quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Especial Stephen King - O Autor




Nascido em Portland em 21 de setembro de 1947, Stephen Edwin King (ou simplesmente Stephen King), é um escritor norte-americano de terror, ficção sobrenatural, suspense, ficção científica e fantasia. Com quase 400 milhões de cópias vendidas, seus livros contam com publicações em mais de quarenta países. Sendo o nono autor mais traduzido no mundo, muitas de suas obras foram adaptadas em filmes, minisséries, séries de televisão e quadrinhos.

Quando tinha dois anos, seu pai, Donald Edwin King abandonou a família. Sua mãe, Nellie Ruth Pillsbury, criou King e seu irmão mais velho adotivo David, sozinha, muitas vezes passando por graves dificuldades financeiras. A família se mudou para a cidade natal de Ruth, Durham, Maine mas também passaram vários períodos em outras cidade.

Quando criança, testemunhou um de seus amigos preso em uma ferrovia e sendo atropelado por um comboio. Há quem diga que isso inspirou seu lado criativo macabro e suas criações perturbadoras, o que foi refutado pelo próprio King.

King era um leitor assíduo dos quadrinhos EC's horror comics incluindo Tales from the Crypt, que estimulou seu amor pelo terror. Na escola ele escrevia histórias baseadas nos filmes que assistia e as copiava com a ajuda de seu irmão David. King as vendia aos amigos, mas seus professores desaprovaram e o forçaram a parar.

De 1966 a 1971, Stephen estudou Inglês na Universidade do Maine, onde ele escrevia uma coluna intitulada King's Garbage Truck para o jornal estudantil, o Maine Campus. Em 1971, conhece Tabitha Spruce na própria universidade e se casam no mesmo ano.


A notoriedade de Stephen King começou com a ideia de escrever sobre uma moça jovem com poderes psíquicos, mas a ideia foi abandonada. Sua esposa resgatou os esboços do lixo e o encorajou a voltar a escrever. Após terminar o romance, ele o intitulou "Carrie" e mandou para a Doubleday. Ele recebeu US$2.5 mil dólares adiantados, mas os direitos autorais fizeram com que ele recebesse US$200 mil posteriormente. Pouco tempo antes do livro ser publicado, sua mãe morreu de câncer no útero. Sua tia Emrine leu o romance para ela antes de sua morte. King admitiu que nessa época ele se tornou alcoólatra por mais de uma década.

Ele também constatou que baseou o personagem Jack Torrance, do livro O Iluminado, nele mesmo. Sua família e amigos intervieram e King cortou o álcool e qualquer tipo de droga por volta de 1980, se tornando sóbrio desde então.

King já publicou cinquenta e nove romances, incluindo sete sob o pseudônimo de Richard Bachman, além de 6 livros de não ficção. Com cerca de 200 contos escritos, a maioria pode ser encontrada em coleções de livros. Conhecido pela literatura de terror/horror, o autor já escreveu algumas obras fora desse gênero, cuja popularidade aumentou ao serem adaptadas para o cinema como Conta Comigo, Um Sonho de Liberdade (contos retirados do livro Quatro Estações), Christine, Eclipse Total, Lembranças de um Verão e À Espera de um Milagre.



The Dead Zone originou a série homônima da  FOX. King também escreveu roteiros de episódios para a série Arquivo X, em que ele escreveu o roteiro do episódio "Feitiço", da quinta temporada.
King recebeu diversos prêmios reconhecendo seu talento, incluindo Bram Stoker Award, World Fantasy Award e o British Fantasy Society. Em 2003 a National Book Foundation concedeu-lhe a Medalha por Contribuição de Destaque à Literatura dos Estados Unidos.



quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Crítica - Midsommar: O Mal Não Espera a Noite





E já está nos cinemas mais um filme de terror que circulava pelas lista dos mais esperados  de 2019: Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (Midsommar, 2019), de Ari Aster. Responsável pelo excelente Hereditário (Hereditary, 2018), o cineasta  deixou o público dividido com seu primeiro longa-metragem, e o mesmo pode acontecer com seu mais recente trabalho.

Após uma tragédia familiar, Dani (Florence Pugh) viaja com o namorado Christian (Jack Reynor) e um grupo de amigos até a Suécia numa viagem para um festival folclórico de verão que acontece a cada noventa anos. O que começa como uma simples viagem, vai aos poucos se ternando algo sinistro quando os moradores do vilarejo convidam o grupo a participar do evento.

Para quem assistiu Hereditário, pode ter percebido como alguns temas voltaram a ser abordados em Midsommar, mesmo que de maneiras diferentes. A forma de lidar com o luto e o desgastes das relações estão claros em ambos os filmes. Se no primeiro filme temos o triste desmoronamento de uma família, aqui temos uma relação de um casal de namorados que já está desgastada.

Isso é bem explorado logo no começo do filme, quando Dani precisa lidar com essa tragédia familiar ao mesmo tempo em que sente que pode estar usando o namorado como muleta emocional para os seus problemas. Já Christian pretende terminar com Dani e ganha o total apoio de seus amigos, que pouco parecem se importar com os sentimentos da jovem. Quando decidem fazer a viagem todos juntos, fica claro o incomodo com toda essa situação. É justamente no primeiro ato do filme que o estudo dos personagens e a forma como eles se relacionam, fica mais nítida e sólida.

Aster apresenta o primeiro ritual dos habitantes do vilarejo para o grupo visitante em que está a protagonista. As cenas justificam a classificação de dezoito anos do filme e estão mais gráficas do que em Hereditário. Nós espectadores vemos tudo com os mesmos olhos de Dani, Christian e seus amigos. Importante como esses personagens acabam que servindo de guia para nós mesmos que estamos diante de um festival desconhecido. Até os diálogos em sueco não foram traduzidos propositalmente para criar mais desconforto.



Os trabalhos de fotografia e design de produção em conjunto criam uma atmosfera e um dos visuais mais acolhedores e contrastantes quando se fala em um filme de terror. Tudo e todos são muito acolhedores. Tirando suas ações, não há mais nada no filme que vilanize os personagens, nos fazendo entender que tudo ali é “natural” e faz parte da cultura daquele povo. Fora que quase o filme inteiro se passa durante o dia, deixando o contraste ainda mais perturbador. Ângulos desconfortáveis e os efeitos visuais nada exagerados ou caricatos, são sutis e desconfortáveis o suficiente.

Pistas aliás são o que não faltam. Basta ficarmos mais atentos que muito do que acontece no filme, aparece para o espectador através de desenhos e pinturas feitos pelos habitantes da vila nos tetos, paredes das acomodações e em tecidos. O primeiro ato acaba fazendo uma boa apresentação de tudo e para os mais atentos, já os prepara para o que está por vir. Não que já não esperássemos pelo pior. Mesmo assim, muito poderá ser compreendido e assimilado se o filme for visto uma segunda vez.



Nesse universo criado por Aris Aster, os filmes  Narciso Negro (1947), É Difícil Ser Um Deus (2013), Macbeth (1971), e Tess - Uma Lição de Vida (1979), foram usados como referências visuais. Rituais de tortura usados pelos vikings, além de características da arte medieval e de pinturas criadas pelos artistas Um Pan e John Bauer também compõem a plasticidade do longa. A cultura escandinava e germânica foi usada depois de uma extensa pesquisa feita pelo diretor para criar todo o seu universo. Tudo está lá presente através de easter eggs que prenunciam acontecimentos do filme.

Com tantas referencias, impossível não citar também O Homem de Palha (1973) e seu remake O Sacrifício (2006), que claramente foram homenageados ou serviram como inspiração em Midsommer. Vale lembrar que o original de 1973 foi o filme base de todos os outros longas que abordaram cultos pagãos e sacrifícios.



Com esse universo tão focado e rico, em alguns momentos parece que nos distanciamos  dos personagens e de toda aquela dinâmica que ia muito bem no começo do filme. Muita alegorias estão presentes nos rituais que espelham muito sobre Dani e seu relacionamento com Christian, porém tudo fica mais diluído e focado nos festivais e ritos, deixando uma sensação de monotonia em algumas sequencias.

Mesmo com alguns aspectos que podem dividir mais uma vez o público, agradar uns e desagradar outros, MidsommarO Mal Não Espera a Noite é mais uma prova de que Ari Aster é um nome que não podemos perder de vista e que promete trazer muitos filmes que têm tudo para agradar os fãs de um terror que busca nos tirar da zona conforto (já que só tomar sustos acabou mal acostumando o espectador) através de uma atmosfera perturbadora e cheia de estranheza.



domingo, 15 de setembro de 2019

Zoologia: Por que precisamos tanto da aprovação dos outros?




Zoologia (Зоология, 2016) é o segundo filme do cineasta russo, Ivan I. Tverdovsky. O longa, que é uma coprodução entre Rússia, Alemanha e França, foi exibido na 40º Mostra Internacional de Cinema que aconteceu em São Paulo em 2016. Além disso, o longa venceu o Prêmio Especial do Júri no Festival Karlovy Vary, na República Tcheca.

A sinopse é simples e direta, girando em torno de Natasha (Natalya Pavlenkova), uma mulher de meia idade que trabalha na parte administrativa de um zoológico. Morando com a mãe (Irina Chipizhenko), a mulher sofre bullying das colegas de trabalho e esconde uma calda (isso mesmo), que cresceu em seu corpo com o tempo. Quando vai ao médico, que lhe pede uma radiografia, Natasha conhece Petya (Dmitriy Groshev) e um romance se inicia.

Excêntrico, Zoologia é um filme sobre aceitação. Nesse caso, não nossa aceitação, mas a do outro, que às vezes acaba sendo mais importante para que possamos lidar melhor com nós mesmos. Não que todas as pessoas precisem da constante aprovação alheia para se sentir bem consigo mesma, mas quando nos vemos constantemente reprovados e excluídos, as consequências podem ser bem desastrosas.



Sem tentar explicar a natureza desse fenômeno que ocorre com nossa protagonista, a cauda não parece ser um grande incomodo para Natasha, que mesmo indo ao médico e realizando os exames pedidos, esconde essa sua característica por debaixo de suas roupas, enquanto vive sua vida e tenta lidar com o falatório das pessoas (que comentam sobre a existência de uma mulher com calda) do bairro onde mora e com o assédio moral vivido no seu local de trabalho. Intencional ou não, há um exagero na forma com que Natasha é tratada por suas colegas, embora a Rússia tenha desde o cinema mudo essa característica mais dramática e exagerada em alguns de seus filmes.

A Rússia aliás, que ficou mais conhecida por causa da Copa que aconteceu no ano passado, além de mostrar sua cultura e beleza, mostrou também seu lado intolerante. A forte religiosidade de uma sociedade que não está pronta para lidar com as diferenças, está presente no filme. Frequentemente associada ao diabo, a condição de Natasha a coloca como alguém marginalizado na sociedade, ao mesmo tempo em que a mesma condição é responsável por dar prazer a personagem, que se masturba na banheira usando sua própria cauda.



Tudo parece mudar quando Petya entra na história. O personagem em nenhum momento do filme, enxerga a condição da protagonista como algo aversivo e logo ambos começam um namoro. Natasha vai mudando seu visual como consequência da descoberta de um novo amor, trocando suas roupas acinzentadas por roupas mais modernas e coloridas e aproveitado também para mudar o penteado.



Se a cauda já não era algo que de fato era um empecilho para a mulher, nessa fase ela passa a se preocupar menos. Numa cena, inclusive, quando a personagem vai a um baile com o namorado, ela se deixa levar pelo momento da dança e da música enquanto sua cauda vai se desenrolando e ficando solta. A cena é importante ao mostra o momento em que a opinião do outro pouco importa na vida da  mulher.

Essa relação meio que de amor e ódio entre a protagonista e sua cauda, volta a ser motivo de incômodo quando a personagem percebe que não é vista por seu namorado pela pessoa que é, mas justamente por sua cauda. Dividida, temos Natasha entre o julgamento social e ser vista como um fetiche. 

Filmado como que um documentário, a câmera costuma estar sempre na mão acompanhando a personagem, detalhe esse herdado do cineasta graças às suas afinidades com o cinema documental. As cores mais cinzentas dominam a tela, como o próprio céu que está sempre nublado. O azul também é presente na pintura das paredes do hospital representando um sentimento mais depressivo e distópico na forma com que se relaciona com a protagonista.

Por outro lado esse azul parece fazer uma referência ao mar e consequentemente à natureza, lugar que faz parte do trabalho de Natasha. Aliás, ironicamente, são os animais presentes no zoológico que acabam vendo a personagem sem julgamentos, recebendo comida de sua mãos, sem nem se importar com sua anomalia.

Com uma excêntrica e interessante alegoria dentro de um romance, Zoologia usa o inusitado como metáfora para falar sobre intolerância e como socialmente ainda não estamos prontos para aceitar o diferente. E pior: como a opinião do outro ainda é a que prevalece.  

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Chega na Netflix "Clímax" de Gaspar Noé


O cineasta argentino (naturalizado francês) Gaspar Noé, traz em sua filmografia filmes como Irreversível (2002), Sozinho Contra Todos (1998) e Enter The Void - Viagem Alucinante (2009). Clímax (2018), penúltimo longa do cineasta, já está disponível na Netflix e é uma verdadeira e única experiencia.

Sabemos como os trabalhos de Noé apresentam muito a questão do corpo, da violência e do sexo. O cinema do choque, mas que carrega um conceito, é perceptível até mesmo na tipografia de seus filmes, que buscam tirar o espectador de um lugar mais confortável. Como influencia, o próprio cineasta já citou que os filmes de Stanley Kubrick são responsáveis por sua formação como diretor, em especial 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968).

Em Clímax, acompanhamos um grupo de dançarinos, em sua maioria franceses, que se reúnem em uma escola para uma noite de ensaios e celebração. O que começa bem, termina de forma extremamente surreal e violenta, quando a sangria servida no local e consumida pelos dançarinos, está “batizada” com LSD.


A questão do corpo é fundamental no filme, já que envolve a dança. Noé disse que sempre achou muito bonita a arte da dança e que aprecia ver bons dançarinos, o que fez surgir o interesse em fazer um filme sobre isso. No início da história, que se passa em 1996, os personagens são apresentados na TV em um vídeo de teste que estão fazendo e são entrevistados para serem escolhidos e integrarem o grupo de dança.

O detalhe retro de livros e fitas em VHS que quase emolduram o aparelho de TV, dão o tom do filme e representam outras referências do cineasta. Destaque para a imagem do VHS do filme Possessão (1981) de Andrzej Żuławski, cuja uma das cenas mais conhecidas, é homenageada em Clímax. Além de Possessão, é possível identificar os filmes Suspiria (1977) de Dario Argento e Um Cão Andaluz de Luís Buñuel (1929).



Dentro desse único lugar em que acontece todo o filme, impossível não mencionar o uso estético para compor essa montanha russa de sensações que compõe o arco dos personagens, principalmente no segundo e terceiro atos. As fortes cores presentes no filme, por si só sugerem uma atmosfera psicodélica e carregada de energia.

Vale apontar como todas as sensações vividas pelos personagens, que a essa altura já sofrendo com as alucinações, são criadas simplesmente a partir de um ponto de vista objetivo da câmera. Em nenhum momento vemos o que veem os personagens. Tudo é construído a partir da fotografia, direção de arte e das atuações dos dançarinos que em sua maioria não eram atores profissionais.

A dança em si já carrega na movimentação do corpo a leitura de sairmos de si, de nosso estado mais “normalizado”. A dança que inicia o filme depois da apresentação dos personagens no vídeo de seleção, celebra o êxtase da própria arte de dançar. Nessa sequência hipnótica, os personagens fazem os mais diversos movimentos capazes de evocarem euforia e sexualidade em cinco minutos de duração. Os movimentos de câmera contam com ângulos que buscam dominar todo o em volto dos personagens enquanto dançam e assim fazendo parte também da coreografia.



Passado o ensaio o roteiro aprofunda mais nos personagens em cenas em que pequenos grupos ou duplas aparecem conversando separadamente sobre os colegas que estão na academia. O conteúdo de algumas conversas são bem sexuais e até grosseiros, caracterizando assim facetas obscuras de alguns desses personagens. Fica a nosso cargo imaginar se essas conversas têm a ver com os primeiros efeitos do LSD ou se esses personagens estão sendo eles mesmos.

No auge das alucinações, a câmera oscila sua movimentação para criar de vez a sensação de desconexão com a realidade. Coube aos atores interpretarem ao seu modo,  suas próprias alucinações. O que antes era uma dança que unia todos ali, acaba se tornando para boa parte, uma “dança” individual. Esse individualismo marca os atos violentos entre esses personagens enquanto a câmera acompanha os mesmos pelos corredores da academia enquanto a variação das luzes fortalece a ideia de uma atmosfera alucinógena. 



Com Clímax, Gaspar Noé consegue criar um cinema que se por um lado não há uma narrativa ou dramaticidade notória, por outro ele evoca sensações e uma experiência propositalmente incômoda para o espectador.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Crítica - Histórias Assustadoras para Contar no Escuro


E chega aos cinemas Histórias Assustadoras Para Contar no Escuro. O longa é uma adaptação de uma série de livros homônima escrita por Alvin Schwartz. As obras que são divididas em três livros, contam com histórias do folclore americano e também de lendas urbanas voltadas para o público infantil.


Na adaptação para o cinema, o roteiro foi escrito por Dan e Kevin Hageman e dirigido pelo cineasta norueguês André Øvredal, responsável por filmes como O Caçador de Troll (2010) e Autópsia (2016). O que chama atenção e que acabou fazendo toda a diferença no filme, é a produção de Guillermo del Toro (que quase dirigiu o filme em um primeiro momento), que também foi responsável pelo design das criaturas no longa.


A história se passa em 1968 e gira em torno de  três adolescentes, Stella, Auggie e Chuck, que vivem em uma cidade do interior da Pensilvânia. Na noite de Halloween, o grupo está se preparando para se vingar de Tommy, um garoto que sem oportuna o grupo. 

Em meio a uma perseguição, os três amigos conhecem o mexicano Ramon e juntos decidem explorar uma casa mal assombrada que pertenceu à família Bellows, responsável por fundar a cidade. Na casa, eles encontram uma sala secreta e um livro de histórias assustadoras pertencentes a Sarah Bellows, que por conta de sua doença, era renegada e maltratada por toda família. Stella desperta o espírito de Sarah e histórias perturbadoras envolvendo um a um de seus amigos e pessoas próximas, passam a serem escritas sozinhas no livro encontrado.


Antes de mais nada é preciso levar em conta que o filme tem a classificação de 14 anos e que o espectador precisa estar ciente de que não estamos diante de um Invocação do Mal. Sabemos que quando se fala em terror, um filme voltado para um público mais novo, tende a fazer com que fãs adultos do gênero do horror, torçam o nariz. Mesmo assim para um filme com essa classificação, ele é bem feito e perturbador o bastante para atingir seu público alvo e porque não também os adultos.

Fica claro como o tom do filme tem um Q de Guillermo del Toro, principalmente como ele cria a atmosfera de fábula e de um horror que perturba, ainda que seja inevitável os famosos jump scares. As criaturas são um dos pontos altos no filme e cada uma perturba a sua maneira. Há desde espantalhos, até as famosas almas e uma criatura sinistra e assustadora.




O roteiro também tem seus méritos. Cada história que corresponde a um personagem do filme que será a vítima, acaba tendo relação com o que Sarah no passado passou e com o que a própria vítima está passando na vida pessoal. Algumas alegorias são mais explícitas e outras são mais vagas, exigindo um pouco mais do espectador para associar o conto de terror com o terror da vida real dos personagens. Alguns temas como empatia, medo, ser mal compreendido e até as típicas espinhas na adolescência, se transformam em horripilantes alegorias graças aos monstros dos livros de Schwartz.

O filme também contextualiza a história, mas sem também se aprofundar muito, com a  Guerra do Vietnã e as eleições que elegeram o presidente Richard Nixon. O racismo também aparece no filme, assim como a xenofobia, por conta do personagem de Ramon. Toda essa tensão e conflito, mesmo que aparecendo no roteiro de forma mais vaga, serve para contextualizar o terror na história com o terror do mundo real, mesmo que esses dois mundos apareçam no filme um pouco distantes uns dos outros. Mesmo assim, fica clara a ideia de um espelhamento.  

Com um filme voltado para um público mais jovem, Histórias Assustadoras Para Contar no Escuro, consegue se destacar e atrair os verdadeiros fãs de terror. Pode-se até dizer que ele consegue se sobressair a muitos filmes por aí (A Maldição da Chorona...Cof, cof!) que apresentam uma classificação maior que a sua.

domingo, 28 de julho de 2019

Na Netflix: Temporada - as mudanças vistas onde "nada acontece"




André Novais de Oliveira é diretor, produtor executivo, roteirista e sócio fundador da Filmes de Plástico, produtora audiovisual que fica em Contagem, Minas Gerais. A criação da produtora acontece em 2009 em uma parceria com Gabriel e Maurílio Martins, e Thiago Macedo Correia. André é formado em cinema pela Escola Livre de Cinema e graduado em história pela PUC-Minas. Além de realizar pesquisas sobre história do cinema desde 2006, o cineasta dirigiu os filmes Fantasmas (2011), Ela Volta na Quinta (2014) e Quintal (2015).

Temporada (2018), seu mais novo trabalho, foi vencedor do prêmio de melhor filme no último Festival de Brasília. A história gira em torno de Juliana (Grace Passô), que acaba de se mudar de Itaúna para a periferia de Contagem, para trabalhar no combate a endemias na região. No novo emprego, ela conhece novas pessoas e vive situações enquanto espera o marido sair do trabalho para também se mudar para a nova cidade.

Temporada é um filme que impressiona por sua naturalidade, fazendo com que nós também estejamos lá com os personagens e não apenas assistindo a um filme. O Longa não precisa ser só assistido, mas também contemplado. O ritmo é lento, assim como costumam ser algumas mudanças em nossas vidas. A evolução da personagem principal se dá por pequenos grandes momentos que até mesmo os personagens secundários não estão cientes do que está acontecendo com Juliana.


Nossa protagonista é uma mulher que não gosta muito de falar sobre sua vida, mesmo que ao mesmo tempo ela esteja aberta para conhecer novas pessoas no trabalho e interagir com elas. O espectador é a única testemunha dos problemas e aborrecimentos presentes na vida da personagem. As cenas expositivas que Juliana tem com a prima, são pontuais e suficientes para sabermos mais sobe essa mulher. Depois disso, cenas que dispensam diálogos são mais que suficientes para entendermos o que está acontecendo.

Em uma outra cena importante, Juliana apenas diz: “Sei como é”, quando outra personagem (também negra) conta sobre um dia em que se sentiu discriminada na frente dos amigos do ex-marido. São em momentos como esse, que o filme também aborda questões como machismo e racismo, sempre mantendo a simplicidade dentro de um cotidiano em que “nada parece acontecer”, mas que é perceptível o impacto que isso traz em Juliana.

Tudo isso se desenvolve na rotina dos personagens indo de casa em casa para averiguar possíveis focos de dengue nos bairros e comunidades de Contagem. A relação dos agentes com os moradores também é retratada no longa, que consegue um fiel retrato da periferia de Contagem, seus problemas, mas também a forma acolhedora com que recebe os agentes de saúde.



Se você gosta de filmes mais contemplativos e que buscam explorar seus personagens de uma forma lenta, mas ao mesmo tempo evolutiva através de sutilezas que fazem a diferença, vá correndo ver Temporada na Netflix.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

As mãos do povo operando uma câmera: História do Brasil e cinema brasileiro




Como estudante do cinema brasileiro não tem como as últimas declarações do atual presidente não afetarem-me de alguma forma. O cheiro da censura insinua-se mas não surpreende essa pessoa que vos escreve, que além de acreditar num pessimismo cósmico, também tem tentado saber mais sobre a história do Brasil. História do Brasil e cinema brasileiro inclusive tem uma íntima e difícil relação sendo que este último, por muitas vezes, tentou ser o espelho fiel das tensões e tendências do primeiro.

O nascimento do cinema brasileiro é emblema de nosso subdesenvolvimento e vocação para colônia. A primeira filmagem da baia de Guanabara feita por mãos de imigrantes italianos mostra que foram sempre as mãos estrangeiras que operaram e dominaram o que é de mais novo e desenvolvido nesse país. Não que a mais alta cultura não tenha sido criada pelo povo, vide o samba de Cartola e tudo o mais. Porém o cinema como arte da técnica tem o seu desenvolvimento sabotado em nosso país, justamente porque as mãos do povo dificilmente operaram uma câmera. Essa triste imagem nos ajuda a entender o papel marginal do cinema que volta a aparecer em nosso horizonte. A marginalidade do cinema brasileiro e de quem faz cinema no Brasil tem tudo a ver com essa imagem evocada, porque a câmera sempre esteve nas mãos do estrangeiro.
É claro que falo desse modo do ponto de vista estrutural. Novamente, afirmo, o mais alto cinema foi feito nessas terras com Glauber, Sganzerla, Nelson Pereira dos Santos e afins, mas estruturalmente, a dependência econômica geral do país refletiu no cinema, como não poderia ser diferente. Então, o cineasta brasileiro vive um drama, vive em crise constante. Nos anos 60, o debate do cinema nacional voltava-se para a relação entre a construção de uma indústria cinematográfica nacional, incentivada pelo estado que ao mesmo tempo respeitasse a liberdade do cinema autoral. Com o advento da ditadura militar, os cineastas brasileiros viram todas as suas esperanças ruírem para depois verem o seu maior sonho tomar forma de uma maneira degradada.
O nascimento da Embrafilme sedimenta esse momento no qual o estado toma para si a responsabilidade de financiar o cinema brasileiro, mas esse estado era o autoritário governo militar. No início, alguns cineastas argumentavam que não se poderia confundir o estado com o governo, ou seja, mesmo que o governo na época fosse autoritário, não significava que as políticas estatais eram totalmente ruins. No entanto, contradições começaram a surgir e a vida dos cineastas brasileiros ficou em crise novamente. O regime financiava o setor cinematográfico a partir de suas diretrizes ideológicas, vendo no cinema o meio ideal para a propagação do novo Brasil da “revolução de 64”. Esse financiamento inviabilizava a criação de obras críticas ao regime, então cineastas, principalmente aqueles que advinham do Cinema Novo, tiveram que escolher entre continuar produzindo, debaixo das restrições conjunturais ou romper totalmente com qualquer estrutura industrial cinematográfica, como fizeram os cineastas do Cinema Marginal. Como a questão da exibição era muito importante para os cinemanovistas, que viam nela a chance de chegar as massas, cineastas como o próprio Nelson e Leon Hirszman começam a produzir filmes que teciam críticas ao regime, mas de maneira muito sutil. Lendo as entrevistas daquela época hoje, noto um certo acuamento desses artistas frente a estrutura. É claro que eles não tinham muita escolha, mas não deixa de ser triste ler sobre artistas obrigados ao silêncio.


Os Inconfidentes (1972) de Joaquim Pedro de Andrade, crítica sutil ao regime autoritário 

Trago esse exemplo histórico para remeter ao presente e ao futuro próximo do cinema brasileiro. A declaração do atual presidente lembra as políticas da Embrafilme e como o cinema brasileiro sempre fora frágil economicamente, é muito difícil que obras realmente críticas passem a ter grande circulação no mercado nacional. Até porque, se um filme global, de apelo comercial como “De pernas pro ar 3” não consegue salas de exibição frente os filmes da Disney, porque filmes críticos e nacionais teriam? O futuro próximo do cinema brasileiro parece ser parecido com os do filmes do Cinema marginal. Quem quiser fazer filmes, mais do nunca, berrará no silêncio, na esperança que a história, um dia os redima, como o fez com Sganzerla, Bressane e os marginais.


Referências:

Cinema: Trajetória no subdesenvolvimento: Paulo Emilio Salles Gomes


Cinema, estado e lutas culturais: José Mário Ortiz Ramos.






Erotismo e a cidade: Vidas nuas (1967) de Ody Fraga

  O aspecto mais interessante em Vidas nuas é a fluidez como a cidade de São Paulo é filmada, desde seu primeiro plano quando temos acesso ...