quinta-feira, 2 de março de 2017

Moonlight: Sob a Luz do Luar

Análise do filme Moonlight: Sob a Luz do Luar

Por: Tarcísio Paulo dos Santos Araújo 


A edição do Oscar 2017, sem dúvidas, ficou na história. Ninguém nunca havia errado o nome de um vencedor. “La La Land” levou seis prêmios no último domingo (dia 26), além de ser eleito como melhor filme de 2017. Momento esse que durou alguns minutos. Com “Moonlight: Sob a Luz do Luar”, sendo o verdadeiro vencedor de melhor filme, podemos dizer que tivemos uma premiação quase justa (“Star Trek” deveria ter ganho por melhor maquiagem, assim como Isabelle Huppert como melhor atriz, pelo filme “Elle”).

Memes e brincadeiras à parte, ainda é cedo para sabermos se “Moonlight” irá se manter atual com o passar dos anos, mas podemos ter certeza de que no presente o longa é extremamente necessário ao retratar a comunidade negra longe de estereótipos e através da humanidade que dá aos seus personagens que somado ao prêmio, dará extrema visibilidade à uma comunidade tão marginalizada.

Mas não pense você, que ainda não assistiu ao filme, que ele traz na sua forma uma narrativa carregada de vitimismos ou até mesmo panfletária. Tudo foi realizado com muita sensibilidade e poesia, tocando em assuntos como homossexualidade, bullying, autodescoberta, a importância da afetividade e da conexão com o outro e a tentativa de se encontrar no mundo, garantindo assim um desabafo universal capaz de criar fácil empatia com o público. 


O longa se destaca por sempre buscar a humanidade e a beleza em meio a um ambiente violento e que oferece poucas chances ao personagem principal. Dividido nas três fases da vida de Chiron (Alex Hibbert), conhecido por todos como “Little”, o filme conta a história desse menino que mora em um bairro periférico de Miami. Nessa primeira fase somos primeiramente apresentados a Juan (Mahershala Ali), que também foi premiado, ganhando o Oscar de melhor ator coadjuvante. O ator interpreta um traficante de craque que terá total importância na vida de Chiron, que logo em sua primeira cena, é visto por nós correndo dos colegas de classe que estão sempre o provocando.

O encontro do menino com Juan acontece em uma casa abandonada onde o garoto se escondeu para não apanhar dos colegas. Acuado em um canto, Juan tira um pedaço da madeira que cobria a janela da casa, deixando a luz entrar no local. Elementos visuais como esse, fazem total diferença para a narrativa ao reforçar aspectos da relação entre os personagens. 




Acuado e sempre falando pouco, Chiron costuma andar de cabeça baixa, trazendo na sua expressão corporal uma baixa autoestima gerada pela violência sofrida na escola. Essa característica do personagem parece refletir também na fotografia, que em  alguns momentos, é como se a câmera o evitasse, respeitando assim seu espaço.



A partir desse encontro, Juan terá um papel muito importante na vida do garoto, que resultará na tentativa de resgatar sua identidade, começando por chamar o garoto pelo nome. A relação de ambos traz diálogos de extrema importância no que diz respeito a consciência negra e acima de tudo, na base de uma construção de identidade do menino. A confiança fica estabelecida em uma linda cena onde Juan ensina Chiron a nadar.    


Já a mãe do menino, Paula (Naomie Harris), é usuária de drogas e faz programas dentro da própria casa. A personagem costuma abusar emocionalmente o garoto, principalmente quando está sob efeito das drogas. Essa primeira fase da vida do protagonista, bem como a segunda, encerra com momentos de rupturas. Em uma cena em que Paula grita com Chiron, a personagem grita enquanto ao fundo vemos uma iluminação arroxeada, vinda do quarto da personagem. No cinema é comum a ligação da cor roxa com a morte. Se aqui a morte não ocorre de forma física, ela acontece de forma simbólica, já que parece marcar o fim de uma esperança de que Chiron pudesse ter ainda alguma relação saudável com sua mãe, que vai se entregar ao vício com o passar dos anos. O mesmo rompimento acontecerá entre Chiron e Juan, quando o garoto descobre que o único homem que ele conheceu e que sabia que poderia confiar, vende drogas. A cena é uma das mais emocionantes e acredito que teve um grande peso para que Mahershala Ali ganhasse o prêmio da academia. 





Chegando na segunda fase, Chiron (interpretado agora por Ashton Sanders) agora é um adolescente que continua a sofrer bullying na escola. O menino se esforça para manter a confiança, porém, o meio em que vive continua não facilitando para que sua vida seja menos difícil. Seu amigo Kevin (Jharrel Jerome), é agora o responsável pela descoberta de sua sexualidade, uma vez que Chiron nutre sentimentos pelo rapaz. 

Já a relação com sua mãe, é marcada pelo vício da personagem que está mais evoluído do que antes. Agora adolescente, tanto Chiron quanto nós, encaramos o vício de Paula de forma mais direta e explícita. Em uma cena de abstinência em que Paula precisa de dinheiro para comprar drogas, a mulher aparece desorientada. A câmera subjetiva de Chiron e de Paula, frisa bem o estado de mãe e filho. Enquanto no primeiro, temos uma mulher alterada e precisando se drogar, no segundo temos um filho ciente do que acontece com sua mãe e que sabe que não há muito o que fazer.




Aos poucos a fotografia vai ganhando luzes mais quentes, provenientes dos postes das ruas da cidade. Essas cores estão presentes em uma das cenas mais significativas para o personagem que é quando ele beija Kevin e um contato mais íntimo entre os dois personagens acontece. Segundo o próprio diretor, Barry Jenkins, a fotografia do longa não optou por seguir talvez o que seria o mais óbvio, como “banhar” os personagens somente em luzes mais frias ou sombras constantes. Jenkins cresceu em bairros periféricos assim como o protagonista, mas disse se lembrar sempre da beleza das luzes das cidades. Como já dito no início, “Moonlight” retrata uma dura realidade, mas sem nunca deixar que seu protagonista perca sua sensibilidade e essência, características essas que parecem refletir na fotografia, que também não deixa de retratar a melancolia das vidas de seus personagens, fazendo uso de uma fotografia mais azulada em determinados momentos durante todo o filme.


A ruptura acontece mais uma vez no final da segunda fase do protagonista. Dessa vez o bullying é o grande responsável por isso. Como se não bastasse, o grande causador de tudo é justamente Kevin, que por medo de ficar mal com os colegas, aceita dar uma surra em Chiron. Fica claro como as pessoas que parecem dar esperança para que o protagonista possa mudar sua realidade, são as mesmas que acabam lhe fazendo mal.

E finalmente chegamos na terceira fase. Chiron, agora conhecido como “Black” (interpretado na fase adulta por Trevante Rhodes), vive em Atlanta. Depois de ficar um tempo na prisão juvenil, foi ajudado por um traficante e agora tem uma vida muito semelhante à de Juan. Mais musculoso e respeitado por todos, ele usa uma espécie de dentadura de ouro por cima de seus dentes reais e anda em seu próprio carro. Se o filme parece nos fazer pensar, mesmo que por um segundo, que a narrativa irá cair em algum estereótipo em que veremos personagens negros traficando drogas, a terceira fase de “Moonlight” nos mostra mais ainda porque o filme foi merecedor de ganhar na categoria de melhor filme do Oscar desse ano. 




A partir daqui, iremos acompanhar a desconstrução da nova imagem de Chiron, que irá revelar mais uma vez sua essência, sensibilidade e humanidade, independentemente do que a vida o levou. Um telefonema de Kevin, que agora trabalha em um restaurante, e um convite para jantar, trará à tona todo o seu passado e a possibilidade de um futuro melhor para o protagonista. Essa fase é também marcada como um momento de se fazer as pazes com o passado. Antes de ir se encontrar com o amigo, Chiron visita a mãe em uma clínica de reabilitação onde o encontro serve como um pedido de perdão da mãe e a possibilidade de um novo recomeço. 




No encontro entre Kevin e Chiron, é possível percebermos mais uma vez o poder das luzes da cidade e do próprio restaurante que reforçam através das cores quentes, a relação do protagonista com seu amigo, que também está disposto a pedir desculpas pelo o que fez. O azul também não é esquecido, ao aparecer nas luzes da cozinha e da geladeira, e até pela janela do restaurante. 



Ainda no que diz respeito a uma espécie de armadura usada pelo personagem, Chiron leva um tempo para sair do carro e quando o faz, está usando os dentes falsos de ouro e resolve vestir uma camiseta por cima da regata que usava. Temos mais uma vez o visual reforçando questões emocionais do personagem. Voltando ao restaurante é interessante notarmos outra questão: a comida. O ato de oferecer comida é algo bem forte em “Moonlight”, já que nas três fases da vida de Chiron, alguém oferece uma refeição a ele, simbolizando esse afeto e conexão dele com esses personagens. Agora com Kevin, a preparação do jantar e a montagem do prato feito pelo próprio, ganha destaque e até música, fortalecendo sua importância na narrativa. Já Chiron, retira os dentes de ouro para poder jantar, adicionando assim mais um elemento para esse “desarmamento” do personagem, rumo a sua sensibilidade e humanização.




No final, no apartamento de Kevin, Chiron se abre e revela algo que resume todo o filme: a jornada desse personagem em busca de afeto e de conexão com as pessoas. Independentemente do que acontecerá depois, “Moonlight: Sob a Luz do Luar” traz muito além da narrativa, a contemplação da esperança no outro.

Em tempos de frases como: “Tá com dó? Leva pra casa!”, o filme busca trazer uma humanização para estereótipos que podem cair facilmente em julgamentos sem nem ao menos procurarmos entender o contexto de vida do outro.








La La Land – Cantando Estações

Análise do filme“La La Land – Cantando Estações” (Damien Chazelle,  2016)

Ainda no clima de semana de Oscar, porque não falar sobre La La Land de Damien Chazelle diretor que ficou conhecido por seu trabalho em (Whiplash - Em Busca da Perfeição, 2014).

La La Land – Cantando Estações levou seis estatuetas para casa e acabou sendo um dos pivôs de uma das maiores gafes da historia da premiação, quando teve seu titulo anunciado como o melhor filme do ano, quando na verdade o vencedor era “Moonlight: Sob a Luz do Luar”.

Tudo isso acabou repercutindo as redes sociais e de certa forma atraindo mais olhares para os dois filmes, que possuem seus méritos próprios cada um a seu estilo. 

La La Land é um musical que chegou com potencial de filme inovador, e durante a temporada de premiações acabou atraindo o olhar dos críticos e consequentemente do público, o que é difícil acontecer quando se trata de um musical. Apesar das expectativas em torno do filme ele acabou não ganhando o reconhecimento de melhor filme pela academia do Oscar, e de modo geral não dialoga com o grande público, já que este tipo de produção não tem a tradição de arrastar multidões ao cinema, mas afinal o que torna La La Land tão especial?



Para começar o filme trabalha a questão da própria indústria cinematográfica, funcionando de duas formas: uma na qual presta uma homenagem ao próprio gênero musical da era de ouro do cinema, tanto na estética como na abordagem das danças e das musicas e de como isso se reflete na construção da sua forma fílmica na escolha de planos e enquadramentos, que funcionam muito bem, diga-se de passagem. A outra forma é a critica ao sistema por trás da indústria dos sonhos hollywoodiana, uma indústria que por vezes é displicente com os artistas e com o público e que busca o lucro acima de produções artísticas, colocando em cheque se vale mesmo apena trabalhar nela.

O enredo trás um casal de sonhadores e cada um a seu modo acaba refletindo a ideia dos sonhos e da critica aos padrões de Hollywood, de um lado Mia (Emma Stone) uma jovem aspirante à atriz de cinema, que trabalha como garçonete em Los Angeles, que batalha entre uma audição e outra a chance de um dia poder mostrar o seu talento e se tornar uma grande estrela.


Por outro lado temos Sebastian (Ryan Gosling) um jovem musico pianista e perfeccionista, que não aceita as mudanças na indústria da música, onde o Jazz clássico não tem espaço na mídia ou nos bares, por isso, mesmo tendo muito potencial e talento, acaba levando uma vida medíocre tocando em restaurantes para sobreviver.



O filme trabalha explorando as cores na construção dos personagens e das cenas, são as cores que refletem o estado de espírito dos personagens evidenciando suas posições diante da vida. Se Mia sonhadora mora em uma casa colorida, com muitos objetos coloridos que de uma forma ou de outra revelam os seus desejos ainda não alcançados, Sebastian por outro lado mora em uma casa bagunçada com poucos objetos e cores neutras pelos ambientes, mostrando uma faceta já desiludida e vazia do personagem.

As cores no filme vão além dos figurinos e da direção de arte, que abusando de contrastes, mas vão as cenas externas em planos que captam paisagens belas e coloridas em um trabalho excelente de fotografia, que é o grande destaque do filme, que consegue fazer recortes da cidade fazendo com que ela adquira vida além do que de costume, isso se torna possível também pela forma que a iluminação é feita para evidenciar as cores em um jogo de luz e sombra, também vindas da era clássica de Hollywood, desse modo, os cenários evidenciam os sentimentos dos personagens, mas também por vezes os oprimem e nos fazem ter a ideia de que os sonhos estão se desmanchando.






As canções presentes no filme tem um cunho melancólico que contrasta com as cores vibrantes, e também contribuem com o espectador revelando as angustias vivida pelo casal que está fardado de uma forma ou de outra a não atingir seus objetivos já que isso não seria possível, revelando embate entre sonho e realidade. Além das canções originais o filme também trás músicas já conhecidas para dentro de sua trilha, como Take on me (A-há), e I Ran So Far Away (A Flock Of Seagulls), clássicas dos anos 1980 famosas por acrescentarem sons eletrônicos e sintetizadores no pop rock, no filme essas músicas contribuem como mais um objeto de nostalgia e ajudam a estruturar a narrativa que percorre por através do tempo os gêneros musicais e cinematográficos a fim de mostrar a força da indústria e como isso reflete na forma que consumimos música e cinema.

O filme se estrutura a partir desses elementos de referências da música e do cinema e da evolução da indústria e também através das estações do ano que são expostas em intertitulos na tela que guiam as sequências de acontecimento, dando uma ideia de linearidade ao filme que é feito nos moldes dos filmes clássicos, porém ele não segue linear e quebra com a expectativa do público que é guiado para outros caminhos, que mesclam sonhos, realidade e fantasia.



 Dialogando através da estética visual que acaba expressando mais que a própria música em si no filme, fazendo de um filme de referências um filme de crítica ao invés de homenagem, e um musical que encanta mais pelas imagens que pela dança e canto onde La La Land é a cidade de Los Angeles (LA)  dos sonhos e das fantasias, onde nem tudo é o que parece ser. 


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

É Apenas o Fim do Mundo

Xavier Dolan traz uma conturbada e complexa relação familiar em

 “É Apenas o Fim do Mundo”.

Por: Tarcísio Paulo dos Santos


O Canadense Xavier Dolan surpreende por seu talento que pode ser conferido nos sucessos de “Amores Imaginários”, “Eu Matei Minha Mãe” e Mommy. Com apenas vinte e oito anos de idade, o cineasta já conta com sete filmes no currículo, incluindo seu mais novo filme “A Morte E Vida De John F.Donovan” que deve estrear só no ano que vem.

Seu mais recente filme, “É Apenas o Fim do Mundo” (2016), conta a história de Louis, um escritor que está muito doente e tem pouco tempo de vida. Depois de doze anos longe de sua família, vivendo na cidade grande, o jovem resolve voltar para comunicar sua doença. O longa é baseado na peça teatral homônima de Jean-Luc Lagarce, escrita em 1990 e que tem características da própria vida do autor.  



Podemos esperar os excessos no comportamento dos personagens, que aliás são uma característica nos filmes de Dolan, não demorando muito para entendermos os motivos que fizeram Louis sair logo de casa. Esse é o tipo de narrativa que nos ganha pelos personagens, mesmo porque esse é um filme de personagens. A fotografia privilegia closes nos atores, destacando bem suas expressões, sensações e sentimentos. 




Se por um lado vemos aquela família falando em voz alta, muitas vezes atropelando a fala do outro, basta termos paciência para que as camadas dos personagens sejam pouco a pouco descobertas por nós durante diálogos cheios de sensibilidade.

A ausência de Louis é sentida por todos na casa, e podemos notar a importância que ele tem para cada integrante da família, que tem uma relação diferente com o protagonista.    Léa Seydoux, interpreta Suzanne, irmã de Louis que ainda era criança quando o irmão foi embora. Mais velha, a jovem vê na chegada do irmão a oportunidade de ter alguém com quem desabafar e falar sobre si, como uma fuga da própria família, que por mais que ela goste, também parece entender o lado de Louis.

Catherine (Marion Cotillard), interpreta a cunhada de Louis, que ainda não o conhecia quando o mesmo foi embora de casa. Ela é uma das personagens mais interessantes, pois logo percebemos a forma como ela tenta conhecer melhor Louis, enquanto é constantemente criticada por Antoine (Vincent Cassel), seu marido. A personagem parece sempre trazer consigo um nervosismo ao falar, fruto de uma possível baixa autoestima. Ela estabelece uma interessante conexão com Louis em uma cena muito instigante e aberta a interpretações, sobre o fato de ela suspeitar (ou não) do real motivo que levou Louis a voltar a ver seus familiares.   


Já a matriarca (Nathalie Baye) da família é uma mulher expansiva que adora exagerar na maquiagem e falar o tempo todo. Porém, somos depois surpreendidos em uma cena, bem comovente, em que a mulher e Louis conversam sobre sua partida e a importância de seu retorno como forma de unir a família. Percebemos que a mãe do personagem é muito mais do que aquela mulher expansiva e que parecia tão superficial. 


Por último temos Antoine, já mencionado acima. O irmão mais velho de Louis é um dos personagens que mais se destacam no filme, tanto positivamente, quanto negativamente. Sua postura é uma das mais irritantes, uma vez que adora criticar todos o tempo todo, não poupando nem mesmo o irmão recém-chegado. Por trás desse comportamento (que deve irritar muito o espectador, mas que vale a pena aguentar) existe um personagem cheio de sentimentos não expostos, além de um complexo de inferioridade com relação a sua profissão e uma grande mágoa pela partida de seu irmão. O personagem então responde a tudo isso usando uma espécie de armadura de agressividade. 



Em meio a tudo isso, o filme cria ainda momentos de tensão com relação a revelação da doença de Louis, que não consegue contar nada para a família de imediato. Além disso, o filme trabalha uma nostalgia do personagem com relação a um ex-namorado que marcou sua adolescência, em momentos que combinam música e câmera lenta que parecem evocar uma sinestesia olfativa e até tátil no próprio espectador, como quando o personagem encosta o rosto no seu antigo colchão.

“É Apenas o Fim do Mundo” termina de uma maneira muito sensível e metafórica que pode não agradar a todos, mas que basta considerarmos o filme como um todo, para percebemos que o final mais acrescenta um ponto de vista de Louis, que não é muito difícil de nos colocarmos em seu lugar. 








sábado, 18 de fevereiro de 2017

Os Encontros de Anna

“Os Encontros de Anna”, um ensaio sobre a desconexão

Texto de: Tarcísio Paulo Dos Santos Araújo

Em um plano geral de um metrô, uma escada que segue até o subsolo do mesmo, pode ser vista centralizada no enquadramento. Um número considerável de pessoas se aproximando em direção à escada. Entre elas está Anna, que desiste de descer e vai até uma cabine telefônica onde faz uma ligação para só depois descer as escadas. Sozinha, a personagem já nos foi apresentada de uma maneira que será muito importante para o tema do filme. 



Assim começa “Os Encontros de Anna”, filme de 1978, dirigido por Chantal Akerman, falecida em 2015. Anna é uma cineasta que está divulgando o seu filme pela Alemanha, Bélgica e França. A narrativa acompanha a personagem por essas viagens nas quais ela conhecerá pessoas novas e reencontrará outras já conhecidas, que irão compartilhar muito de suas vidas com a própria personagem, e consequentemente com o espectador.

O filme trata da falta de conexão de Anna com as pessoas ao seu redor, além de não conseguir criar laços com as mesmas. Toda possibilidade para ela, parece ser algo impossível. Voltando aos planos gerais, o espectador poderá notar que eles serão uma constante no filme, assim como a câmera parada enquanto a ação, muitas vezes banal, acontece. Isso é comum nos filmes de Akerman, que tem seu cinema considerado por alguns críticos como hiper-realista, uma vez que o banal que acaba sendo extraído no cinema clássico, ganha nos filmes da cineasta total importância dentro do contexto da narrativa.  



Nesse cinema de observação, Anna conhece Heinrich, um professor que estava na exibição de seu filme, que por sinal não é mostrada para nós. Em mais um plano geral, podemos ver Anna e Heinrich conversando ainda dentro do cinema cujas luzes vão se apagando e deixando o casal no escuro, que se vê obrigado a sair do local. Esse simples acontecimento, somado a câmera estática, parecem simbolizar que não teremos um típico casal que dará certo. Temos também um mundo monótono aos olhos de Anna, que em boa parte do filme, não se mostra uma mulher triste com a vida, retratando mais uma mulher cuja vida está ligada no automático, somada a falta de esperança no outro.

Se o filme já parece interessante ao retratar esse aspecto da personagem, ainda temos os encontros de Anna, que afinal, está no título do filme. Os personagens que dialogam com a personagem falam de suas vidas, tristezas e esperanças como se também dialogassem conosco. Especialmente o relato de Heinrich, chama a atenção pela forma com que Akerman o filma. O personagem, que não desperta o interesse de Anna, é enquadrado sozinho enquanto fala, acentuando mais a falta de vinculo entra ele e a protagonista, assim como sua solidão. Mesmo quando a protagonista divide a tela com algum personagem, seu olhar oscila entre distração e compaixão. Ao mesmo tempo, é como se cada relato fizesse a personagem pensar em algum aspecto de sua vida, pensamentos esses que não são divididos diretamente com o espectador, mas que podem facilmente ser imaginados por conta do contexto da narrativa.

  



Até mesmo com sua mãe a personagem traz um certo distanciamento, mas ainda assim, ambas dividem algumas confidências como detalhes sobre a sexualidade de Anna, que são contadas para a mãe. Esse momento é um dos poucos que ainda trazem um certo conforto para o espectador.

Com um cinema puramente de observação e de ações sutis que revelam muito dos aspectos da vida de seus personagens, “Os Encontros de Anna” é um filme que consegue prender por sua sensibilidade, poesia visual e ao mesmo tempo um realismo na narrativa, onde o trivial pode fazer total diferença em nossas vidas.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

O Reflexo da Maldade

O poder da Imaginação na infância é retratado em “O Reflexo da 

Maldade”

Texto de: Tarcísio Paulo Dos Santos Araújo

Seth (Jeremy Cooper) é um garoto de sete anos que vê o mundo ao seu redor de uma forma diferente. Depois de ir até a casa de sua vizinha, Dolphin (Lindsay Duncan), ele passa a acreditar que a mulher é uma vampira. Quando seu irmão mais velho, Cameron (Viggo Mortensen), volta da guerra e se apaixona pela mulher, o menino começa a fazer de tudo para impedir o relacionamento entre os dois.



Através desse duplo universo entre imaginação e realidade, somos convidados a embarcar na história de “Reflexo da Maldade”. Se de um lado temos Seth, como um menino com poucos amigos e cheio de imaginação vivendo no interior, temos do outro, uma vida mais dura. O filme toca em questões pesadas para uma realidade infantil, como pedofilia, abuso infantil, assassinatos e as consequências da guerra.

O curioso é que na verdade, o lado imaginativo de Seth não procura amenizar a realidade à sua volta. O menino tem uma mãe que o castiga e pouco parece se importar com o ele, além de um pai acusado de pedofilia no passado. Como se não bastasse, um 



misterioso carro preto costuma andar pela cidade (aparentemente) recolhendo pessoas e as matando, deixando os corpos em lugares diferentes.

Em meio a isso tudo, o menino parece buscar na volta do irmão mais velho, uma tentativa de escapar de sua realidade, embora muitas vezes não percebemos que o garoto pareça sofrer com a maneira que vive. O filme fica mais interessante quando entra em questões como o sentimento de perda, por conta da guerra. Ficamos divididos entre os relatos de Dolphin que perdeu seu marido e que nunca mais conseguiu se recompor. A mulher traz em seu sofrimento um pouco de excentricidade que para os olhos de Seth, faz dela uma vampira. O mesmo acontecerá quando Cameron começar a se envolver com a mulher. Se de um lado torcemos para o casal, do outro tentamos entender o temor de Seth, que também é carente de afeto e atenção, e que tenta desesperadamente “salvar a vida” do irmão.



É curioso que mesmo com algumas travessuras, percebemos como o filme parece explorar uma possível tendência do menino em adquirir um comportamento mais violento, mesmo que o menino não faça nada contra ninguém. Pelo menos não de forma direta. A morbidez também tem um importante papel na vida de Seth. O garoto encontra um bebê morto e passa a acreditar que a criança seja seu amigo, que foi achado morto dentro da caixa d’água de sua própria casa.

Tudo isso é concebido com planos abertos muito bem elaborados, principalmente pelo destaque das cenas em que vemos a casa de Dolphin em meio a um milharal seco que parece reforçar a sensação de imponência através da perspectiva de Seth.



“O reflexo da Maldade” é um interessante filme sobre a perda da inocência, além do retrato de uma infância negligente e sem afeto que pode ter preocupantes resultados futuros para um menino de sete anos.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

“O Parque Macabro”

Terror psicológico e existencial marcam “O Parque Macabro”

Texto de: Tarcísio Paulo Dos Santos Araújo

Lançado em 1962, “O Parque Macabro” (Carnival of Souls) foi dirigido por Herk Harvey e teve um orçamento de 33 mil dólares. Sem chamar muito a atenção do público na época de seu lançamento, o primeiro e único longa de Harvey (que depois se dedicou mais a curtas-metragens de documentário e curtas de ficção) conseguiu o status de clássico cult depois de diversas exibições na TV e em festivais do gênero nos EUA. No Brasil o filme foi lançado em DVD pela Versátil Home Video em 2015, na coletânea “Obras-primas do Terror Vol. 3” com o nome “Carnaval de Almas”.

O filme começa com Mary Henry e mais duas amigas em um carro, quando são abordadas por um homem em outro veículo que desafia uma das amigas de Mary a fazer um racha. A mulher aceita o desafio e os carros saem em disparada pela estrada. A ação resulta no carro onde estava Mary e suas amigas caindo de uma ponte direto em um rio. Mary é aparentemente a única sobrevivente do acidente, porém, aos poucos a mulher parece ficar distante e desconexa com sua realidade.


Descobrimos depois que a personagem toca órgão profissionalmente nas igrejas e que acaba de ser transferida para outra cidade para tocar na igreja do lugar. Na estrada, a mulher passa a ver um estranho homem que começará a aparecer diversas vezes para a jovem. Além disso, Mary se mostra cada vez mais atraída em entrar em um parque abandonado que existe ali perto.

Com poucos recursos, mas muita criatividade, Herk Harvey consegue criar um filme com uma atmosfera envolvente e sinistra. Nada sabemos sobre o passado de Mary, deixando muitos acontecimentos da narrativa aberto a interpretações que podem ou não revelar algo sobre o passado da mulher. Será que Mary carrega alguma culpa e precisa se redimir? Ou o que acontece com ela revela apenas seu presente, sem ligação alguma com seu passado?

Independente de respostas, temos uma angústia existência da personagem, que passa a ver sua imagem nos vidros das janelas e carros, seja de forma apagada ou completamente disforme. A música facilita muito para a imersão da angustia e do horror vivido pela personagem que tem sua vida completamente mudada depois do acidente. Ela tenta se envolver emocionalmente com um homem que conhece na pensão, mas não consegue. No trabalho ela não consegue mais tocar o órgão como antes e nas ruas, as pessoas não a ouvem nem a veem. 


A fotografia em preto e branco só ajuda na beleza plástica do filme, compondo assim um universo distópico (pelo menos para Mary), além de alguns elementos que beiram ao surreal. A simples maquiagem na cor branca usada pelos atores que fazem papel de fantasmas também ganha um realce com a fotografia do longa, deixando-a mais intimidadora.   



Com um final não muito surpreendente, embora estejamos falando de um filme de 1962, cujo final já foi visto em outros filmes após este ano, “Parque Macabro” é um filme que vale a pena ser visto pelos fãs do gênero.     

Erotismo e a cidade: Vidas nuas (1967) de Ody Fraga

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