segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Ainda precisamos falar sobre Os 13 Porquês

Thirteen Reasons Why o Livro e a Série para além das polêmicas e suas críticas sociais 


A série “13 reasons why”, Os 13 Porquês, aqui no brasil lançada no final de março desse ano 2017 pela Netflix, gerou muita polêmica e burburinho na internet, despertando tanto curiosidade, como debates acalorados a respeito de suicídio, tema ainda considerado um tabu em nossa sociedade, e sem muito espaço para debates mais aprofundados, principalmente entre os jovens. A série é baseada no livro homônimo escrito por Jay Asher, e antes de virar atração seriada de forte repercussão, o livro já era um best-seller. 



O blog simulacro chega um pouco atrasado para a discussão a respeito da série e do livro, porém nunca é tarde para discutirmos sobre séries e livros. Então lá vai uma breve análise crítica sobre ambos. Vamos tentar discutir a respeito do livro e da série em um artigo único, comparando os dois, mesmo que isso seja um tanto complicado, já que se tratem de mídias diferentes, no entanto, vale a comparação aqui, para refletirmos um pouco sobre a narrativa contida em Os 13 Porquês.


Partindo da premissa principal do livro, temos uma narrativa um tanto peculiar, já que a história é narrada em primeira pessoa, porém são dois narradores, o principal e protagonista da história, o adolescente de 17 anos Clay Jensen, que alguns dias depois da trágica morte por suicídio, de uma garota de sua escola, recebe uma caixa de sapatos com 13 fitas k7, nas quais continham os relatos da própria Hannah Baker, a garota que havia tirado a própria vida, o que estava mexendo com a vida escolar de todos, e afetando ainda mais a Clay, que sempre foi apaixonado pela garota, mas nunca teve a coragem de se declarar.

A história tem um segundo narrador, que é a própria Hannah Baker, que assume o controle da narrativa e evidencia a partir de seu ponto de vista o que a levou a cometer o suicídio.

Ok temos outros livros com mais de um narrador em primeira pessoa na história da literatura, e também temos livros com relatos de fitas k7, fitas de vídeo, cartas e outras formas de relatos, e partindo dessa afirmação Os 13 Porquês, não teria nada de inovador. Porém não devemos parar por ai, pois esse formato da a história cria uma dramaticidade e um ritmo que prende o leitor a se aprofundar mais na história. Começamos a leitura sabendo que Hannah Baker está morta, mas precisamos saber o porquê, e ter a sensação de ouvir as fitas com Clay nos motiva a seguir a leitura.

Essa forma de narrativa adotada por Asher, ajuda a criar um clima de suspense, mesmo sendo obvio o que aconteceu no final. Acompanhar a jornada de Clay Jansen nos coloca quase que em sua posição, temos uma narrativa intensa, em que o garoto nos conta sua versão dos fatos enquanto ouve as versões de Hannah.

O livro não se aprofunda muito na construção dos personagens, nem mesmo dos protagonistas, chegando a ser um tanto poético em alguns trechos, sem deixar nada muito bem resolvido ou acabado. Vamos descobrindo aos poucos que Hannah Baker sofria bullying na escola onde estudava, e as coisas vão se agravando, até se tornarem insuportáveis.

A série Os 13 Porquês, tenta aproveitar algumas das lacunas deixadas pelo livro, aprofundando-se mais na história dos personagens. Ouvimos sempre dizer que quando um livro é adaptado para um filme ou série, ele acaba perdendo um pouco de sua história, porém aqui o caso é bem o contrário, a série acaba indo muito mais além do que o livro apresenta, o que por um lado é interessante, ainda mais quando se trata de fãs ávidos por mais das histórias que já conhecem e amam, como é o caso dessa geração pós moderna que costuma consumir um mesmo conteúdo exaustivamente em diversas plataformas, e também se levarmos em consideração que o livro é bem pouco descritivo, e nos deixa abertos muitas interpretações.

Mas isso também pode ser interpretado como uma forma de tentar explorar além da conta um determinado conteúdo. Como por exemplo, no livro os adultos mal aparecem e quase toda a história se desenrola em uma noite de angustia, enquanto Clay Jansen ouve as fitas de Hannah Baker, atordoado, e sem poder fazer nada para reverter uma situação já definida, mesmo que amasse a garota, infelizmente havia perdido sua oportunidade de demonstrar enquanto ela ainda estava viva. Provavelmente esse seria o tema principal do livro, o amor impossível e a perca de oportunidades de se declarar. Temos a faceta de uma jovem angustiada que se revela em suas 13 fitas k7s, tentando fazer justiça a si própria, já que ninguém fizera por ela, o que beira a quase uma tentativa de vingança, movida pelo desejo de que todos na escola que a maltrataram de várias formas ficassem cientes do mal que a causaram.

Na série as coisas se desenrolam com um tempo mais lento, temos o mesmo formato de contato com a história, vamos descobrindo junto com o protagonista por que seu nome estava em uma dessas fitas, e cada um dos treze motivos que levaram Hannah Baker a cometer suicídio. Porém enquanto Clay ouve as fitas acompanhamos também a repercussão que as fitas já haviam causado ao serem ouvidas pelas outras pessoas que tinham seus nomes na lista dos 13 porquês de Hannah.  O seriado elabora um personagem para cada porquê, dando algum sentido para as atitudes tomadas pelos garotos que estudavam com Hannah, já que no livro temos apenas breves descrições de cada um, e relatos do que fizeram.

O livro apresenta a história quase que apenas pelas fitas deixadas por Hannah Baker, temos basicamente apenas o seu lado da história, vemos atletas, lideres de torcidas populares sendo cruéis com uma garota novata e insegura de mais para reagir a insumos e boatos que inventaram a seu respeito.

A série da um rosto para  Justin Foley, Alex Standall, Jessica Davis, Tyler Down, Courtney Crimsen, Marcus Cooley, Zach Dempsey, Ryan Shaver, Sheri Holland, Bryce Walker e a senhor Portter.  Todos esses personagens ganham vida de fato, cada um ganha uma história também, e num geral todos tem dramas com famílias disfuncional, ou sofrem com pressões da vida escolar e da sociedade, o que no final das contas, torna tudo muito próximo de todos, e de fácil identificação pelo público em geral. Mas também ajuda a compor o perfil de personagens agressivos.



O formato série tenta explorar mais as relações sociais como a essência de problemas como a violência entre os jovens, o bullying e também o suicídio. O que foi uma sacada até bem lógica e funcional para o formato, já que a história teria que ser aprofundada para ser contada ao longo dos treze episódios.

Como fenômeno social o que a série tenta passar acredito que seja o que vale a pena para assisti-la, e discutimos sim sobre ela, é sempre necessário discutirmos como nos comportamos e como isso afeta de forma direta os outro. O que na época do lançamento da série na Netflix foi pouco ou nada discutido, já que as polêmicas puxaram todos os assuntos para o fato de se podemos ou não falarmos sobre suicídio. E hoje alguns meses depois assistindo a série com olhar critico percebo que a proposta de discussão aqui poderia ser mais rica, como por exemplo toda vez que se fala em Bullying e em depressão as pessoas fogem e são pouco abertas ao debate, e na maioria das vezes fazem vista grossa para o que acontece.

Estamos acostumados com um formato de escola e de sociedade que tenta colocar todos em um molde, esquecendo que cada um é único, e pode encarar a vida de muitas formas diferentes. O embate entre os jovens na escola mostrado na série poderia facilmente levantar uma questão que passou batida, simplesmente pelo fato que estamos acostumados a tratar as pessoas ao nosso redor mal, acreditando que está tudo bem e que não estamos ferindo ninguém, somos uma sociedade egoísta e hipócrita que varremos nossos podres e segredos para baixo do tapete, sempre que necessário, mesmo que isso possa atrapalhar a vida de alguém. Criamos nossos filhos para esse sistema, de ser forte a todo custo, de ser um vencedor a todo custo, mesmo que isso custe a vida dos outros, ou seja apenas uma métrica imposta por uma sociedade falsamente moralista. Naturalizamos o sofrimento alheio para aliviarmos nossas consciências e tentamos nos defender encontrando o defeito dos outro.

Parece algo assustador para se escrever ou dizer, mas essa é a verdade, todos somos agredidos todos os dias, e seguimos adiante  é fácil perceber o quanto somos hostis uns com os outro apenas dando uma passada de olho nas time lines das nossas redes sociais. Mas quando temos a oportunidade de discutimos sobre nossa cultura de invisibilizar o outro, tomamos atitudes parecidas com a dos garotos que se escondem de medo das responsabilidades na série, viramos para alguém e dizemos apenas, “A essa série é muito polêmica”, ou “Não deveriam ficar falando de suicídio com os jovens, isso é incentivar”, ou ouvimos coisas piores como o que é falado na série: "que a garota que se matou fez o que fez para chamar a atenção".

Talvez falar sobre suicídio seja ainda um tabu porque isso exija que paremos para pensar e refletir, o que a muito a nossa sociedade não faz, saímos falando ou escrevendo antes de pensar nas consequências, e quando se trata de assumirmos responsabilidades, somos ainda piores.

A série tratou o assunto com delicadeza sem romantizar a situação, o que é muito bom para a discussão saudável de assuntos polêmicos. Outra questão levantada para a série é com relação a fragilidade da mulher na sociedade, e de como ainda hoje cuidar de uma reputação impecável é muito importante principalmente para mulheres, e que boatos inventados por garotos para construir sua gloria humilhando publicamente uma garota ainda é prática considerada normal, um fato que as meninas deveriam levar com naturalidade, um aspecto que foi pouco falado na época de lançamento da série, mas que deveria ser discutido com atenção.

Tanto na leitura do livro quanto assistindo a série me veio fortemente a cabeça um outro livro chamado “Nada” da escritora  Janne Teller, que recomendo fortemente, principalmente se você assistiu a série e leu o livro. Em "Nada" temos uma turma de estudante ainda mais jovem que ao se deparem com um aluno que se recusa descer de uma arvore por acreditar que a vida não fazia sentido, começam a fazer de tudo para provar ao garoto o verdadeiro valor da vida, porém essa tentativa dos meninos vai aos poucos os consumindo, chegando a extremos que eles não previam.


A série acabou se aproximando ainda mais desse sentido apresentado no livro “Nada”, ao mostrar o embate dos estudantes com suas responsabilidades, consciência e desejos.

O filme “A Mentira” de Will Gluck (2010), trabalha com tema semelhante, ao abordar a vida de uma colegial, que vitima de boatos a seu respeito acaba perdendo o respeito dos garotos da escola se tornando excluída e desprezada até mesmo pelas garotas.  Nesse caso temos um filme mais leve onde tudo acaba se resolvendo bem, mas ainda assim percebemos o quanto é difícil se afirmar socialmente e o quanto os adultos que poderiam ajudar, por vezes acabam se ausentando dessas situações, pois levam tudo com naturalidade, como uma fase, sem esperarem que algo pode realmente dar errado seriamente.



A série acaba colocando os pais das personagens na história, nos comovemos com o sofrimento dos pais de Hannah Baker, o que ajuda a passar uma mensagem de conscientização a pessoas que possam estar enfrentando os mesmos problema que Hannah passou na série, mostrando um caminho que poderiam tentar se abrindo com os pais, ou pessoas que possam oferecer algum tipo de ajuda, antes de chegar a decisões extremas.  

No livro essa ideia se dá pela possibilidade que Hannah teria se tivesse conseguido falar com o Clay. Ou seja nenhum dos dois aborda o suicídio como saída para problemas, e sim nos coloca na perspectiva de possibilidades que ficam em aberto se não tentarmos. E ainda nos alerta para a deficiência que temos em ajudar pessoas que são vitimas de violência, ou que sejam de grupos de risco.

Os 13 porquês deve ser visto, ou lido por uns treze porquês diferentes, mas talvez um dos mais importantes seja para podermos olhar para nós mesmos, e pensar porque ainda não somos uma sociedade capaz de funcionar bem para todos.   

Tecnicamente a série é boa, conta com uma trilha sonora forte com músicas que ajudam a compor muito bem todas as situações, temos cenas fortes e complicadas defendidas com mérito para o elenco, destaque para a protagonista Hannah Baker vivida pela atriz katherine langford.



A fotografia  é muito bonita, e ajudam a dar um ritmo fluido e sentimental a narrativa a série. Um  aspecto da montagem é que ela se aproxima do suspense e por vezes se aproxima dos thrillers para jovens que fizeram muito sucessos no final dos anos 1990 e inicio dos anos 2000, como a série "Pânico"(1996), e "Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado" (1997).

Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado 

talvez a maior falha da série tenha sido estender de mais a história, ainda que para sua pretensão de aprofundar os personagens  funcione, porém soou um pouco exagerado, ainda mais pensando em uma possível sequência, o que já sabemos que acontecerá, e nesse caso a série rompe completamente com o livro, já que tudo que poderia ser adaptado do livro já foi na primeira temporada, por isso os roteiristas terão muito trabalho, para não perderem a mão. 


sábado, 11 de novembro de 2017

O Lagosta

Texto de: Tarcísio Paulo Dos Santos Araújo

O absurdo e o distópico como forma de explorar as relações humanas

Nascido em Atenas, na Grécia, Yorgos Lanthimos estudou direção de cinema e Tv na Escola de Cinema Stavrakos em Atenas. Dirigiu diversos comerciais de Tv, videoclipes, curtas e peças de teatro. Seu primeiro longa-metragem foi “Kinetta”, que foi exibido por festivais em Toronto e Berlim. “Dente Canino” foi mais aclamado e venceu o prêmio Um Certain Regard em Cannes em 2009, além de ter concorrido ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2011. Seu mais recente filme, “The Killing of a Sacred Deer”, venceu o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes deste ano. O cinema de Yorgos tem como uma das principais características a representação de situações absurdas que envolvem as vidas de seus personagens, como forma de criticar normas sociais, seus valores e costumes.

“O Lagosta”, filme que antecede “The Killing of a Sacred Deer”, é um interessante estudo do funcionamento das relações amorosas de forma satírica, enquanto mantém um humor mais seco, longe de um tom excessivamente cômico. Pelo contrário, seu personagem principal se encontram em uma distopia em que dois principais grupos extremamente radicais, ditam normas e regras de relacionamento.


Nesse mundo distópico, onde há uma exigência para que as pessoas estejam sempre acompanhadas e em um relacionamento estável, David (Colin Farrell) foi recentemente deixado por sua esposa, que decidiu trocá-lo por outro. Ele então resolve se hospedar em um hotel onde terá 45 dias para conhecer alguém e se relacionar, caso contrário, se transformará em uma lagosta, animal escolhido pelo personagem. Esse universo parece fazer nada mais do que uma sátira à cobrança de que nunca devemos estar só e até explorar a ideia de fácil apego e dependência entre as pessoas.


O hotel possui uma porção de regras bizarras que reforçam mais ainda a crítica que é feita. É proibido por exemplo a masturbação, que é trocada por estímulos sexuais provocados pelas próprias camareiras do hotel. Os hóspedes assistem palestras que dramatizam situações que exaltam a importância de se estar sempre com alguém, como por exemplo um homem jantando só, simula um engasgo e acaba morrendo. O mesmo homem em seguida, simula a mesma situação, mas dessa vez acompanhado. O resultado, claro é sua vida sendo salva. 

A fotografia acinzentada se estende para o céu que carrega sempre a mesma cor, e mesmo quando temos uma cor dourada e alguma luz mais quente, como no salão de festas, temos o contraste de tudo isso com as roupas iguais dos hóspedes. Mulheres usam o mesmo vestido e os homens o mesmo terno. O longa traz a imagem de uma sociedade burguesa através de seus hóspedes, em que a elegância se contrapõe com um mundo mais mecânico e frio. 

Isso tudo é concebido através de um humor seco que beira ao dead pan. O termo para quem não conhece, surgiu com o início dos vaudevilles e teve o comediante, diretor e ator Buster Keaton como um dos principais artistas a difundir esse tipo de comédia. O deadpan consiste em manter o rosto inexpressivo durante situações cômicas para que o contraste possa ter um efeito maior. No longa isso está de pleno acordo com o contexto do universo criado porque temos essa distopia em que as pessoas parecem viver dentro de um conformismo que as obriga a seguir essas regras de comportamento.


Mais conveniências sociais dentro dos relacionamentos são retratadas no roteiro quando David conhece alguns colegas no hotel. John é um homem que por conta de um acidente, acabou tendo um problema na perna que o faz mancar, e Robert é um homem que sofre de sigmatismo, popularmente conhecido como “língua presa”. Os personagens procuram por mulheres que tenham essas mesmas características que eles. Destaque para a cena em que John diz que sua mãe foi trocada por uma mulher com pós-graduação, sendo que ela é “apenas” graduada e isso foi motivo de ser deixada por seu pai. Essas situações estranhas são justamente o que faz o filme ser tão interessante, já que Yorgos não se preocupa em usar o ridículo de forma inteligente e crítica para representar como as pessoas às vezes podem ser tão exigentes com as outras, fazendo dos relacionamentos verdadeiras entrevistas de emprego.

Eis que o espectador se depara com o outro lado desse mundo: os solteiros que são contra qualquer relação. Esse grupo é retratado no filme como pessoas marginalizadas que precisam viver em uma floresta onde são caçados como animais pelos próprios hóspedes do hotel para serem transformados animais, mesmo porque, a cada solteiro caçado, o hóspede ganha um dia a mais no prazo para conhecer alguém no hotel. Mesmo colocando os solteiros como vítima, o roteiro não poupa criticar também o radicalismo de algumas pessoas que preferem ficar sozinhas e se afastarem do mundo e das pessoas, por conta talvez da falta de esperança na humanidade.

 Na floresta onde eles vivem, está proibido qualquer envolvimento entre eles, com direito a penalidades graves e violentas. Eles dançam música eletrônica porque é melhor para dançar só, não ajudam uns aos outros e qualquer demonstração de afeto pode ser perigosa. O lugar é comandado por uma líder (Léa Seydoux) e tem entre seus seguidores, uma mulher míope interpretada por Rachel Weisz.



Entre esses dois mundos extremistas, David que acaba se juntando aos solteiros depois de fracassar ao se envolver com uma mulher fria a calculista, conhece a mulher míope e ambos se sentem atraídos um pelo outro. O espectador tem uma esperança nessa relação que surge de forma natural e espontânea. Vale comentar que David, assim como seus colegas, tentou forçar ser o que não é para tentar se relacionar.


Quando o romance de David com a mulher míope se inicia, a narrativa coloca o protagonista em um dilema, já que as convenções sociais estão sempre presentes e fazendo com que as pessoas muitas vezes anulem sua própria identidade para se igualar a outra e assim fazer com que a relação dê certo. “O Lagosta” consegue com um humor ácido, retratar o radicalismo de pontos de vista das relações diante de um mundo pós-moderno, a perda de identidade para ser aceito pelo outro e uma possível esperança de derrubar um sistema para poder viver aquilo que é mais verdadeiro e da nossa própria essência.  

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Dica de série: Wanted

A dica de série dessa semana é a australiana “Wanted”, criada e estrelada por Rebecca Gibney , é uma série policial dramática que flerta com ação, que inicialmente foi ao ar pelo canal  australiano Seven Network em 2016.

A trama de Wanted já começa empolgante e atraente, com uma primeira cena inusitada e claustrofóbica, na qual são apresentadas as protagonistas aprisionadas em um porta-malas de um carro em movimento. A montagem da série que diga-se de passagem é um dos grandes destaque da produção, no primeiro episódio assume grande destaque, pois de forma não linear vamos descobrindo o que levou as duas personagens para dentro do porta-malas.


As duas mulheres em questão depois de presenciarem uma cena de crime, na qual acabam por se envolverem, são sequestradas. Inicia-se ai toda a história, pois além de terem de se libertar do sequestrador, que deseja silenciar as testemunhas, elas nem imaginavam que havia um problema ainda maior por trás daquela situação, pois não  presenciaram um crime qualquer, se tratava na verdade de algo grande, envolvendo um forte esquema de máfia e corrupção policial, ou seja, elas acabam por se tornar alvo fácil até mesmo para a policia de todo o país, pois são acusadas de uma série de crimes, pela policia corrupta, que sabia que as mulheres poderia estragar os seus negócios.

Uma das mulheres, Lola Buckley (Rebecca Gibney) é uma senhora já de meia idade que trabalhava como caixa de supermercado, e levava uma vida dura, e trazia com sigo uma história de passado complicado e conturbado e de abusos, porém Lola é uma mulher de muita atitude, forte e corajosa, sem medo de enfrentar o que acontece com ela.

A outra é bem mais jovem, cheia de compulsões e manias, Chelsea Babbage (Geraldine Hakewill), é uma jovem mimada, rica , insegura e um tanto atrapalhada, e apesar de tudo seu personagem acaba se tornando engraçado e doce.

Lola e  Chelsea são a dupla mais improvável, porém é interessante ver como vai surgindo uma sintonia entre as duas para que possam unir forças contra os que as perseguem.



A série tem um que de Road Movie , pois se passa quase que o tempo inteiro nas estradas Australianas, acompanhando a fuga das de Lola e  Chelsea, o que nos remete ao filme “Thelma & Louise”(1991) de Ridley Scott, percebe-se claramente que a Wanted se inspirou fortemente no filme dos anos 90, tanto na abordagem dos temas, como também na fotografia e montagem. Incorporando o discurso do espaço da mulher na sociedade, o que ainda permanece relevante, e dando espaço para personagens femininos fortes e que não se encaixam em padrões de beleza e estereótipos.

Na série  Chelsea apesar de já ter 29 anos ainda é imatura e insegura, nem por isso o personagem se torna desmerecido, pois remete a geração que ainda não sabe o que quer da vida quando já deveria(Nossa geração), mas também apresenta um personagem que faz uma curvatura, que vai crescendo dentro da trama enquanto amadurece, o que nos trás mais uma comparação com a personagem  Thelma, de “Thelma & Louise”, ambos os personagens parecem inocentes diante da vida, a espera que alguém assuma o controle da situação por elas. Deixando para o outro elemento da dupla o cargo da responsabilidade sobre as ações.


“Thelma & Louise” - Ridley Scott
“Wanted”
O diferencial, é que em wanted as protagonistas se conhecem no momento em que suas vidas foge completamente do controle, ou seja uma vai ter que contar com a outra independente de suas vontades, enquanto que em “Thelma & Louise”, sabemos desde o começo que apesar das diferenças entre a dupla de protagonistas elas já eram amigas de longa data, e uma já conhecia o passado da outra. 

Se pensarmos por esse lado é uma escolha interessante trazendo para o formato seriado de TV, pois a trama tem a possibilidade de crescer para outros lados, enquanto Lola e Chelsea vão se conhecendo melhor.

Na primeira temporada temos um aprofundamento da história de Lola, e basicamente é um dos elementos que faz a história girar, já que ela é quem acaba tomando as maiores decisões, e apesar de seu jeito simples beirando ao bruto, ao decorrer da temporada vamos identificando nela apesar de seu lado durona e de passado misterioso, uma mulher protetora e maternal.

A dupla Lola e  Chelsea funciona bem, é fácil gostarmos dos personagens embora não seja tão recorrente protagonistas mulheres fortes passadas dos 40. Com uma montagem em estilo de filmes de ação, acabamos nos envolvendo, desejando solucionar o caso, episódio por episódio.


Para quem quiser assistir Wanted a primeira e a segunda temporada estão disponíveis no Brasil pela Netflix. 

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Rebecca, A Mulher Inesquecível

Crítica
Rebecca, A Mulher Inesquecível


Texto de: Tarcísio Paulo Dos Santos Araújo 


Rebecca, A Mulher Inesquecível, é o primeiro filme em solo americano de Alfred Hitchcock. A obra é uma adaptação do romance de Daphne du Maurier, Rebecca, publicado em 1938.


David O. Selznick, famoso produtor americano, mais conhecido por produzir E o Vento Levou, pretendia comprar os direitos de Titanic, que também contaria com a direção de Hitchcock, porém mudou de ideia ao adquirir os direitos de Rebecca.
Joan Fontaine interpreta uma jovem mulher (a personagem não tem nome) que trabalha como dama de companhia para Edythe Van Hopper (Florence Bates). Em Monte Carlo a jovem conhece Maximilian de Winter (Laurence Olivier) e em pouco tempo ambos se apaixonam e se casam.
Os dois vão morar em Manderley, uma casa de campo em Cornwall, mas a jovem moça não ganha a simpatia da Sra. Danvers (Judith Anderson), que trabalha como governanta na mansão desde o casamento anterior do milionário com já sua falecida esposa, Rebecca. A Sra. Danvers tem uma admiração exagerada por Rebecca, alimentando um ódio pela nova esposa de Maximlian, atrapalhando assim a vida da jovem.
David O. Selznick pediu que o filme fosse fiel ao romance (que é mais simples), e embora Hitchcock não considere um filme caracterizado pelo seu suspense, sua direção consegue fazer um grande diferencial. É nítido um mistério e uma sensação de desconforto vivido pela personagem principal enquanto está na mansão de seu novo esposo.
Logo na chegada do casal à mansão, a chuva já prevê que as coisas não serão nada fáceis para a nova senhora de Winter. Joan Fontaine está muito bem no papel e traz na uma expressão corporal mais curvada e introvertida, reflexo de total desconforto no novo ambiente. Isso mudará no decorrer do filme, principalmente quando alguns mistérios forem revelados, e o espectador perceberá a evolução da personagem que refletirá em sua postura e até figurino.
E já comentando as interpretações, a personagem de Judith Anderson, como a excêntrica Sra. Danvers está perfeita. Ela faz uma mulher cheia de mistérios e sua admiração excessiva por Rebecca, deixa implícito o amor platônico que a governanta nutria pela ex-patroa. Apesar de pouco se saber sobre a governanta, ela também tem uma expressão corporal (ou melhor, dizendo, quase nenhuma) que a deixa robótica, a favor da composição de sua personagem. Sua forma mecânica de se locomover e o fato de aparecer e desaparecer do nada em algumas cenas, a fazem parecer um espírito que anda pela mansão, vigiando o lugar que para ela, sempre pertencerá a Rebecca. Hitchcock pediu para que Judith Anderson mexesse as pernas o menos possível ao andar, além de seu vestido mal mostrar seus pés, para que se tivesse a impressão de que a personagem flutuasse.


E o que dizer de Rebecca? A mulher inesquecível e invisível, que ao mesmo tempo é tão presente durante o filme. Sua presença é constantemente relembrada pela Sra. Danvers propositalmente para que a esposa de Maxim se sinta constantemente coagida. Interessante observar que em uma cena em que Maxim relembra a falecida exposa, ele narra suas ações e a câmera começa a se mover pelo ambiente como se Rebecca estivesse em cena no momento. O próprio espectador a imagina se levantando e caminhando.
A fotografia está muito interessante. Planos valorizam a grandiosidade da cenografia e deixam a esposa de Maxim minúscula e desorientada em meio a quadros e espelhos enormes, como se a casa fosse devorá-la. O uso de sombras nas cenas certas também contribui para o suspense. Esse “assombro” no filme se cria na cabeça da personagem e na do espectador através da excelente direção de Hitchcock.



Rebecca, A Mulher Inesquecível recebeu os Oscars de melhor filme e melhor fotografia em preto e branco em 1940.

Ficha Técnica:
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Philip MacDonald, Michael Hogan
Gênero: Drama, Thriller
Elenco: Laurence Olivier, Joan Fontaine, George Sanders, Judith Anderson
Duração: 125 minutos
Ano da produção: 1940



domingo, 29 de outubro de 2017

Marnie, Confissões de uma ladra

Texto de: Danatielly Costa




Marnie, Confissões de uma ladra, é um filme americano do diretor Alfred Hitchcock de 1964, foi baseado no livro de mesmo nome de Winston Graham. O nome original do filme é apenas “Marnie” o subtítulo é brasileiro. 

É um filme do gênero suspense, que conta a história da jovem atraente Marnie Edgar, interpretada pela atriz Tippi Hedren (“Os Pássaros”), que costumava aplicar golpes e roubos de forma compulsiva, e também sofria com ataques de pânico. A moça tinha medos patológicos, como da cor vermelha, de chuva e trovões. Em meio a tudo isso Marnie acaba despertando o interesse de Mark Rutland (Sean Connery), que era seu patrão. Mark se apaixona por ela, e tenta assumir a responsabilidade de ajuda-la a se livrar de sua vida de compulsões.

Assistir Marnie, e refletir sobre o filme nos faz entender mais sobre o trabalho de Alfred Hitchcock, como ele explorava seus temas a fim de surpreender o espectador, e como por vezes fazia uso da psicanálise. O filme inteiro está muito ligado aos estudos de Sigmund Freud, a respeito da sexualidade, sonhos, traumas de infância, histeria, ao subconsciente e a própria psicanálise em si.

Marnie trás nela uma personalidade que é típica de casos de tratamentos psiquiátricos psicanalíticos, que vão sendo identificados no desenrolar da trama, e apesar dela ser uma ladra e golpista, nos sentimos envolvidos com ela ao ponto de torcemos para a personagem, de nos identificarmos com a moça que acaba por se revelar uma vitima das circunstâncias, todo o filme é construído para que possamos fazer esta identificação.

Na primeira cena do filme já vemos Marnie, com uma peruca de cabelos pretos carregando uma bolsa amarela, e andando rapidamente, como se estivesse fugindo de algo, e ficamos sabendo logo de inicio que ela havia dado um golpe em uma empresa, por isso foge, mudando a cor dos cabelos se transformando em uma outra pessoa.
Vemos ela arrumando suas coisas, em um plano detalhe organizando suas múltiplas identidades, e escondendo o dinheiro que roubou, fica evidente de que Marnie é uma ladra.


Na cena em que Marnie visita sua mãe Bernice Edgar (Loise Latham), ao chegar na rua da casa de sua mãe, crianças brincam e cantam uma musica que faz referência a doenças, elas citam o nome de varias doenças, o que nos trás um clima sombrio, nos revelando outro aspecto da personalidade de Marnie que não gostava de crianças.

Na casa com a mãe percebemos o quanto elas tem um relacionamento distante e o quanto isso fazia efeito sobre sua vida, também nessa cena vemos o pânico de Marnie em relação a cor vermelha, ao ver flores vermelhas a tela inteira fica vermelha, nos mostrando o quanto a cor a incomoda, o mesmo recurso de efeito é criado em outras cenas onde objetos da cor aparecem.

Marnie tem pesadelos, o que nos da dicas do seu sofrimento, reforçando a ideia de que tem algo errado com ela. No momento em que sua mãe vai ao seu quarto, e Marnie esta tendo um pesadelo, tem-se um enquadramento da mãe na porta encoberta pela sombra, e permanecendo distante da filha, o que é muito emblemático no sentido de que a situação em que as duas viviam estava escondida, estava na parte escura de Marnie e de sua mãe, uma ideia do subconsciente explorada na construção das imagens formando planos, que ajudam a explorar a narrativa e seus desdobramentos psicológicos 

Marnie usava de sua boa aparência para atrair os homens e engana-los, e assim consegue um novo emprego em um cargo de confiança, e acaba tendo o plano de aplicar outro golpe. O que ela desconhecia era o fato de seu novo chefe saber que ela era uma ladra.

No emprego novo de Marnie temos mais uma cena em que o vermelho aparece, é quando ela se suja com tinta, e entra em pânico para limpar sua blusa, isso chama a atenção de Mark Rutland seu novo chefe, que havia influenciado em sua contratação, por se sentir atraído por ela, mesmo conhecendo seu verdadeiro caráter. Vemos Marnie se limpar com desespero, temos a certeza de que a cor vermelha a remete mais do que apenas medo, a desperta para algo que está soterrado em seu subconsciente.

Enquanto Marnie trabalha, subjetivas dela olhando onde cada coisa ficava observando quando abriam o cofre e onde guardavam a chave, mostram que ela esta prestes a agir, mas que ao mesmo tempo ela é meticulosa e aprecia seus planos com prazer nos revelando que não rouba simplesmente pelo dinheiro, mas sim para se sentir melhor, como um mecanismo para sentir prazer.

Outro detalhe no ambiente de trabalho de Marnie é que apesar do uso que faz de sua sensualidade, não aceita o convite de um colega de trabalho para tomar café, mesmo o moço insistido. Em uma conversa com sua mãe fica bem claro o quanto as duas desprezam homens, e de como tentam afasta-los “Não precisamos de homem nessa casa” cita a mãe de Marnie, “Uma mulher descente não precisa de homem” diz a própria Marnie, esse outro aspecto de sua personalidade nos mostra como é uma mulher confusa de atitudes conflitantes, e como sua vida está cheia de limitações as quais ela mesma se colocava.

Ao ficar para uma hora extra para Trabalhar com Mark Rutland, uma tempestade tira ela de si entrando em pânico, Mark tenta acalma-la e percebe que tem algo errado. Nessa cena tumultuada, com um jogo de luz e sobras acontece o beijo entre Marnie e Mark, uma cena que explora o medo e a sexualidade de forma delicada. O próprio Alfred Hitchcock no trailer do filme e em sua campanha de marketing dizia “Será um filme de suspense? de Sexo? Mistério ou tudo isso junto?”.

Na mesma cena ocorre um dialogo muito importante para a construção da relação entre as personagens onde Mark se coloca como o Psicólogo e Marnie como sua paciente. Onde ele diz ter treinado um Jaguar, e Marnie pergunta “Para fazer o que?”, “Confiar em mim” o responde, e sabemos que essa mesma relação será estabelecida entre eles. A mesma relação acaba acontecendo entre um médico e paciente, estabelecendo uma relação de confiança.

A partir daí a maioria das cenas são de intensos diálogos entre eles, Mark tentando assumir o papel de quem vai tratar de Marnie, sendo o psicanalista que está disposto a ouvir, e buscar a verdade da moça misteriosa.

Quando eles saem juntos para ir a uma corrida de cavalos em uma conversa Marnie diz que não confia nas pessoas, Mark vai ao ponto do problema dela “Você teve uma infância difícil?” pergunta ele. Fica claro que a personagem tinha conhecimentos de psicanálise; Freud em seus “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade de 1905” evidências na relação de problemas na vida adulta com experiências na infância. Mark já tinha informações necessárias para perceber que ela tinha problemas psicológicos, e por já ter conhecimento de seu comportamento, quando ela rouba a empresa novamente e foge sem deixar rastros consegue ir atrás dela, pois tem o desejo de ajuda-la, nesse aspecto temos a noção do envolvimento que Mark tem com Marnie “A Transferência afetiva do psicanalista com a paciente”.


Conforme ele vai se aproximando de Marnie, é cada vez mais revelado quanto perigosa e delicada é a relação entre os dois.

Quando Mark diz que gostaria de casar-se com Marnie para poder cuidar dela, que precisava de ajuda, ao invés de entrega-la a policia, fica claro que a dependência dele por ajuda-la também é doentia, a necessidade da repetição, da autoafirmação dele como alguém que pode ajudar, em uma situação de detentor do controle.
Marnie rejeita o pedido alegando que não é uma mulher comum “Que nunca antes na vida teve um homem”, mesmo assim ele leva à ideia do casamento a diante, convencido de que seria o melhor para ela. A tensão e o suspense do filme vão se configurando na medida em que Mark vai entrando no mundo de Marnie, ficamos aflitos sobre o desenrolar da história, em um jogo de o quanto Mark Rutland consegue pressionar Marnie sem que isso a destrua ou destrua ele. Um drama psicológico, que vai se construindo,  chegando ao ápice na lua de mel em um navio, onde ela não permite que ele a toque.

O suspense de como isso será resolvido nos intriga, temos vários insertes dos dois conversando pelo navio, com Mark sempre fazendo “Sessões de análise” com a esposa.
Em uma noite Mark arranca à camisola de Marnie a força, temos uma Marnie desprotegida, com a feição inexpressiva, e mergulhada na sombra, a estética da iluminação fazendo sombra na metade do rosto de Mark, o revelando como o “Marido que quer o que é seu”, contrastando com o “Psicanalista”, e a sombra no rosto de Marnie em uma bela construção dramática, onde a moça mergulha em todo o seu lado sombrio, a câmera acompanha seu rosto enquanto se deita na cama, e permanece em um close em seu rosto, em um mergulho sombrio, sexual, dramático, Hitchcokiano, Freudiano.



O desafio de Hitchcock durante o resto do filme, é o que fazer depois dessa cena para que Marnie confie em Mark, para que ele possa ajuda-la a se recuperar de seus medos.

Mark não desiste de tentar ajudar Marnie, tenta ensina-la a se sentir amada, a leva para a casa para morarem juntos, leva seu cavalo para que Marnie se sinta melhor, pois se sentia mais segura com o animal, é um tratamento intensivo que ele tenta para ajudar a esposa mentirosa, ladra e frigida.


Marnie volta a ter pesadelos, e nos são fornecidas pistas de seus problemas, que são o mistério no qual a trama gira, ela chama pela mãe, as batidas na porta, que a remetem ao pesadelo e ao pavor, e diz sentir frio ao acordar. O subconsciente dela influenciando o físico. Ao acompanhar isso Mark tenta fazer com Marnie algo muito conhecido do tratamento de Freud, causar a “Catarse”, para que ela se abra e se descubra.

Ela percebendo o que ele tentava fazer diz a frase emblemática “You Freud me jane?” , ela acaba aceitando o desafio que conduz os dois em um jogo de perguntas e respostas rápidas, onde ela se defende o quanto pode até que ele se refira a Cor, ao “Vermelho”, pronto, ela se entrega, entra em uma crise, e pede por ajuda.

Uma personagem fundamental para o filme é Lil Mainwaring (Diane Baker), que apaixonada por Mark, assume um papel recorrente nos filmes de Hitchcock a espiã, aquela que acompanha a história dando o ar de surpresa em momentos importantes, ela logo desconfia do casamento de Marnie e Mark, e se coloca a investigar a relação dos dois. Lil que fornece a informação da mãe de Marnie a Mark, a personagem esta sempre em tons de vermelho contrastando com os outros tons mais claros dos ambientes, revelando o perigo para o espectador que associa a cor ao medo de Marnie.



Um incidente em uma caçada com cavalos, onde Marnie entra em uma crise, ao ver homens cavalgando com roupas vermelhas, a leva para um acidente no qual ela perde seu cavalo de estimação, que se fere muito, Marnie atira no cavalo para sacrifica-lo, a construção da cena, mostra o ódio que Marnie sentia e o desejo de vingança, atira no cavalo no exato momento que Lil diz “Deixe que um homem faça isso”.

Todo o desequilíbrio mental de Marnie chega a seu Máximo, ela foge novamente para roubar, quer buscar equilíbrio no que a conforta. Porém Marnie não consegue tirar dinheiro do cofre de Mark, não tem forças para isso.

Percebemos que toda a terapia dela com o marido estavam começando a funcionar, Mark vai atrás de Marnie, e a leva para a fase final de seu tratamento, o encontro com a mãe a qual ela escondia.

Na casa da mãe, escutamos junto com Marnie a confissão de Bernice Edgar, sobre o que aconteceu no passado que atormentava tanto a filha, com o recurso de um flashback finalmente acompanhamos o que marcará de forma tão terrível toda a vida de Marnie, a cena é a fundamental no filme, com excelente desempenho do elenco. Uma construção perfeita de crime.

“Marnie presenciará em sua infância o abuso de um homem a sua mãe, o homem que também se aproveita dela, a mãe luta com ele e Marnie usa um ferro para matar o homem, quando era apenas uma garotinha”.

Marnie havia bloqueado a lembrança aterrorizante em sua mente, que acabou enchendo seu subconsciente de traumas medos e compulsões, tudo é revelado de forma catártica, tanto para as personagens quanto para o espectador. O Vermelho, o sangue do crime, que inundou o chão, em uma imagem forte e marcante, revelando o motivo do cronico de tempestades, já que no dia que Marnie passara por seu maior trauma chovia fortemente, as batidas, representavam as batida que Marnie havia dado na cabeça do homem, isso explicava o seu desprezo pelos homens.

O caso estava solucionado, Hitchcock não é preciso sobre o futuro de Marnie cabendo ao público a reflexão final, se ela ia se livrar de suas compulsões, e como ela se acertaria com a lei. Tudo que sabemos é que agora ela sabia da verdade sobre a sua história de vida e seu passado.

O filme marca o fim das obras primas de Alfred Hitchcock, em alguns detalhes técnicos como cenários tem uma direção de um tanto ultrapassada para a época, no entanto, esta definitivamente não era a preocupação do diretor, que tinha a ideia de explorar o universo do subconsciente, adicionando isto a sua forma de montagem icônica, para  prender o espectador a suas narrativas.

Na obra o subconsciente é utilizado como possível lugar onde os medos moram, o medo que sempre foi matéria prima para Alfred Hitchcock, e que em Marnie, Confissões de uma ladra,  é revelado ao publico o que constrói o tom de suspense e do mistério. 

O filme que certamente foi polêmico na época, continua sendo nos dias atuais, e de extrema relevância, não só por seus aspectos fílmicos, mas também por sua relevância social, que nos leva a questionar e refletir sobre a posição das mulheres na sociedade o espaço que ela ocupa.   

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