O cinema abarca um número grande de cenas icônicas. Responsáveis por marcarem a história da sétima arte, algumas dessas cenas conseguem ir além ao acrescentarem algo novo na própria gramática de se contar uma história. Dentre tantas cenas e imagens que ficaram gravadas na memória de tantas pessoas, mesmo para aqueles que não são tão ligados em cinema, a cena do chuveiro do filme Psicose (Psycho,1960) de Alfred Hitchcock é sem dúvida alguma, uma das imagens mais presentes em nossa memória. E porque não em nossos ouvidos? Afinal, a música usada na cena já foi ouvida até como toque de celular e seu som estridente não poderia ter sido usado em outra cena, que não a do chuveiro, quando Marion Crane (Janet Leigh) é brutalmente assassinada enquanto toma banho.
Não é qualquer cena de filme que ao fazer história, ganha diversas análises feitas por críticos, historiadores, professores e estudantes do audiovisual/cinema. Imagina quando essa cena em particular ganha um filme só sobre ela? Assim é o documentário 78/52: Hitchcock’s Shower Scene (2017), dirigido por Alexandre O. Philippe.
Mas você pode estar pensando: “O que podemos esperar de um filme com pouco mais de uma hora e meia que fala apenas de uma cena?” A resposta é: “Muito!” Cheio de informação, o longa conta com entrevistas e análises de diversos nomes importantes dentro do cinema, como Guillermo del Toro, Danny Elfman, Karyn Kusama, Eli Roth, Martin Scorsese, Bob Murawski, Jamie Lee Curtis, que para quem não sabe, é filha da atriz Janet Leigh, entre outros. Ou seja, nomes de peso e de diversas áreas do cinema, além de historiadores e críticos.
Cada fragmento da cena em que Norman Bates retalha a pele de Marion Crane, pode ser comparado a cada depoimento no documentário, que parece funcionar como uma peça essencial, que quando reunida, nos faz entender como uma simples cena foi brilhantemente dirigida a ponto de nos impactar até hoje, tanto por seu apuro técnico e pela gramática de se fazer cinema, quanto pela violência em si. Tudo sem mostrar um corte sequer na pele da personagem.
Não faltam interpretações e análises muito detalhadas durante o filme, cujo título, já aborda uma curiosidade técnica. O número 78 representa a quantidade de posições de câmeras usadas na filmagem da cena do chuveiro, enquanto o número 52, a quantidade de cortes. Aliás, o longa é inteiro em preto e branco, deixando clara a homenagem ao filme de Hitchcock.
O documentário abrange muito bem, desde curiosidades de bastidores, até abordagens mais aprofundadas, como o contexto histórico dos EUA durante o lançamento do filme e análises detalhadas que passam por etapas fundamentais dentro de uma produção, como trilha sonora, edição, direção e direção de fotografia. Tudo isso através de depoimentos preciosos não só dos profissionais citados acima, mas também de imagens de arquivo do próprio mestre do suspense, Alfred Hitchcock, como também de Marli Renfro (dublê de corpo de Leigh) e claro, da própria Janet Leigh.
Se você gosta de cinema, de Alfred Hitchcock e do filme Psicose, vá correndo para a Netflix e confira 78/52: Hitchcock’s Shower Scene.
O Novo Cinema Alemão teve sua influencia nas famosas Nouvelle Vagues europeias, como aponta Mark Cousins no livro História do Cinema. Em 1962, um grupo de cineastas lançou um manifesto que rejeitava “o cinema alemão convencional”, que sob a ameaça da TV, se encontrava em queda livre. Segundo esses cineastas, esse cinema precisava de novas liberdades.
Com o forte crescimento da Alemanha Ocidental, aponta Cousins, a culpa sentida pelo país por conta das atrocidades do holocausto, passou a ser aos poucos anestesiada. Tabloides de direita passaram a cobrir esse lado sombrio da história alemã, e buscaram exaltar um nacionalismo em prol de um bem-estar. Com isso, os jovens criativos politicamente mais à esquerda, começaram a se incomodar com essa ideia de que tudo ia bem e que nada precisava ser questionado ou exposto. A produção alemã nessa época renascia artisticamente enquanto subsídios públicos desempenhavam um papel chave nesse renascimento. Por doze anos, o Novo Cinema Alemão contou com nomes como Alexander Kluge, Jean-Marie Straub, Margarethe von Trotta e Rainer Werner Fassbinder. Esse cinema buscava revelar o falso otimismo da época e causar propositalmente uma inquietude no espectador.
Dirigido por Rainer Werner Fassbinder, O Medo do Medo (Angst vor der Angst, 1975), foi lançado para a TV. O cineasta foi influenciado pelo cinema do também alemão, Douglas Sirk, conhecido pelos seu trabalho com o melodrama durante a década de 50 em Hollywood. É possível notarmos o melodrama no cinema de Fassbinder, porém não podemos confundir com melodramas caricatos e rasos como os das famosas novelas mexicanas. Esse melodrama menos escancarado no cinema de Sirk e Fassbinder, traz críticas sociais e personagens mais complexos.
Em O Medo do Medo, Margot (Margit Carstensen) é uma mulher de classe-média, casada com Kurt (Ulrich Faulhaber) e mãe de uma menina. Prestes a dar à luz a um menino, Margot sente que algo está errado com sua vida aparentemente perfeita. Sua sogra, interpretada por Brigtte Mira, e sua cunhada, Lore (Irm Hermann) são hostis com ela e frequentemente reprovam tudo o que ela faz. Já Kurt, prefere dedicar todo o seu tempo estudando para um exame importante, ignorando Margot quase que por completo.
Em um primeiro momento estamos diante de uma história sobre uma dona de casa que descobre sofrer de esquizofrenia. Fassbinder faz ao longo do filme, o uso de um efeito que dá à imagem vista através do ponto de vista da protagonista, um efeito de ondulação, que distorce a imagem. Isso claramente apresenta a forma com que Margot passa a enxergar sua realidade.
Como dito acima, em um primeiro momento, esse drama pessoal parece ser unicamente o ponto principal da história. No entanto, estamos diante de um filme que busca ir mais além ao retratar a esquizofrenia de Margot. A doença aqui parece nada mais que uma metáfora para apontar a vida de uma mulher que se vê sem rumo, ou até pior, que descobriu que está vivendo uma vida que talvez nunca quis ou simplesmente um despertar para a realidade.
Motivos para essa interpretação, vão ficando cada vez mais óbvios no decorrer do filme. Primeiro somos apresentados a uma imagem de família comum. A casa é bem arrumada, colorida, o marido chega em casa e vai ler o jornal enquanto Margot prepara um bolo. Por vezes a imagem da sala com todos presentes e reunidos é emoldurada por uma porta que ao mesmo tempo em que coloca essa família próxima e enquadrada como em um porta retrato, também espreme e dá uma sensação claustrofóbica para Margot.
Isso sem contar nos enquadramentos em que a protagonista tem seu rosto mostrado pela metade, simbolizando uma mulher incompleta. O espelho, símbolo forte no cinema expressionista alemão, também surge aqui de forma nada sutil, mas nem por isso busca insultar nossa inteligência. Margot claramente é vista através de espelhos que parecem nos mostrar explicitamente o questionamento de sua imagem dentro de uma sociedade (que se dá através de sua família e de seu médico e do farmacêutico do bairro) conservadora e retrógada que a vê como mãe, esposa e objeto sexual. O que começa como algo visual, fica claro para nós quando ela se encara no espelho e diz: “Essa sou eu?”.
Os sintomas da “loucura” de Margot são os de questionar a escola da filha, onde as crianças mal podem falar e são enfileiradas como uma linha de montagem de uma fábrica. Sair para comprar um vestido também é algo que já não traz mais alegria para a personagem, que encontra no médico que a examina, o vício em Valium. Ele nem mesmo parece se importar com a mulher, que quando fica em um estado catatônico, ouve do médico que está tudo bem. Seu marido pouco tem interesse em conversar com ela, dedicando seu tempo unicamente aos estudos e a assistir televisão, que ironicamente, ao mesmo tempo em que o objeto aliena Kurt, foi justamente na TV em que foi exibido o filme que está sendo discutido aqui.
Mesmo dentro do que podemos chamar de uma “loucura sã”, Margot toma a iniciativa de chamar o médico quando sua bolsa estoura e seu marido pensa em chamar sua mãe e sua cunhada para ajudar. Ela nega a ajuda e faz tudo praticamente só. Fassbinder coloca duas mulheres (sogra e cunhada de Margot) como personagens machistas e conservadores, que pensam que a mulher deve se dedicar unicamente a cuidar da casa e dos filhos.
Já o misterioso Sr. Bauer, parece o único que entende Margot, uma vez que também compartilha da mesma insanidade que a personagem. A própria mulher se esquiva dele sempre que o vê na rua, enquanto nunca sabemos de fato sua participação na vida de Margot. Talvez um amante? Um amor do passado? Não importa. O Sr. Bauer entende a protagonista e aparentemente quer ajudá-la, mas a personagem não entende sua insanidade como uma fuga sadia de uma vida monótona que não faz mais sentido para ela, optando assim ouvir por ouvir os outros e se internar em uma clínica.
Lá ela consegue finalmente a cura de sua doença e está pronta para voltar a ter uma vida normal dentro dessa status quo que já define seu papel para o resto da vida. Mesmo assim, ainda enxergamos a imagem distorcida ao vermos o Sr. Bauer sendo buscado pelo IML depois de ter se suicidado. Será o suicídio a resposta do personagem ao perceber que não pôde buscar sozinho uma mudança significativa? Será a imagem distorcida a visão de Margot de que ela ainda não se curou de sua capacidade de questionar? Ou somos nós, espectadores que no dia a dia parecemos insanos quando somos contrários a pensamentos retrógrados que nunca visam uma evolução do pensamento?
Com um trabalho concentrado mais na edição de filmes, como Vermelho Russo (2016), dirigido por Charly Braun, Caroline Leone já havia dirigido dois curtas-metragens: Dalva (2004) e Joyce (2006). Leone agora roteirizou e dirigiu seu primeiro longa-metragem, Pela Janela (2017), numa coprodução Brasil e Argentina, cuja ideia para o roteiro surgiu depois de uma viagem para Buenos Aires e uma longa conversa, já de volta ao Brasil, com uma senhora que havia ido pela primeira vez ao país.
Exibido em diversos festivais nacionais (como o de Gramado) e internacionais, o longa foi bem elogiado pela crítica. Introvertido, mas sem deixar de conseguir nossa empatia, a história gira em torno de Rosália (Magali Biff), uma senhora de 65 anos que trabalha em uma fábrica de reatores em São Paulo há 30 anos, mas que de repente é despedida e substituída por um homem mais jovem. José (Cacá Amaral), irmão de Rosália, precisa levar o carro de seu patrão de volta para a Argentina e resolve levar junto sua irmã para que ela se distraia com o passeio.
O primeiro ato é dedicado a uma boa apresentação da rotina da protagonista. A vemos logo de cara em seu trabalho, almoçando, chegando em casa e realizando tarefas domésticas, como lavar roupa e preparar o jantar. A câmera alterna entre a aproximação da personagem e um afastamento da mesma, como se já marcasse o fato de estarmos acompanhando a história pessoal dessa mulher, porém através de um viés mais introspectivo.
Pela Janela não promete ser um filme cheio de acontecimentos e com diversos personagens que irão interagir com a protagonista de forma direta, a fim de provocar grandes transformações. E ainda bem, já que no filme acompanhamos Rosália durante sua viagem para a Argentina, através de uma ótica que por mais que pareça não haver um compartilhamento de seus sentimentos com o público, alegorias visuais e atos sutis são o bastante para compreendermos que a personagem não sairá do país da mesma forma como entrou.
A estrada e a água são dois desses principais elementos que estão presentes no filme e que são responsáveis por essas alegorias. Diversas vezes uma câmera subjetiva percorre a estrada durante a viagem. Se no início a estrada fica para trás, depois passamos a vê-la adiante, conforme um carro que segue seu percurso sempre adiante. Com poucas palavras, a protagonista apenas contempla a vista junto conosco, em uma sequência que de fato não precisaria de diálogos.
Já a água é a responsável por “lavar” Rosália. Seja na imagem dela caindo no para-brisas do carro que está sendo lavado, ou quando de fato ela toca o rosto da mulher. Isso ocorre quando José leva a personagem para conhecer as Cataratas do Iguaçu, numa cena que não tem pressa ao explorar o contato da protagonista com a água que molha seu rosto. Uma resistência inicial de Rosália de se aproximar das quedas de água, é facilmente entendida como mais uma metáfora sobre o medo do “depois”, como por exemplo o medo de voltar para o Brasil e consequentemente sua vida agora sem emprego. Porém o medo é deixado de lado e a mulher se permite deixar que a água toque seu rosto, num momento singelo, mas ao mesmo tempo cheio de significado.
Quando chega finalmente na cidade, começa de fato o momento de se comunicar. Ou de pelo menos tentar. Sem dominar espanhol, Rosália conversa com as pessoas que cruzam seu caminho, falando seu próprio idioma enquanto as pessoas falam em espanhol. O que pode parecer algo desconfortável, ganha aqui um significado completamente diferente. A troca de olhares, os sorrisos e a abertura para viver essa experiência e conhecer outras pessoas e outra cultura, mesmo que possivelmente sem uma consciência da protagonista, imprimem uma naturalidade tão absurda, que dispensam uma compreensão plena do que está sendo dito. A personagem apenas vive essa experiência nova, mesmo que mantendo sua introversão e sem muito menos dar detalhes sobre seus problemas para as pessoas.
Sem nos prometer nada relacionado ao que acontecerá com a personagem na volta para o Brasil, Pela Janela deixa sua mensagem através da sutileza com que retrata a vida dessa mulher que precisará se acostumar a essa nova fase de sua vida. Como Rosário irá enfrentar tudo isso, não sabemos, mas estamos certos de que sua viagem não foi em vão.
Você pode não conhecer a A24, mas com certeza já ouviu falar e/ou assistiu a algum filme produzido ou distribuído por esse estúdio norte-americano. Fundado em 2012 por Daniel Katz, David Fenkel e John Dodges (que saiu nesse ano), sua sede fica em Nova Iorque. O caso é que a A24 tem se tornado de dois ou três anos pra cá, sinônimo de filmes de qualidade. A empresa está em envolvida em filmes como O Quarto de Jack (Room, 2016), Ex_Machina: Instinto Artificial (Ex Machina, 2014), Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird, 2017) e Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight, 2016), primeiro filme produzido pelo estúdio.
Talvez o que mais tenha chamado a atenção são as produções do gênero do terror, tendo A Bruxa (The Witch, 2015) com o mais falado e conhecido do grande público. A bola da vez é o longa Hereditário (Hereditary, 2018), primeiro longa metragem escrito e dirigido por Ari Aster, que já realizou alguns curtas-metragens de comédia e até com temas polêmicos, como The Strange Thing About the Johnsons (2011), que fala sobre abuso sexual praticado pelo filho contra o pai. Sim, isso mesmo.
Fica claro como Aster gosta de falar sobre relacionamentos, especialmente os familiares, em seus trabalhos, e com Hereditário não é diferente. Seja fazendo uma comédia ou um filme de terror, o melodrama parece ser uma característica do cineasta, que consegue construir personagens densos e interessantes.
No filme, acompanhamos a história da família Graham, que após a morte de Ellen, mãe de Annie (Toni Collette), começa aos poucos a vivenciar situações incômodas, em especial Charlie (Milly Shapiro) que sempre foi muito apegada a matriarca da família. Depois de um acontecimento que assola ainda mais os Graham, tudo começa a desmoronar e coisas perturbadoras e segredos sinistros são revelados.
O longa se esforça para agradar a todos os tipos de espectador que gosta do gênero de terror. Temos elementos perturbadores, alguns sustos e uma boa história. Infelizmente houve quem reclamasse do ritmo arrastado do filme, além da nota D+ no site CinemaScore, que busca justamente fazer uma pesquisa com o público com relação a filmes lançados. Mesmo tentando agradar a todos, é impossível negar a maior característica de Hereditário que acaba sendo justamente a de um “filme de arte”. Sendo assim, infelizmente isso acaba sendo uma frustração para alguns espectadores que estão (mal) acostumados com obras que apresentam fórmulas mais desgastadas e que de certa forma, caem facilmente no gosto de um público menos exigente. Ainda acho que as pessoas poderiam dar mais chances a filmes assim, que se mostram capazes e conseguem se destacar em meio a tantas produções genéricas.
Dificilmente um filme de terror consegue explorar bem seus personagens, já que uma grande maioria dos filmes desse gênero, acaba usando as pessoas como peças para os acontecimentos horríficos que irão se desenvolver na tela. Ari Aster chegou a dizer em entrevista que o corte original do longa era de três horas, mas que reduziu tudo para duas horas e sete minutos, que é o corte final que está nos cinemas.
Desenvolver personagens leva tempo e não estamos diante de um filme de terror comum que aprofunda um pouco mais o psicológico do protagonista, deixando os outros personagens apenas como iscas para os antagonistas. Estamos diante (também) de um drama familiar, com assuntos não ditos entre seus integrantes, traumas, medos e toda uma estrutura complexa que compõe a psicologia desses personagens, coisa que é bem difícil de se ver em um filme de terror, e que aqui é feito com maestria por Aster. Mesmo com o uso de cenas expositivas, que servem para os personagens dizerem coisas que o espectador não está ciente, tudo é feito dentro de um contexto que não faz com que esses diálogos fiquem gratuitos.
Mesmo com o elemento sobrenatural fortemente presente no filme, essa alegoria como apontada por muitas pessoas, parece representar as doenças psíquicas que podem ser de fato hereditárias. Mas talvez, mais do que isso, estamos diante de uma família condenada ao trágico, sendo esse elemento presente nas raízes da árvore genealógica dos Graham. É como se o filme mostrasse que nem sempre podemos dominar uma situação e ela simplesmente pode sair dos trilhos sem que possamos fazer absolutamente nada para evitar que isso aconteça. Assustador? Sim. E por isso esse filme também seja classificado como um filme de terror.
Se Annie com suas miniaturas (a personagem trabalha fazendo miniaturas por encomenda) às vezes parece estar no controle da situação ao recriar até os acontecimentos em sua família nas maquetes, a fotografia de Hereditário faz uso de planos bem abertos que mostram os tetos dos cômodos da casa, como se aquela família fosse na verdade os reais bonecos presos ali, sem chance alguma de escapar de seus destinos. Não é atoa que a primeira cena em que mostra o marido de Annie acordando seu filho, Peter (Alex Wolff), ocorre justamente dentro de uma das casas em miniatura feita pela mulher.
Destaque para Toni Collette e Alex Wolff que são grandes responsáveis por cenas perturbadoras no ponto certo. Eles ainda conseguem dosar de forma magistral o drama e a histeria que consomem e desgastam seus personagens, sem nunca cair em um comportamento caricato.
Hereditário é um filme de terror visceral, mas que ao mesmo tempo conquista o espectador com um bom drama, personagens fortes e bem construídos, fazendo dessa obra uma das melhores do ano. Terror inteligente e que fica com o espectador durante dias após ser visto, tanto por seu lado perturbador, quanto pela reflexão que ele causa. Isso só aumenta as chances do longa ser um futuro clássico do cinema de terror com o passar dos anos.
Com
boa premissa, filme promete um show de suspense e tensão
Texto de: Tarcísio Paulo Dos Santos Araújo
Muito elogiado pela
crítica, que já o considera um dos melhores filmes de terror do ano até o
momento, Um Lugar
Silencioso (A Quiet Place,
2018) chamou a atenção de ninguém menos que Stephen King. O escritor elogiou a
atuação e a fotografia do longa, acrescentando ao dizer que o filme “é um
trabalho extraordinário”. Algo também apontado por King foi o silêncio. Sim,
boa parte desse sucesso se deve a premissa curiosa e desafiadora envolvendo o
som como algo ameaçador.
Em um universo
pós-apocalíptico, o casal Lee Abbott (John Krasinski, que também dirige o filme)
e Evelyn Abbott (Emily Blunt) vivem numa
fazenda do interior dos EUA com os filhos Marcus (Noah Jupe), Beau (Cade Woodward) e a filha Regan (Millicent
Simmonds), que é deficiente auditiva. O ano é 2020 e elementos vão aos poucos
revelando que possivelmente alguma invasão alienígena dizimou uma grande parte
da humanidade, restando poucos sobreviventes. As criaturas que agora vivem na
Terra, são cegas, mas apresentam uma audição extremamente apurada, fazendo com que
qualquer som emitido por algo ou por alguém, chame a atenção delas e inicie uma
caçada fatal até a pessoa ou coisa que tenha gerado o ruído.
O grande trunfo de Um Lugar
Silencioso está na sua capacidade de exercitar o gênero do suspense de
forma muito eficaz ao manter o espectador sempre alerta. Não o bastante, ainda
tem o terror que está bem equilibrado junto com esse suspense e a tensão.
Lembrando que falamos do real suspense, aquele que nos fornece informações
importantes na história e que mais para frente trarão conflitos para os
personagens, porém os mesmos não estão cientes disso. Cito isso porque é comum
uma confusão com a surpresa, que é quando o espectador é pego de surpresa junto
com o personagem. Isso também está presente no
filme, principalmente com alguns jump
scares, mas que são facilmente perdoados quando fazemos um balanço do longa
como um todo.
Algo que seria impossível
não comentar, é o poder do som (e de sua falta) no filme. Com a sinopse citada
acima, o roteiro coloca o espectador em alerta constante. Um som diegético
(aquele que faz parte da cena) como uma música romântica ouvida por Evelyn
enquanto usa fone de ouvido, passa a ser ouvidos por nós no momento em que ela
coloca os fones em Lee. A cena marca a sintonia e o amor entre o casal (e
consequentemente nossa empatia), que dança enquanto ouve a canção. Já a música
extra-diegética (que é aquela que apenas nós ouvimos) aparece pontuando os
momentos certos, principalmente os de perigo eminente, como se nesse instante a
música que ao mesmo tempo em que cria a tensão para cena, reforça a presença
das criaturas.
Ficamos
em uma zona mais ou menos confortável quando tudo está em silêncio e nos
assustamos com um barulho que potencializa nosso temor e consequentemente nossa
preocupação com os personagens quando sabemos que o ruído irá implicar na
aparição dos monstros.
Falando em personagens, a
química entre os atores é muito boa e facilmente abraçamos essa família e
torcemos por cada um deles. Com tanto foco nas ações e na sobrevivência, ainda
há espaço para um bom desenvolvimento desses personagens. Depois de um
incidente que ocorre logo no início do filme, mas que não será revelado aqui,
cria-se uma culpa em Regan e consequentemente faz com que seu pai, Lee, evite
que a menina saia de casa para evitar que algo ocorra até com ela mesma. Mesmo
se mostrando bem madura e disposta a enfrentar qualquer coisa, Lee não escuta a
menina. Cabe então a Marcus acompanhar o pai pela mata até o rio para pegar
peixe e ao mesmo tempo ficar exposto a qualquer deslize que possa pôr em risco
sua vida. Claro que essas questões, logo serão resolvidas ao longo do filme,
com direito a cenas bem emocionantes e que também falam de questões como a
proteção dos filhos e como os pais se esforçam para garanti-la.
É mesmo muito louvável o
trabalho de Krasinski no filme, que além de atuar e dirigir, foi um dos
roteiristas e o produtor executivo. O domínio tanto do roteiro quanto da
direção, tem tudo para prometer outros trabalhos também significativos. O
cineasta que curiosamente não cresceu vendo filmes de terror, disse que longas
recentes como Corra (2017) e O Homem nas Trevas (2016), estavam
inclusos em suas pesquisas enquanto se preparava para o seu filme. Kransinski
citou Um Lugar Silencioso como
metáfora para a paternidade e até mesmo a atual situação política dos EUA,
dizendo que “podemos enfiar a cabeça em um buraco ou tentar se envolver no que
está acontecendo”. Seguindo essa linha de pensamento, o longa serviria até para
nosso atual momento na política, não é mesmo? Mas também pode-se refletir, pensando
agora na paternidade, o preparo que os pai dão aos filhos para que eles
enfrentem a vida. Será que ficar no silêncio e evitar constantemente o som (que
pode ser visto como os conflitos da vida), é algo que fortalece as pessoas e as
prepara para enfrentar o mundo?
Um
Lugar Silencioso tem tudo para entrar na lista dos filmes
de terror que nos últimos anos têm se destacado, seja pela crítica social mais
latente ou simplesmente pelo domínio de direção e de roteiro, que consegue dar
novas e boas possibilidades de se fazer algo que ofereça um frescor para o
público, principalmente depois de praticamente tudo já ter sido feito.
Uma
experiência visual envolta em um filme de aventura
Texto de : Tarcísio Paulo Dos Santos
Aniquilação
(Annihilation, 2018) é o segundo longa do diretor Alex
Garland, responsável por Ex Machina:
Instinto Artificial (Ex Machina, 2014). O diretor que parece ter uma
predileção pela ficção científica, consegue sempre trazer questionamentos
interessantes referente a humanidade e como ela se comporta. O diretor está de
volta agora com um filme que oferece uma satisfatória experiência visual e
narrativa.
Adaptação
do livro homônimo de Jeff Vander Meer, a história gira em torno de um meteorito que
cai sobre um farol no sul da Flórida. Forma-se então uma espécie de “bolha” (chamada
durante o filme de shimmer, brilho em inglês) que vai aos poucos se expandindo
e tomando conta de todo o seu redor. Uma vez que alguém atravessa a bolha, seu
retorno não é mais garantido. No entanto, o casal formado pela bióloga Lena (Natalie
Portman) e pelo soldado Kane (Oscar Isaac), parecem ser os únicos sobreviventes
de uma expedição para o lugar que aconteceu em épocas diferentes. Kane foi
primeiro sem que Lena soubesse e retornou depois de um ano sem se lembrar o que
houve. Após passar mal e ser socorrido pela esposa, ambos são parados (no caminho
para o hospital) por uma força de segurança do governo e levados para uma
instalação.
Agora é Lena que embarca
na expedição, numa tentativa de procurar respostas e quem sabe uma possível
cura para Kane, que corre risco de morte depois de sua experiência na tal
bolha. O grupo conta com a psicóloga Dra. Ventress (Jennifer Jason Leigh), a
paramédica Anya Thorensen (Gina Rodriguez), a física Josie Radek (Tessa Thompson)
e a geóloga Cass Sheppard (Tuva Novotny).
É muito comum filmes que
envolvam uma expedição para um lugar desconhecido e ameaçador, acabarem direcionando
muito da narrativa para sequências de ação em que a sobrevivência é a principal
motivação de seus personagens. Aniquilação
não deixa de ter esses elementos, claro, mas o filme tem diferenciais muito
interessantes comparados a outros filmes do gênero.
Como já citado em alguns
textos sobre o filme, o longa também pode ser compreendido como uma alegoria
para falar sobre a capacidade e até facilidade de auto destruição dos seres
humanos. O espectador percebe como cada personagem que faz parte da expedição
que vai em direção ao shimmer, vive
uma grande dor por conta de um problema pessoal. Inconscientemente talvez, as
personagens se lançam para essa experiência, como forma talvez de buscar alguma
resposta para que o que estão vivenciado, uma possível luz no fim do túnel.
Muitos de nós já devem ter passado por isso, em menor ou menor grau. Já no
filme, fica claro que para o bem ou para o mal, essas mulheres nunca mais serão
as mesmas.
As mudanças sentidas por
grande parte dessas mulheres e pelas outras pessoas que se aventuraram por esse
lugar onde as leis da natureza não e aplicam, parecem também servir como
alegoria para nossos questionamentos sobre a vida. Kane por exemplo, em uma
cena muito interessante, questiona sua própria identidade, por conta dos
efeitos causados pela bolha.
Experiência
aliás, é algo que o espectador poderá esperar de Aniquilação. Com um design de produção impecável, o lugar explorado
pelas personagens, se mostra além de uma grande floresta com lugares
abandonados. O visual cria uma atmosfera que às vezes beira ao onírico,
reforçando mais a ideia de que estamos diante de um lugar que não faz parte do
nosso mundo. Tudo porém, de forma bem sutil, com exceção do terceiro ato do
filme.
E é justamente nesse
terceiro ato que Aniquilação surpreende.
A narrativa começa de fato a ganhar seus contornos místicos e o visual passa a
nos atrair cada vez mais. Elementos abstratos vão nos fazendo cada vez mais
perguntas sobre o que de fato está acontecendo enquanto somos facilmente
atraídos pelas imagens. Mesmo quando atinge esse momento com um visual mais
atraente e que marca um momento muito importante da história, o design de
produção não cai em algo exagerado e gratuito.
Explicações e
interpretações do filme, podem ser diversas e ficam a cargo do espectador, que
mesmos com respostas mais esclarecedoras no final, pode até mesmo questionar a
veracidade do que é dito por Lena. Vale lembrar e apontar, que a personagem,
juntamente com Kane, são os únicos a saírem vivos do local, e que a expedição é
contada por uma Lena já de volta, que relata sua experiência para um dos
cientistas que estuda a tal bolha.
Assim como o fato de que
nunca saímos os mesmos depois de uma experiência nova, o mesmo ocorre com esses
personagens. Já o espectador também pode dizer o mesmo com Aniquilação, que ao mesmo tempo em que conquista pela beleza
visual, nos tira do conforto ao exigir que busquemos teorias e interpretações
para compreendermos o significado de tudo aquilo que acabamos de ver.
3 Filmes para pensar A lista de hoje traz filmes que contam histórias comoventes, que nos tiram da zona de conforto e que nos fazem refletir sobre questões muitas vezes ignoradas por nós, além de abordarem temas polêmicos, porém de uma forma delicada, conquista a crítica e o público. Cada um desses 3 filmes são baseados em livros e está repleto de citações nas quais vale a pena prestar atenção. Além de serem produções recentes que trazem uma abordagem politica de forma interessante, que dialogam bem com o grande público.
“Trem Noturno para Lisboa” – 2013 – Bille August
O filme começa na Suíça, quando Raimund Gregorius (Jeremy Irons), um professor de meia-idade e de vida pacata, salva uma moça de se atirar de uma ponte. Depois do incidente, Raimund acaba ficando com um livro misterioso que pertencia à moça. Ele fica muito envolvido com o livro, que é uma espécie de diário com relatos de um jovem idealista, que havia vivenciado o terrível regime de ditadura militar em Portugal há muitos anos atrás. Raimund larga seu emprego, e parte para Portugal para encontrar os personagens do livro e seu escritor, para tentar obter respostas, não só da história que estava mergulhado, mas também de sua própria vida, em uma jornada de auto-conhecimento. Com um grande elenco, o filme faz viagens no tempo, nos fazendo refletir e mergulhar no mundo desses personagens, ao nos colocar na mesma posição do protagonista, sempre buscando um sentido para as coisas.
“A Onda” – 2009 – Dennis Gansel
“A Onda” é um filme profundo e toca no tema do nazismo na Alemanha atual de uma forma muito interessante. O filme conta a história de um professor de história que tem que falar sobre o fascismo aos estudantes do Ensino Médio e, para conseguir a atenção da turma, ele inicia um projeto que tinha como meta mostrar como determinadas ideais poderiam contaminar qualquer pessoa. A princípio, a ideia parecia inofensiva, mas, aos poucos, os alunos vão ficando cada vez mais entregues ao projeto denominado “A Onda”, fazendo com que pensamentos extremistas dominem a escola. O filme consegue nos fazer refletir profundamente sobre o comportamento humano. Com um elenco jovem coeso e muito bom diga-se de passagem, o filme alemão é um bom exemplo de uma produção para quem quer conhecer mais filmes europeus recentes. O filme ainda conta com a participação do ator Max Riemelt, que ganhou notoriedade recentemente por estrelar a série da Netflix “Sense 8”. “Historias Cruzadas” – 2011 – Tate Taylor
Esse filme nos leva aos Estados Unidos dos anos 60, na época em que os costumes começavam a sofrer grandes mudanças. O filme vai além ao abordar com muita coragem a segregação racial americana, mostrando, também, a posição da mulher em uma sociedade patriarcal, na qual sua única função era conseguir um bom casamento. A protagonista é Skeeter (Emma Stone), uma jovem independente que almeja apenas sucesso profissional (sem dar ouvidos à mãe e às suas amigas), convence um grupo de mulheres negras que trabalham como empregadas domésticas a dividir suas experiências, para que ela pudesse escrevê-las e publicá-las, evidenciando, assim, a luta dessas fortes mulheres. O elenco conta com belíssimas atuações de Viola Davis, Octavia Spencer (Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante) e Jessica Chastain.