quinta-feira, 27 de abril de 2017

"Girlboss" análise da Primeira Temporada

Texto de : Danatielly Costa

Para falar sobre a nova série da Netflix "Girlboss" criada por Kay Cannon, primeiro é necessário saber que a série é baseada no livro homônimo da empresaria Sophia Amoruso, fundadora da loja on-line Nasty Gal. A série se passa em meados dos anos 2000 e conta a trajetória da de Sophia antes de ser a conhecida como a mulher de sucesso no mundo dos negócios, e como tudo começou.

Mas se você pensa que a série vai ter a pegada do universo business, ou a ideia da autoajuda, em torno da trajetória de uma pessoa que veio do nada e alcançou o sucesso, não é bem assim que as coisas são.Os produtores resolveram recriar a história de Sophia, aproveitando bem o formato audiovisual com as novas características de produção em plataforma on demand, da para perceber que é um projeto levado a sério em vários aspectos.



Já que ela retrata a vida de jovens mulheres sonhadoras percebe-se um lance meio “Girls” da HBO, que teve a ultima temporada exibida esse ano, os fãs que estavam órfãos podem considerar Girlboss como uma boa alternativa. A série fala do universo feminino sem estereótipos com muito realismo, explorando os dramas vividos pelas mulheres dessa geração, com uma pegada de bom humor e na medida certa, assim como Girls, e "Love" outra série do catalogo da Netflix , que trazem para o universo das séries uma nova forma de produção estilo “filmes independente” para falar sobre os jovens adultos, sendo ousado com estilo próprio, o que parece ter se tornado uma formula de sucesso, se não daqueles arrasadores, das que conseguem muito dialogo com um nicho especifico reforçando uma ideia de um movimento audiovisual que vem ganhando força no cinema mundial, que traz sempre muitos elementos de referência do próprio universo cinematográfico, e da cultura pop.

Dito isso, a série é uma dessas com personagens bem construídos e bem defendidos com boas atuações, daqueles que a gente acaba amando, porque temos empatia por essas pessoas que facilmente poderia ser qualquer um de nós no dia a dia, esse é o caso da Sophia Marlowe, interpretada pela atriz Britt Robertson, a personagem que já sabemos que sim existe na vida real. Ela é muito engraçada e excêntrica, o que nos leva a pensar “Meu Deus será que essa mulher é assim mesmo?”, Tudo gira em torno dessa garota que decide abrir a própria empresa porque não queria ter um "emprego formal" com medo de se tornar uma adulta responsável com uma vida chata. Super dá para entender.

Aos poucos vamos vendo a empresa de Sophia ganhar forma, mas essa é só uma faceta da série, pois ela parece abordar mesmo é o crescimento da protagonista e seu amadurecimento pessoal, e como seus sonhos e vontades afetam sua vida, e as vidas das pessoas a seu redor.

Um grande trunfo de Girlboss é a montagem, que consegue de forma dinâmica e interessante representar a subjetividade dos personagens, como a série aborda questões de sonhos e ambições, a fantasia da cabeça das personagens é representada através de devaneios, que são apresentados de forma muito criativa. Como a série explora o universo da geração que deu o bum inicial nos negócios online, ela não para apenas nos grafismos na tela exibindo telas de bate papo de Smartphone, o que todo mundo já fez quando se trata desse tipo de abordagem, conseguindo explorar de forma artística construindo um ambiente que representa bem como as coisas funcionam em uma conversa online, em alguns trechos temos os personagens conversando em um fundo branco ou preto cara a cara, quando na verdade estão teclando em seus computadores separadamente.

"Girlboss" Netflix

"Girlboss" Netflix

Essa forma de mostrar esses diálogos nos chama a atenção para a realidade do universo da internet que por vezes é esquecido ou banalizado por nós que facilmente esquecemos que sempre tem seres humanos atrás de cada comentário online na internet.

A série é regada com uma trilha sonora muito boa com musicas estilo pós-punk e pós-grunge o que ajuda a ambientar esse momento da cultura pop e da nova cultura de negócios, que trazem elementos de rebeldia e contracultura para a trama, já que Sophia está desafiando o sistema quando resolve sendo uma garota sem dinheiro estudo, abandonar os trabalhos medíocres para ter seu próprio negócio. 

"Girlboss" Netflix

E nas referências a série trás elementos do cinema mais recente com a mesma atmosfera como o “Antes do amanhecer” 1995 de Richard Linklater, e da série The O.C. exibida de 2003 a 2007.

“Antes do amanhecer” 1995 de Richard Linklater













“Antes do amanhecer” 1995 de Richard Linklater


























Girlboss é super necessária no momento, porque consegue colocar em destaque o poder feminino sem ser panfletista, apenas dando espaço para falar de mulheres em todos os espaços sociais, assuntos que ainda são considerados tabus como a sexualidade feminina é discutido abertamente e sem rodeios, além de desconstruir a ideia que foi sempre mantida na sociedade contemporânea que "mulheres são concorrentes e não podem ser parceiras" ou se organizarem em torno de um bem comum como por exemplo abrir uma empresa, já que Sophia está sempre contando com o apoio de sua melhor amiga Annie (Ellie Reed), em todos os momentos, e juntas desafiam uma estrutura que ainda é dominada por homens. 

"Girlboss" Netflix

"Girlboss" Netflix

Vale apena destacar que a série é produzida pela atriz Charlize Theron e também pela própria Sophia Amoruso, além de contar com várias outras mulheres na produção.


sábado, 22 de abril de 2017

Lake Mungo

Texto de : Tarcísio Paulo dos Santos


A Austrália parece ser um país que sabe produzir filmes de terror bem interessantes. Produções como “O Babadook” (2014) e “Entes Queridos” (2009), são dois bons exemplos de filmes desse gênero que merecem ser conferidos por qualquer fã de terror. Além desses dois, outro filme, pouco conhecido, também chama a atenção: “Lake Mungo” (2008).


Esse falso documentário foi dirigido por Joel Anderson, que infelizmente parece ter desaparecido do mundo do cinema, sendo que esse foi seu único longa-metragem até o momento. O cineasta conta apenas com a direção de um curta-metragem chamado “The Rotting Woman”, produzido em 2002. 


O longa conta a história de uma família australiana cuja filha, Alice Palmer (Talia Zucker) faleceu após aparentemente se afogar em um lago durante uma viagem com seus pais, Russel Palmer (David Pledger) e June Palmer (Rosie Traynor), e seu irmão Mathew (Martin Sharpe).

A partir daí somos conduzidos a entrevistas, imagens de arquivo, filmagens caseiras e atuações convincentes que vão nos mostrando um pouco sobre a família, o processo de luto e o que teria acontecido com Alice. Sem ser um filme que busca algum tipo de investigação específica sobre a morte da jovem, “Lake Mungo” explora mais os mistérios que ocorrem após a morte de Alice, ao mesmo tempo em que equilibra thriller, terror e drama familiar, dando espaço também para aspectos da relação de Alice com sua mãe e até mesmo a falta de comunicação entre a família. Esse já é um dos grandes diferenciais, já que seria mais fácil focar apenas em supostas aparições da garota na casa através de sustos fáceis, ou da famosa câmera na mão que acompanha tudo como no subgênero do terror, “found footage”. Poucos filmes de terror conseguem explorar bem seus personagens, mas justamente por inserir também o elemento dramático, o roteiro de “Lake Mungo” consegue ter seu diferencial.


Na verdade, esse clichê do espírito captado na câmera, mesmo que apareça no filme, logo ganha uma reviravolta que é totalmente justificável, tendo a ver como o irmão de Alice reagiu com a perda da irmã. Ainda que depois que a presença se mostre real, esse elemento nunca se mostra over ou tenta aparecer um mero artifício para assustar o espectador. 


Além disso, as imagens do falso documentário que servem para ilustrar o drama da família, variam desde imagens da casa do lado de fora com uma luz que pisca na sala, a luz da varanda que está sempre acessa, como forma de sugerir que Alice ainda está por ali até em imagens do pôr do sol que sugerem esta ideia da vida que se desvanece. Imagens do quarto de Alice também são bem eficientes, pois são usadas em momentos em que os personagens falam da garota e de como sentem ainda sua presença. Isso realça de forma eficaz a sensação de algo possa surgir a qualquer momento na cena. Tudo isso ajuda a compor de certa forma, uma poesia visual em torno de Alice e o impacto de sua morte e presença.



Como se não bastasse, a terceira reviravolta no filme deixa tudo ainda mais estranho e perturbador, sem a pretensão de nos dar uma resposta pronta sobre o que teria acontecido com Alice durante uma viagem feita um pouco antes de seu falecimento. As imagens feitas por ela através de seu celular, são um dos pontos altos da narrativa, nos causando medo e até uma reflexão do que teria acontecido.

Independente da conclusão do espectador, “Lake Mungo” consegue trabalhar conflitos internos de seus personagens, problemas pela falta de diálogo em família e o conflito que causa o medo (presença de Alice) não como uma ameaça, mas como uma forma da própria família alcançar uma paz de espírito para poder seguir em frente, além de dosar o gênero do terror com elementos dramáticos.



quinta-feira, 13 de abril de 2017

Sangue de Pantera

Texto : Tarcísio Paulo Dos Santos 

Sucesso de bilheteria, mas nem tanto de crítica, “Sangue de Pantera” (Cat People) ficou por muito tempo nos cinemas quando foi lançado em 1942. Isso permitiu que os críticos pudessem rever o filme e assim perceber que haviam sido severos demais na avaliação. Com o passar dos anos o longa dirigido por Jacques Tourneur e produzido por Val Lewton ganhou status de filme cult e virou um grande clássico do horror, circulando por diversas listas como na de “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer” de Steven Schneider.


Vale a pena comentar sobre a importância de Lewton para o cinema de horror. Se a Universal já dominava esse gênero na década de 30 com clássicos como “Frankenstein” e “Drácula”, ambos de 1931, a RKO Pictures se destacava com filmes que produzidos por Lewton, eram capazes de criar boas histórias com um orçamento apertadíssimo. Os diretores da RKO faziam filmes em que o espectador podia conferir uma atmosfera sugestiva, mantendo muitas vezes o monstro escondido do público e disfarçando elementos dos cenários com sombras. 


“Sangue de Pantera” conta a história de Irene Dubrovna (Simone Simons), nascida na Sérvia e recém-chegada aos Estados Unidos. Sozinha e sem amigos, a jovem trabalha fazendo desenhos de moda até que um dia conhece Oliver Reed (Kent Smith), que trabalha em um escritório de arquitetura. Os dois se apaixonam rapidamente, porém uma maldição impede que a relação do casal alcance um grau maior de intimidade. Irena é assombrada por um conto de seu país que narra a lenda de como as pessoas de sua aldeia (em sua maioria bruxas e adoradores do diabo) teriam a capacidade de se transformarem em panteras quando se veem tomadas por fortes emoções, como raiva, ciúmes e excitação.

O filme traz muito elementos visuais que reafirmam a conexão da protagonista com a possível maldição e com a impossibilidade de sua relação com Oliver ter futuro. Mesmo causando intimidação aos animais, a protagonista gosta de ficar no zoológico da cidade, especialmente perto da jaula de uma pantera que vive enjaulada no lugar. O encontro com Oliver acontece justamente nesse local, onde a jovem faz um desenho do animal e acaba rasgando por não acreditar que tenha ficado bom. O vento faz com que as partes da ilustração se unam novamente, formando o desenho da fera.


Mesmo Oliver sabendo da maldição, ele não acredita em Irene. A mulher por outro lado se vê constantemente angustiada e oprimida, como quem está constantemente se policiando para esconder algo. Isso é refletido nas sombras que aparecem em seu apartamento com muita frequência durante o filme. Oliver tem o papel de algumas vezes abrir cortinas ou acender o abajur, como que uma tentativa de trazer luz para a vida de sua noiva. A própria personagem diz preferir a escuridão ao dizer: “Eu gosto da escuridão, é amigável". Os sons vindos do zoológico e que podem ser ouvidos do apartamento de Irene também não a incomodam, resultando em como todos esses elementos parecem fazer parte da natureza da personagem.


Outros fatores que sutilmente mostram a dificuldade do casal podem ser conferida em alguns enquadramentos em que ambos ficam separados, como em uma cena em que uma porta divide Irene e Oliver ou quando um biombo também parecer dividi-los. 


A morte do pássaro que foi dado de presente a Irene por Oliver e o gato que se esquiva da protagonista vão reforçando mais a maldição que parece impregnar a mulher. Até o próprio figurino da personagem tem um peso nisso. Irene usa várias vezes durante o filme, um casaco preto que a faz parecer uma pantera negra, como a vista na jaula do zoológico, assim como as sacadas do prédio onde vive parecerem grades que a “enjaulam”. 

Chega o momento em que a narrativa coloca a situação de Irene através do lado mais racional. A protagonista passa a buscar ajuda médica para o seu problema em não conseguir se relacionar intimamente com Oliver, acreditando estar amaldiçoada. Ciência e sobrenatural são colocados frente a frente, porém o Dr. Louis Judd (Tom Conway) sente que Irene não está sendo 100% franca com ele, o que estaria prejudicando seu tratamento. Além disso, a personagem resolve que frequentar mais às sessões do Dr. Judd, escondendo o fato de Oliver.

A narrativa de “Sangue de Pantera” fica ainda mais interessante com a introdução do suspense, que é um dos pontos altos do filme. Com Irene se tornando uma pessoa cada vez mais ciumenta e incomodada com a amizade de Oliver e Alice Moore (Jane Randolph), melhor amiga e colega de trabalho de seu noivo, a narrativa ganha contornos de horror e suspense quando Alice passa a ser seguida por Irene, criando um desconforto psicológico para a personagem e para o próprio público.

Na rua a mulher está indo em direção ao ponto de ônibus enquanto sente que está sendo seguida. Planos detalhe dos pés de Irene e Alice vão sendo intercalados enquanto a cena nos é apresentada sem música, valorizando apenas o silêncio e os sons de passos de ambas as personagens. A suspensão do tempo também é importantíssima nessa cena, que prolonga um possível ataque que poderá ser sofrido por Alice. Sem esperarmos, tanto nós quanto a personagem, o som do ônibus (parecido com o de uma pantera rugindo) freia para que Alice possa subir nele. Essa técnica de criar uma tensão de forma lenta para no final um susto nos fazer pensar que algo ruim irá acontecer, foi batizada de “Lewton Bus”, levando o nome do produtor do filme e sendo usada posteriormente em diversos outros filmes.  



Com pouco fôlego depois dessa cena, logo estamos diante de outra cena que também é eficaz na construção do suspense. Alice dessa vez está na piscina quando parece ouvir o som do rugido de uma pantera. Assustada, ela começa a gritar. A câmera então nos mostra as paredes e o teto do lugar sem nunca mostrar nada concreto. Depois do susto, Irene surge como se nada tivesse ocorrido. 





Mesmo que nunca vemos Irene se transformando em uma pantera e apenas relances do animal, “Sangue de Pantera” alcança sua atmosfera de medo, com sombras, sons offscreen e com as reações dos personagens. Ainda que pareça quase certo de que a personagem realmente esteja amaldiçoada, há espaço para outras interpretações. Ainda assim podemos entender que a pantera pode ser entendida como uma metáfora no que diz respeito a uma forma que a protagonista encontra de pôr para fora sua raiva e ciúmes, situação essa que sempre fez com que Irene estivesse ciente de sua fúria e por consequência disso tivesse receio de se relacionar com as pessoas.  
     









terça-feira, 4 de abril de 2017

Enter Nowhere

Texto de : Tarcísio Paulo Dos Santos Araújo

Sempre bom poder descobrir e conferir filmes que muitas vezes passam completamente batidos. “Enter Nowhere” é um desses filmes. Exibido na Netflix dos Estados Unidos, o longa produzido em 2011 e dirigido por Jack Heller, que atua mais como produtor do que como diretor, bem que poderia ter sido exibido no catálogo da Netflix do Brasil.


Depois de um assalto (que termina com a morte do caixa) realizado por Jody (Sara Paxton) e seu namorado, Kevin (Christopher Denham), em um pequeno mercado, somos imediatamente levados para outra ambientação. A sensação de liberdade e a juventude, exaltadas o início do filme com uma fotografia que opta por tons mais quentes ao nos apresentar Jody, são tomadas por uma mulher que perambula por uma floresta com galhos tortos e uma fotografia em tons frios e acinzentados. Agora conhecemos Samantha (Katherine Waterston), uma mulher que resolve ir atrás do marido que a deixou dentro do carro para procurar ajuda depois que o veículo quebrou. 



Ao encontrar uma velha cabana na floresta, a mulher descobre que Tom (Scott Eastwood, filho de Clint Eastwood) habita o lugar há alguns dias depois de também ter tido problemas com o seu carro, que caiu numa vala. Depois de tentarem andar pelas redondezas, sem encontrar ajuda, não demora muito para Jody se una a Samantha e Tom. A partir daí coisas entranhas começam a serem descobertas pelos três personagens, incluindo um misterioso homem que anda pela floresta com uma arma na mão.


“Enter Nowhere” traz uma pitada de ficção científica (lembrando um episódio de “Além da Imaginação”) na sua resolução final, mas sem antes deixar de criar um ambiente que preza uma atmosfera carregada de mistério e incertezas. Sem entregar o final, o tema principal da narrativa é a possibilidade de tentar mudar o futuro e consequentemente nossos erros. Mesmo com o ponto de vista de Jody, percebemos aos poucos como a vida dos personagens carregam equívocos que mudaram suas vidas drasticamente. O próprio lugar onde o filme se passa, pode ser entendido como uma espécie de purgatório para esses personagens, embora eles não estejam exatamente mortos.

Muito pode ser entendido como pista para compreender o que está acontecendo, na forma como cada personagem age e até pela forma de se vestir. Cada ator incorpora bem seu personagem, defendendo o jeito de ser de acordo com o que cada um vive e acredita.

Como um filme de baixo orçamento, isso infelizmente fica um pouco escancarado nos efeitos visuais, mas acredito que o roteiro consistente (embora alguns detalhes não fiquem cem por cento claros, talvez propositalmente para que o espectador crie suas próprias conclusões) e a atmosfera criada são o suficiente para prender, principalmente para quem gosta de boas histórias com uma boa atmosfera cheia de mistério muito potencial para entreter.  




segunda-feira, 20 de março de 2017

45 Anos


Por: Tarcísio  Paulo dos Santos Araújo

O cineasta britânico Andrew Haigh, além de alguns curtas, tem no seu currículo filmes como “Weekend”, a série “Looking”, que mostra a vida de três amigos gays que vivem em São Francisco, assim como o próprio filme da série que foi lançado em 2016. Uma das características do diretor é a capacidade de tratar as relações humanas com muita sensibilidade e profundidade.

Com “45 Anos” não foi diferente. O longa foi entre os filmes do diretor que mais teve destaque, contando com Charlotte Rampling concorrendo ao Oscar na categoria de melhor atriz em 2016. Assim como em “Weekend”, Andrew Haigh busca retratar a relações humanas a partir de momentos sutis que podem estar numa expressão ou ação dos personagens, assim como nos bons diálogos.


No longa, Rampling interpreta Kate, uma professora já aposentada que vive com seu marido, Geoff (Tom Courtenay). O casal irá completar quarenta e cinco anos de casado, e se preparam para uma festa em comemoração ao aniversário de casamento. Tudo parece ir bem até Geoff receber uma carta avisando que o corpo de Katya, sua antiga namorada, foi encontrado em uma geleira que derreteu. A mulher havia caído em uma fenda na década de 60, enquanto andava por uma montanha com Geoff. O que parecia ser uma triste e ao mesmo tempo uma notícia que não deveria afetar em nada a relação de Geoff com Kate, traz à tona sentimentos e descobertas que estavam congelados juntos com Katya...

“45 Anos” - Andrew Haigh 



Aos pouco o espectador observa como a relação de Geoff e Kate é posta à prova durante o filme, através de diálogos expositivos que vão revelando características da relação de Geoff com a falecida namorada, que começam a despertar na ex-professora, sentimentos que a farão questionar até que ponto seu marido casou-se com ela para tentar esquecer Katya. Não que Geoff não ame Kate, mas é que sua reação ao saber que acharam o corpo de sua ex-namorada, claramente o afeta muito. Ele passa a relembrar momentos que teve com a mulher e detalhes da sua vida com ela que nunca haviam sido compartilhados com Kate.


Geoff vai ficando com o olhar distante e pensativo, enquanto a câmera o desfoca, simbolizando uma distância do personagem de sua relação. Kate em um primeiro momento, vai ouvindo o desabafo do marido, mas aos poucos vai percebendo a importância que Katya teve. Interessante notar a verdade nos relatos dos personagens, que dispensam qualquer cena de flashback. A câmera por muitas vezes, evita alternar entre plano contra plano, focalizando o personagem por um bom tempo enquanto ele relata algo que teve importância para sua vida. 


“45 anos” - Andrew Haigh


Em meio a tudo isso, Kate continua cuidando dos preparativos do aniversário de casamento. A partir daí é como se as situações e lugares estivessem tomados por uma atmosfera de frieza e melancolia. Ao visitar o salão onde irá acontecer a festa, Kate aparece andando pelo lugar vazio e nota uma parede que parece estar faltando algum quadro. Coincidência ou não, mais adiante descobrimos que o casal não tem fotos juntos nos momentos mais significativos de suas vidas.

“45 anos” - Andrew Haigh

O desenrolar da história que acontece durante o outono, traz mais reforço para a personagem que parece “desvanecer” aos poucos. Às vezes a vemos diminuída andando por um campo enquanto procura o cachorro. A vegetação apresenta uma neblina e a fotografia traz uma paleta de cores meio azulada que parecem retratar a mulher como uma lembrança, algo que não é vívido na memória, mesmo ela estando casada com Geoff há 45 anos. O mesmo ocorre na direção de arte. Katy costuma usar um casaco branco que em determinados lugares onde ela é enquadrada, faz com que a personagem se “funda” com a paisagem ou com o que está atrás dela. Mesmo em dias ensolarados, as folhas secas e o vento reforçam essas ideias.

“45 anos” - Andrew Haigh

“45 anos” - Andrew Haigh

Chega em um determinado momento em que a mulher decide confrontar o “fantasma” de Katya. O enquadramento foi muito bem pensado, porque não temos em nenhum momento planos separados que mostram as fotos que são exibidas nos slides e planos que mostram a reação de Kate ao ver as fotos. Ambas aprecem juntas no mesmo plano, e Katya parece observar Kate, em uma poesia visual que retrata um confronto entre passado e presente.


No final, já no dia da festa, o roteiro de “45 Anos” evita um final clássico e direto, se concentrando mais nos sentimentos de Kate e uma possível decisão da personagem com relação ao seu casamento, é retratada através do semblante da personagem que é tomada por uma luz azul enquanto toca “Smoke Gets In Your Eyes” dos The Platters, cuja letra da canção reforma mais os sentimentos de Kate.





domingo, 12 de março de 2017

O Coração Delator

Por: Tarcísio Paulo Dos Santos Araújo

“Esta é uma história relatada por um homem louco, e apresentada da forma como os acontecimentos foram registrados em sua mente distorcida”.

Assim se inicia o primeiro intertítulo do curta “O Coração Delator” (The Tell-Tale Heart, 1928), curta metragem mudo dirigido por Charles Klein e Leon Shamroy (não creditado), adaptado do conto homônimo de Edgar Allan Poe. Com adaptações mais conhecidas do público como “O Corvo” e “A Queda da Casa de Usher” (que por sinal também conta com uma adaptação muda, realizada também em 1928 na França, por Jean Epstein), vale a pena conhecer mais essa que se encontra no Youtube. Mesmo sem legendas em português para os intertítulos, quem já conhece o conto e por conta do próprio cinema mudo ser um cinema que privilegia o contar histórias através das imagens, não fica difícil de compreender a narrativa.

Como o próprio intertítulo mencionado acima nos avisa, temos toda a narrativa do ponto de vista do protagonista, cuja mente está distorcida. O homem planeja matar um senhor que dorme no quarto, cujo olho perturba o protagonista de tal forma, que ele prefere se livrar do pobre senhor.
O curta não poderia ter deixado de lado o estilo que mais acolheria a sinopse do conto: o expressionismo alemão. O expressionismo alemão surgiu primeiro nas artes plásticas para só depois chegar ao cinema. Grande precursor do cinema de horror, esse estilo surgiu na Alemanha com o filme “O Gabinete do Dr. Caligari” de 1920.

Conhecido por externar os sentimentos e sensações dos personagens através dos cenários e das expressões dos atores, temos assim a representação de uma realidade que não busca ser objetiva.


E é exatamente isso o que podemos notar ao ver o curta. O uso de sombras distorcidas e uma expressão de angústia e loucura do personagem principal marcam o visual da narrativa, que também faz o uso de uma fotografia que privilegia pouca luz, mesmo porque parte da história se passa à noite quando a vítima do homem insano está dormindo. 


Passado inteiro dentro de um quarto, a fotografia também consegue diminuir a sensação de espaço do lugar com a escuridão, como forma de representar uma mente encurralada e tomada pelas sombras, com poucas chances de se iluminar. Quando conseguimos ter uma ideia melhor do quarto, já é de dia. A chegada dos detetives reforça o momento como um vislumbre de realidade, porém sem nunca deixar de representar o psicológico do protagonista nas portas, janelas e formas dos cenários completamente disformes. 


Se o conto de Edgar Allan Poe consegue mergulhar fundo na insanidade de seu personagem, o filme faz uma interessante representação do conto ao usar o expressionismo alemão (embora o filme seja americano) como forma de alcançar o mesmo efeito no cinema. Vale a pena conferir.



Abaixo link para conferir o curta no youtube







sexta-feira, 10 de março de 2017

Objetos cortantes

Resenha do livro: "Objetos cortantes" da autora  Gillian Flynn, de 2015




Objetos cortantes trás uma história de mistério instigante com uma dose de tensão que consegue prender o leitor durante o livro. Tudo gira em torno de misteriosos assassinatos de crianças em uma cidade pequena do interior dos Estados Unidos.

 A protagonista é Camille Preaker, uma personagem interessante com várias camadas, das quais vamos tendo acesso no desenrolar da história, uma delas é o fato de que  Camille tem o corpo todo marcado por sua mania extremista de se cortar, possui muitas cicatrizes, palavras que foram entalhadas por ela mesma, como meio de fuga de seus problemas ou de lembranças que permanecem nela, e ajudam a revelar seus sentimentos mais profundos e angustiantes.

 Ela é uma jornalista com a carreira estagnada, trabalha em um jornal pequeno da cidade Chicago, já passada dos 30 anos e sem perspectivas sobre o futuro, com diversos problemas e transtornos psicológicos. Camille é enviada para a cidade de Wind Gap a trabalho para investigar o assassinato de uma garotinha que chocou a pequena cidade.

A pacata Wind Gap é também a cidade natal de Camille, a qual ela não desejava voltar por fantasmas do passado, a cidade conservadora é o pano de fundo para o desenrolar do livro. Entrelaçado com a investigação e as entrevistas que Camille tenta   fazer com os moradores da cidade em buscas de respostas e de um suposto perfil de assassino, vamos descobrindo mais sobre a história de Camille enquanto ela vai explorando seus limites, numa jornada de autoconhecimento.

Camille cresceu em uma casa grande de família rica e tradicional, porém nunca conheceu o pai, foi criada pela mãe e pelo padrasto que sempre foi indiferente a seu respeito, ela ainda tem duas irmãs do segundo relacionamento da mãe, Marian que faleceu ainda criança e Amma uma garota de treze anos mimada e geniosa, que tem uma estranha relação com a irmã, que ao mesmo tempo que se projeta na garota, não sabe como lhe dar com a menina que parece despertar suas piores lembranças.

O relacionamento de Cammile com a família é muito problemático e beira o perturbador, sua mãe, Adora, é super controladora e hipocondríaca, vive para representar socialmente e parece não gostar da filha mais velha fruto de um antigo amor não correspondido. As cenas construídas na casa de Adora despertam certo desconforto no leitor, a forma pela qual Camille descreve a casa, sua frieza seus objetos e algumas lembranças ruins do passado solitário com uma irmãzinha doente gera uma angustia, pela qual é possível entender o porque de a personagem ser tão insegura.

Cammile é solteira e apesar de seus traumas  e seu desejo de mutilação e auto destruição é independente, vive sozinha em Chicago por isso se torna uma figura diferente aos olhos dos moradores conservadores de Wind Gape, o que da a sensação de estrangeirismo para a personagem e também para o leitor que passa a enxergar o lugar com os olhos de Camille, como uma cidade onde não se consegue se ter empatia por nada e ninguém, um lugar onde se deseja sair.  

O livro traz uma forma de narrativa muito sincera, estamos dentro da cabeça de Cammile, e ela por sua vez também não é um personagem de fácil empatia, mantendo sempre um olhar distante dos outros personagens e os descrevendo com certo desprezo sempre com um olhar de critica e cinismo com relação ao mundo a sua volta, porém é a partir desse ponto de vista que o livro ganha sua melhor faceta e é possível se interpretar uma critica social com relação a posição da mulher na sociedade, é interessante perceber que a cidadezinha retrograda pode ser entendida como a “prisão feminina” das imposições sociais, seja pela necessidade de manter uma vida de aparência e a importância de corpos perfeitos, ou pela “obrigação de um casamento”, mesmo que isso nem sempre de fato garanta felicidade, e indo a extremos como a ideia de abuso e violências.

Quando Camille retorna a sua cidade natal sem marido ou família e tem de confrontar suas antigas amigas de escola, o peso das cobranças de ser bem sucedida começa a recair sobre ela, que passa a se sentir desajustada. O livro trabalha de forma sutil a ideia dos rótulos e dos julgamentos até mesmo brincando com isso confundindo o olhar do leitor, fazendo ele se questionar a respeito de seus próprios preconceitos.

O livro constrói muito bem a trama, nos convidando a chegar a solução do mistério, porém no ultimo capítulo ele perde um pouco a fluidez e ritmo de narrativa que trazia, se tornando previsível, no entanto a história permanece instigante, e possui bons momentos de reviravoltas o que torna o livro muito interessante. 

Objetos Cortantes da escritora Gillian Flynn, mesma autora do Best seller “Garota Exemplar” que foi adaptado para o cinema contando com o trabalho de roteirização da própria autora e com a direção do aclamado diretor David Fincher.





"Garota Exemplar" - David Fincher 2014


Gillian Flynn continua fazendo a ponte com o audiovisual, é aguardada a série que adaptará Objetos Contatantes para a TV  produzida pela HBO, que já conta com o nome da atriz Amy Adams no elenco, para dar vida ao papel da Jornalista Camille Preaker.



Amy Adams

Erotismo e a cidade: Vidas nuas (1967) de Ody Fraga

  O aspecto mais interessante em Vidas nuas é a fluidez como a cidade de São Paulo é filmada, desde seu primeiro plano quando temos acesso ...