o nariz. Mesmo assim para um filme com essa classificação, ele é bem feito e perturbador o bastante para atingir seu público alvo e porque não também os adultos.

Fica claro como o tom do filme tem um Q de Guillermo del Toro, principalmente como ele cria a atmosfera de fábula e de um horror que perturba, ainda que seja inevitável os famosos jump scares. As criaturas são um dos pontos altos no filme e cada uma perturba a sua maneira. Há desde espantalhos, até as famosas almas e uma criatura sinistra e assustadora.




O roteiro também tem seus méritos. Cada história que corresponde a um personagem do filme que será a vítima, acaba tendo relação com o que Sarah no passado passou e com o que a própria vítima está passando na vida pessoal. Algumas alegorias são mais explícitas e outras são mais vagas, exigindo um pouco mais do espectador para associar o conto de terror com o terror da vida real dos personagens. Alguns temas como empatia, medo, ser mal compreendido e até as típicas espinhas na adolescência, se transformam em horripilantes alegorias graças aos monstros dos livros de Schwartz.

O filme também contextualiza a história, mas sem também se aprofundar muito, com a  Guerra do Vietnã e as eleições que elegeram o presidente Richard Nixon. O racismo também aparece no filme, assim como a xenofobia, por conta do personagem de Ramon. Toda essa tensão e conflito, mesmo que aparecendo no roteiro de forma mais vaga, serve para contextualizar o terror na história com o terror do mundo real, mesmo que esses dois mundos apareçam no filme um pouco distantes uns dos outros. Mesmo assim, fica clara a ideia de um espelhamento.  

Com um filme voltado para um público mais jovem, Histórias Assustadoras Para Contar no Escuro, consegue se destacar e atrair os verdadeiros fãs de terror. Pode-se até dizer que ele consegue se sobressair a muitos filmes por aí (A Maldição da Chorona...Cof, cof!) que apresentam uma classificação maior que a sua.

domingo, 28 de julho de 2019

Na Netflix: Temporada - as mudanças vistas onde "nada acontece"




André Novais de Oliveira é diretor, produtor executivo, roteirista e sócio fundador da Filmes de Plástico, produtora audiovisual que fica em Contagem, Minas Gerais. A criação da produtora acontece em 2009 em uma parceria com Gabriel e Maurílio Martins, e Thiago Macedo Correia. André é formado em cinema pela Escola Livre de Cinema e graduado em história pela PUC-Minas. Além de realizar pesquisas sobre história do cinema desde 2006, o cineasta dirigiu os filmes Fantasmas (2011), Ela Volta na Quinta (2014) e Quintal (2015).

Temporada (2018), seu mais novo trabalho, foi vencedor do prêmio de melhor filme no último Festival de Brasília. A história gira em torno de Juliana (Grace Passô), que acaba de se mudar de Itaúna para a periferia de Contagem, para trabalhar no combate a endemias na região. No novo emprego, ela conhece novas pessoas e vive situações enquanto espera o marido sair do trabalho para também se mudar para a nova cidade.

Temporada é um filme que impressiona por sua naturalidade, fazendo com que nós também estejamos lá com os personagens e não apenas assistindo a um filme. O Longa não precisa ser só assistido, mas também contemplado. O ritmo é lento, assim como costumam ser algumas mudanças em nossas vidas. A evolução da personagem principal se dá por pequenos grandes momentos que até mesmo os personagens secundários não estão cientes do que está acontecendo com Juliana.


Nossa protagonista é uma mulher que não gosta muito de falar sobre sua vida, mesmo que ao mesmo tempo ela esteja aberta para conhecer novas pessoas no trabalho e interagir com elas. O espectador é a única testemunha dos problemas e aborrecimentos presentes na vida da personagem. As cenas expositivas que Juliana tem com a prima, são pontuais e suficientes para sabermos mais sobe essa mulher. Depois disso, cenas que dispensam diálogos são mais que suficientes para entendermos o que está acontecendo.

Em uma outra cena importante, Juliana apenas diz: “Sei como é”, quando outra personagem (também negra) conta sobre um dia em que se sentiu discriminada na frente dos amigos do ex-marido. São em momentos como esse, que o filme também aborda questões como machismo e racismo, sempre mantendo a simplicidade dentro de um cotidiano em que “nada parece acontecer”, mas que é perceptível o impacto que isso traz em Juliana.

Tudo isso se desenvolve na rotina dos personagens indo de casa em casa para averiguar possíveis focos de dengue nos bairros e comunidades de Contagem. A relação dos agentes com os moradores também é retratada no longa, que consegue um fiel retrato da periferia de Contagem, seus problemas, mas também a forma acolhedora com que recebe os agentes de saúde.



Se você gosta de filmes mais contemplativos e que buscam explorar seus personagens de uma forma lenta, mas ao mesmo tempo evolutiva através de sutilezas que fazem a diferença, vá correndo ver Temporada na Netflix.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

As mãos do povo operando uma câmera: História do Brasil e cinema brasileiro




Como estudante do cinema brasileiro não tem como as últimas declarações do atual presidente não afetarem-me de alguma forma. O cheiro da censura insinua-se mas não surpreende essa pessoa que vos escreve, que além de acreditar num pessimismo cósmico, também tem tentado saber mais sobre a história do Brasil. História do Brasil e cinema brasileiro inclusive tem uma íntima e difícil relação sendo que este último, por muitas vezes, tentou ser o espelho fiel das tensões e tendências do primeiro.

O nascimento do cinema brasileiro é emblema de nosso subdesenvolvimento e vocação para colônia. A primeira filmagem da baia de Guanabara feita por mãos de imigrantes italianos mostra que foram sempre as mãos estrangeiras que operaram e dominaram o que é de mais novo e desenvolvido nesse país. Não que a mais alta cultura não tenha sido criada pelo povo, vide o samba de Cartola e tudo o mais. Porém o cinema como arte da técnica tem o seu desenvolvimento sabotado em nosso país, justamente porque as mãos do povo dificilmente operaram uma câmera. Essa triste imagem nos ajuda a entender o papel marginal do cinema que volta a aparecer em nosso horizonte. A marginalidade do cinema brasileiro e de quem faz cinema no Brasil tem tudo a ver com essa imagem evocada, porque a câmera sempre esteve nas mãos do estrangeiro.
É claro que falo desse modo do ponto de vista estrutural. Novamente, afirmo, o mais alto cinema foi feito nessas terras com Glauber, Sganzerla, Nelson Pereira dos Santos e afins, mas estruturalmente, a dependência econômica geral do país refletiu no cinema, como não poderia ser diferente. Então, o cineasta brasileiro vive um drama, vive em crise constante. Nos anos 60, o debate do cinema nacional voltava-se para a relação entre a construção de uma indústria cinematográfica nacional, incentivada pelo estado que ao mesmo tempo respeitasse a liberdade do cinema autoral. Com o advento da ditadura militar, os cineastas brasileiros viram todas as suas esperanças ruírem para depois verem o seu maior sonho tomar forma de uma maneira degradada.
O nascimento da Embrafilme sedimenta esse momento no qual o estado toma para si a responsabilidade de financiar o cinema brasileiro, mas esse estado era o autoritário governo militar. No início, alguns cineastas argumentavam que não se poderia confundir o estado com o governo, ou seja, mesmo que o governo na época fosse autoritário, não significava que as políticas estatais eram totalmente ruins. No entanto, contradições começaram a surgir e a vida dos cineastas brasileiros ficou em crise novamente. O regime financiava o setor cinematográfico a partir de suas diretrizes ideológicas, vendo no cinema o meio ideal para a propagação do novo Brasil da “revolução de 64”. Esse financiamento inviabilizava a criação de obras críticas ao regime, então cineastas, principalmente aqueles que advinham do Cinema Novo, tiveram que escolher entre continuar produzindo, debaixo das restrições conjunturais ou romper totalmente com qualquer estrutura industrial cinematográfica, como fizeram os cineastas do Cinema Marginal. Como a questão da exibição era muito importante para os cinemanovistas, que viam nela a chance de chegar as massas, cineastas como o próprio Nelson e Leon Hirszman começam a produzir filmes que teciam críticas ao regime, mas de maneira muito sutil. Lendo as entrevistas daquela época hoje, noto um certo acuamento desses artistas frente a estrutura. É claro que eles não tinham muita escolha, mas não deixa de ser triste ler sobre artistas obrigados ao silêncio.


Os Inconfidentes (1972) de Joaquim Pedro de Andrade, crítica sutil ao regime autoritário 

Trago esse exemplo histórico para remeter ao presente e ao futuro próximo do cinema brasileiro. A declaração do atual presidente lembra as políticas da Embrafilme e como o cinema brasileiro sempre fora frágil economicamente, é muito difícil que obras realmente críticas passem a ter grande circulação no mercado nacional. Até porque, se um filme global, de apelo comercial como “De pernas pro ar 3” não consegue salas de exibição frente os filmes da Disney, porque filmes críticos e nacionais teriam? O futuro próximo do cinema brasileiro parece ser parecido com os do filmes do Cinema marginal. Quem quiser fazer filmes, mais do nunca, berrará no silêncio, na esperança que a história, um dia os redima, como o fez com Sganzerla, Bressane e os marginais.


Referências:

Cinema: Trajetória no subdesenvolvimento: Paulo Emilio Salles Gomes


Cinema, estado e lutas culturais: José Mário Ortiz Ramos.






quarta-feira, 26 de junho de 2019

O enigmático "Picnic na Montanha Misteriosa"



Dirigido por Peter Weir (Sociedade dos Poetas Mortos, O Show de Truman), Picnic na Montanha Misteriosa (Picnic at Hanging Rock, 1975)  é uma adaptação feita por Cliff Green do livro homônimo escrito por Joan Lindsay. Propositalmente ambíguo na grande questão sobre o que teria acontecido as personagens, Lindsay nunca foi clara em relação se os eventos ocorridos são baseados em histórias reais.


Em 14 de fevereiro de 1900, dia de São Valentin, um grupo de alunas do colégio Appleyard College saem para um passeio até a Hanging Rock, uma formação rochosa de origem vulcânica. Após um piquenique, um grupo de alunas, acompanhadas de uma professora, resolve explorar a rocha mais de perto até que ao entrarem em uma fenda, desaparecem misteriosamente.

Com essa sinopse convidativa e os dizeres a cima que surgem na tela antes da primeira imagem do filme,  Picnic na Montanha Misteriosa teria tudo para ser mais um filme de mistério, cuja investigação minuciosa levaria a uma descoberta espantosa e quem sabe até trágica. Mas não se engane. Um dos grandes trunfos desse filme australiano, é atmosfera única e hipnotizante, que facilmente nos prende.




O primeiro ato que antecede o conflito, é usado para criar uma ambientação onírica logo quando as alunas acordam e se arrumam para o passeio. A felicidade das personagens, juntamente com a música, também evocam essa sensação quase que fora da realidade.

“Uma história de fantasma sem os fantasmas, um enigma sem solução e uma história de repressão sexual, sem sexo”. Assim é definido o filme na primeira linha do texto escrito por Joshua Klein, que está na edição de 2016 do livro 1001 Movies You Must See Before You Die (1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer). Se você se pergunta a razão de assistir a um filme em que pouco será revelado para o espectador, a razão é simplesmente que poucos filmes conseguem ser bem realizados e afetar seu público justamente com aquilo que não se pode ver ou entender.

Do ponto de vista temático, essas meninas que desaparecem após passarem por uma fresta da rocha, pode ser entendido como justamente a passagem da inocência para a maturidade, ou até mesmo uma quebra da repressão sexual, caminho esse que não tem mais volta. Mas como esse momento chega para todos em momentos diferentes, temos em apenas quatro personagens (três, porque uma das alunas é depois encontrada) como as “escolhidas” para terem essa experiência.

Falando em experiência, nós também a sentimos graças a direção de Weir. Na montanha a atmosfera onírica se eleva quando as personagens, em especial as alunas que irão desaparecer, estão em contato com o lugar. A própria natureza ali presente é evocada e parece tomar conta das personagens, como se as mesmas estivessem em um transe. A fotografia (que contou com um véu por cima da lente da câmera), reforça ainda mais esse clima etéreo que hipnotiza até mesmo o espectador.

A personagem de Edith (Christine Schuler) é a única no grupo que não entre na fenda da pedra. Assustada, ela constantemente diz que quer ir embora e mostra não estar bem ali. Poderia essa reação da personagem representar o medo que às vezes podemos ter de amadurecer? Edith enxerga a rocha desde o início como algo ameaçador, que não acabará bem, enquanto as alunas e a professora nem se quer parecem se importar. Pelo contrário. Um momento de entrega se dá quando “as escolhidas” tiram suas meias e ficam descalças. Contato esse que frisa a ideia de que elas estão de fato preparadas para aquele momento. Irma (Karen Robson) no entanto, é encontrada depois de um tempo. Teria a personagem “desistido” de ir com as colegas no último momento, por ainda não se sentir preparada?



Teorias e teorias. Assim é Picnic na Montanha Misteriosa, um filme capaz de nos deixar pensando durante horas sobre interpretações diversas para os eventos ocorridos e que nos fará analisar e provavelmente rever o filme, para que possamos notar algo que tenha passado batido. Com uma história que se mostra mais eficiente justamente por não trazer respostas, o longa cumpre o seu papel ao fazer parte de um cinema que busca nos fazer questionar.

domingo, 9 de junho de 2019

A Sombra do Pai - terror brasileiro que vale a pena ser visto

Gabriela Amaral Almeida nasceu na Bahia e se formou na UFBA (Universidade Federal da Bahia). Em Cuba, se especializou em Roteiro na EICTV (Escuela Internacional de Cine y TV). Chamou a atenção da crítica com seu primeiro longa-metragem, O Animal Cordial (2017). Antes de ir para os longas, a cineasta também se destacou pelo seus curtas que renderam diversos prêmios em festivais, como o Festival de Paulínia, Prêmio Abraccine,  Festival Curta Cabo Frio, entre outros.
Agora com A Sombra do Pai (2019), Almeida usa claras referências de filmes que contribuíram para sua bagagem dentro do gênero que mais agrada a diretora: o terror. Como dito em algumas de suas entrevistas, Gabriela passou sua infância na era dourada para qualquer fã de cinema de horror, em que muitos clássicos passavam na TV aberta quase sem nenhuma preocupação com a faixa etária, fora as locadoras de bairro que ajudaram ainda mais no consumo desses clássicos.
Mesmo com tantas referências de filmes americanos, a diretora sabe adaptar tudo isso para o Brasil e a partir do olhar de uma família que represente uma família brasileira, assim como a quantidade de rituais e crenças tipicamente brasileiros que também estão presentes no filme. Já o medo, o desamparo e o luto, claro, são elementos universais que no filme são bem representados.
Dalva (Nina Medeiros) tem nove anos e vive com seu pai, Jorge (Júlio Machado) e sua tia, Cristina (Luciana Paes) em uma casa simples em São Paulo. O pai que trabalha como pedreiro em uma construção, perdeu a esposa há dois anos, mas ainda não superou a perda. Quando Cristina resolve sair de casa para viver com o namorado, Dalva fica só e se torna a responsável por tomar conta de seu pai e da casa.
Em Estátua! (2014), um dos curtas de Gabriela, a diretora também tocou em temas como negligência e apego, quando coloca uma menina por volta de nove anos de idade, aos cuidados de uma babá que está grávida. A mãe da menina, que trabalha como aeromoça, parece pouco se importar com ela.  
A atmosfera do filme inteiro é pesada e fúnebre. As primeiras cenas mostram Dalva desenterrando sua boneca enquanto o pai está no cemitério para a exumação dos restos mortais de sua esposa, para que os mesmos sejam colocados em uma gaveta. Em uma caixa estão uma correntinha, alguns dentes e a trança de sua mulher. Os itens, levados para casa por Jorge, por mais macabros que sejam para nossa cultura, são as lembranças que Dalva tem e guarda da falecida mãe.  
A casa simples, ganha tons acinzentados nas paredes e na fotografia, enquanto a câmera quando resolve mostra o imóvel por fora, fica no nível do chão. Talvez não para enaltecer o lugar, mas sim para mais uma vez fazer referência ao solo. O fúnebre acompanha até as expressões faciais de Dalva e Jorge, que estão quase sempre sem emoção e sérias. É nítido como o filme e o cinema de Gabriela, não tem interesse em chocar ou assustar (mesmo com o tema), optando mais por uma atmosfera carregada, estranha e desconfortável.
O elemento da fantasia no longa, como ponto de vista da menina, pontua a falta que a mesma sente da mãe falecida e do pai ausente. Sua ligação com a morte se estende para os filmes que assiste. A Noite dos Mortos Vivos e Cemitério Maldito, são referências importantes para a diretora, que estudou toda a obra de Stephen King. Os temas e cenas pontuais desses filmes são exibidos na TV da sala da casa de Dalva, que mesmo com medo, abraça a ideia de que alguém morto possa voltar. Essa mistura do macabro com questões emocionais e tão universais para nós, parece ser uma marca da cineasta.
Importante apontar como o pai de Dalva vai aos poucos se parecendo com um zumbi. O andar levemente desengonçado, a palidez e a falta de expressão, são aqui no filme, fruto do excesso do trabalho que exausta Jorge e impede o personagem de ter um tempo com a família e muito menos de ter tempo para absorver melhor a morte da esposa. A alegoria do zumbi o transforma em um escravo do capitalismo, como disse a cineasta, ao mesmo tempo em que a criatura morta e viva faz parte do imaginário de Dalva.
A Sombra do Pai é mais uma prova (junto com Mate-me Por FavorTrabalhar CansaAs Boas ManeirasO Animal Cordeal) de como o cinema de gênero, tão pouco realizado no Brasil, tem capacidade de usar o terror para abordar questões sociais sérias e pertinentes. Só resta a qualquer fã desse gênero, dar valor também ao que é nosso. 

domingo, 26 de maio de 2019

Santiago: um documentário raro dentro do cinema brasileiro


Santiago (2007) aparece na lista dos 100 Melhores Filmes Brasileiros. A escolha é o resultado de uma inquirição realizada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), que contou com a participação dos principais críticos de cinema do Brasil, como  Pablo Villaça, Celso Sabadin, Amir Labaki, Francisco Russo, João Batista de Brito, Rubens Ewald Filho e Jean-Claude Bernardet. A lista virou o livro Os 100 Melhores Filmes Brasileiros, que conta com ensaios sobre os filmes escolhidos.
Dirigido por João Moreira Salles, irmão de Walter Salles, o documentário fala sobre Santiago, o mordomo que trabalhou na casa dos pais de João e Walter quando os mesmos ainda eram crianças. Nascido na Argentina em 1912, Santiago Badariotti Merlo colecionava (literalmente) diversas história sobre as famílias para quem trabalhou e suas experiências em outros países.
Em 1992, João Moreira Salles filma as histórias de seu antigo mordomo para realizar o documentário sobre sua vida. Dois anos depois, Santiago acaba falecendo e Salles não sentiu na época que aquele seria o momento certo de trabalhar em seu filme. O material filmado só virou um filme pronto em 2007, quando em 2005 ele resolve pegar o material guardado durante treze anos, editá-lo e dar outro sentido a ele.
O resultado é um documentário reflexivo, já que há uma narração com as ideias do próprio João Moreira Salles, questionando o próprio material que ele tinha nas mãos e os rumos e ideias que contribuíram para uma evolução do próprio documentário. Como cita Bill Nichols no livro Introdução ao Documentário, lançado em 2001, o documentário reflexivo, nega a premissa da capacidade da câmera de representação fiel da realidade. Esse modo estimula a consciência do espectador a respeito do modo de se fazer documentários. Segundo Nichols, “o modo reflexivo é o modo de representação mais consciente de si mesmo e aquele que mais se questiona”.
Santiago já seria excelente apenas pela peculiaridade de seu único personagem e suas histórias cheias de saudosismo e pinceladas de melancolia. A eloquência do mordomo e a alegria ao contar suas histórias, às vezes nos transporta  para os lugares e situações que são narrados pelo homem. Trabalhando para tantas famílias durante muitos anos, Santiago tinha orgulho em ter servido tantas pessoas importantes.
Esse tempo que levou para que o longa finalmente ficasse pronto, não poderia ter sido mais benéfico para a obra. Nota-se o amadurecimento e aprendizado para o próprio cineasta, que ao se aproximar mais de seu material depois de tantos anos, acaba evidentemente se aproximando mais de Santiago e conseguindo dar ao filme uma profundidade muito maior do a que poderia ter tido, caso essa pausa não tivesse ocorrido.
O modo reflexivo e ensaístico de Santiago, e como o filme reflete seu próprio conteúdo, faz o próprio espectador refletir sobre o fazer do longa. Isso é sem dúvida um dos pontos altos do filme, já que temos praticamente uma espécie de “making of” do documentário, mas mais no sentido intelectual do que no sentido técnico.
Há esse reconhecimento constante do próprio diretor sobre assuntos que não iriam fazer parte da ideia original do filme, mas que agora fazem parte dele. Além do amadurecimento do diretor diante da obra, como já citado acima, talvez possamos notar um pedido de desculpas do próprio João Moreira Salles (pela forma rude que sua equipe o tratou na época, durante as filmagens) a Santiago e uma homenagem ao mordomo.
Santiago é a prova que documentários podem nos informar, mas também ir mais além, ao dar ao espectador uma experiência e emoções que possam nos tirem de uma zona de conforto e não enxergar o filme apenas com um simples registro da vida de seu personagem.

domingo, 5 de maio de 2019


The Hole in the Ground: uma metáfora para os conflitos familiares

Primeiro longa do cineasta irlandês Lee Cronin, The Hole in the Ground (2019), O Buraco no Chão, na tradução livre, teve sua estreia no Festival de Sundance em janeiro deste ano. A A24  e a DirecTV Cinema, adquiriram os direitos de distribuição do filme nos EUA, que lançou o longa nos cinemas de lá em março. Infelizmente não houve uma exibição aqui no Brasil, mas a crítica elogiou o trabalho de Cronin, que conta com alguns curtas no currículo, como o premiado Ghost Train (2013), que ganhou o prêmio Méliès d'Argent de melhor Curta-Metragem Fantástico Europeu.
Sarah O'Neill (Seána Kerslake) e seu filho Chris (James Quinn Markey), saem aparentemente às pressas para o interior da Irlanda, depois de Sarah recentemente sair de uma relação abusiva com seu ex-marido e pai de Chris. Mãe e filho tentam começar uma vida nova em uma casa alugada que fica perto de uma grande floresta, onde um enorme buraco pode ser encontrado bem no meio do local. Quando Chris descobre a floresta e consequentemente o buraco, o menino passa a ter seu comportamento mudado, se tornando uma criança sinistra e violenta.

Em entrevista para o site Awards Daily, Cronin falou sobre a inspiração na mitologia celta, especificamente a do Changeling, lenda folclórica que trata da troca de crianças. Geralmente uma fada levava uma criança do berço e em troca deixava um objeto ou até mesmo uma outra fada , já velha, enquanto o bebê verdadeiro iria viver com outras fadas. Em The Hole in the Ground no entanto, o diretor trabalhou apenas a questão da troca, deixando de lado as fadas e criando um enorme buraco no chão que é o culpado de tudo.
Não é a primeira vez que o terror usa de seus elementos para falar de dramas e aflições reais da vida cotidiana. The Babadook (2014), de Jennifer Kent, ficou bem conhecido no Brasil ao criar um realismo fantástico de um monstro que servia como uma metáfora para os problemas enfrentados por uma mãe durante a difícil fase de relacionamento com seu filho de seis anos.

The Hole in the Ground tem suas semelhanças com o filme de Kent. Somos colocados no universo do filme já de início, quando Chris está em um parque de diversões brincando em frente a um espelho que distorce sua imagem. Em uma cena em que o carro de Sarah está em na estrada a caminho da nova cidade, a imagem aérea do carro, deixa visível duas estradas, já transpondo essa ideia de duplo, assim como no espelho. Em seguida, a imagem é invertida colocando o carro em cima e o céu embaixo, frisando a ideia desse mundo dos personagens que sofrerá um grande transtorno, ao mesmo tempo em que coloca o próprio céu como um imenso “buraco”.

Não faltam alguns elementos até típicos do gênero, como a senhorinha sinistra que diz coisas sem sentido, até que mais adiante tudo começa a fazer sentido para o protagonista, além de claro, a criança estranha. Sarah se esforça para ao mesmo tempo em que tenta recomeçar, tenta lidar com a criação do filho, que em um primeiro momento se mostra uma criança mais reservada e que não consegue fazer amigos. O garoto fica magoado quando percebe que sua mãe mentiu para ele ao falar sobre o pai, dizendo que o mesmo estava logo atrás deles no caminho para a nova casa. O filme por um lado deixa as coisas mais abstratas, mas não a ponto de ficarmos sem saber o que está acontecendo. Para um bom entendedor, meia palavra, basta.
Permitindo uma leitura superficial, temos mãe e filho tentando lidar com acontecimentos fantásticos que acabam abalando a convivência deles. Mas se tentarmos aprofundarmos mais essas questões, podemos perceber que o filme usa esse tom sobrenatural para falar sobre a dificuldade da separação e de como criar um filho enquanto isso acontece. Sarah parece ter simplesmente fugido sem de fato lidar com seus problemas e resolvê-los para depois sim, ir embora. O longa coloca essa mudança precoce como um ato que ainda não foi amadurecido, principalmente como o roteiro espelha a mudança brusca e sinistra de Chris. A própria reação do menino, que vai ficando mais violento com o passar do tempo, sugere uma preocupação de como o garoto está absorvendo a situação toda e até mesmo o medo da mãe de que seu filho se torne alguém violento no futuro.
Sem buscar explicar tudo o que acontece, The Hole in the Ground ainda sim é um filme interessante que explora bem as dificuldades na relação entre mãe e filho, durante um período delicado na vida de ambos.  

Erotismo e a cidade: Vidas nuas (1967) de Ody Fraga

  O aspecto mais interessante em Vidas nuas é a fluidez como a cidade de São Paulo é filmada, desde seu primeiro plano quando temos acesso ...