quarta-feira, 26 de junho de 2019

O enigmático "Picnic na Montanha Misteriosa"



Dirigido por Peter Weir (Sociedade dos Poetas Mortos, O Show de Truman), Picnic na Montanha Misteriosa (Picnic at Hanging Rock, 1975)  é uma adaptação feita por Cliff Green do livro homônimo escrito por Joan Lindsay. Propositalmente ambíguo na grande questão sobre o que teria acontecido as personagens, Lindsay nunca foi clara em relação se os eventos ocorridos são baseados em histórias reais.


Em 14 de fevereiro de 1900, dia de São Valentin, um grupo de alunas do colégio Appleyard College saem para um passeio até a Hanging Rock, uma formação rochosa de origem vulcânica. Após um piquenique, um grupo de alunas, acompanhadas de uma professora, resolve explorar a rocha mais de perto até que ao entrarem em uma fenda, desaparecem misteriosamente.

Com essa sinopse convidativa e os dizeres a cima que surgem na tela antes da primeira imagem do filme,  Picnic na Montanha Misteriosa teria tudo para ser mais um filme de mistério, cuja investigação minuciosa levaria a uma descoberta espantosa e quem sabe até trágica. Mas não se engane. Um dos grandes trunfos desse filme australiano, é atmosfera única e hipnotizante, que facilmente nos prende.




O primeiro ato que antecede o conflito, é usado para criar uma ambientação onírica logo quando as alunas acordam e se arrumam para o passeio. A felicidade das personagens, juntamente com a música, também evocam essa sensação quase que fora da realidade.

“Uma história de fantasma sem os fantasmas, um enigma sem solução e uma história de repressão sexual, sem sexo”. Assim é definido o filme na primeira linha do texto escrito por Joshua Klein, que está na edição de 2016 do livro 1001 Movies You Must See Before You Die (1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer). Se você se pergunta a razão de assistir a um filme em que pouco será revelado para o espectador, a razão é simplesmente que poucos filmes conseguem ser bem realizados e afetar seu público justamente com aquilo que não se pode ver ou entender.

Do ponto de vista temático, essas meninas que desaparecem após passarem por uma fresta da rocha, pode ser entendido como justamente a passagem da inocência para a maturidade, ou até mesmo uma quebra da repressão sexual, caminho esse que não tem mais volta. Mas como esse momento chega para todos em momentos diferentes, temos em apenas quatro personagens (três, porque uma das alunas é depois encontrada) como as “escolhidas” para terem essa experiência.

Falando em experiência, nós também a sentimos graças a direção de Weir. Na montanha a atmosfera onírica se eleva quando as personagens, em especial as alunas que irão desaparecer, estão em contato com o lugar. A própria natureza ali presente é evocada e parece tomar conta das personagens, como se as mesmas estivessem em um transe. A fotografia (que contou com um véu por cima da lente da câmera), reforça ainda mais esse clima etéreo que hipnotiza até mesmo o espectador.

A personagem de Edith (Christine Schuler) é a única no grupo que não entre na fenda da pedra. Assustada, ela constantemente diz que quer ir embora e mostra não estar bem ali. Poderia essa reação da personagem representar o medo que às vezes podemos ter de amadurecer? Edith enxerga a rocha desde o início como algo ameaçador, que não acabará bem, enquanto as alunas e a professora nem se quer parecem se importar. Pelo contrário. Um momento de entrega se dá quando “as escolhidas” tiram suas meias e ficam descalças. Contato esse que frisa a ideia de que elas estão de fato preparadas para aquele momento. Irma (Karen Robson) no entanto, é encontrada depois de um tempo. Teria a personagem “desistido” de ir com as colegas no último momento, por ainda não se sentir preparada?



Teorias e teorias. Assim é Picnic na Montanha Misteriosa, um filme capaz de nos deixar pensando durante horas sobre interpretações diversas para os eventos ocorridos e que nos fará analisar e provavelmente rever o filme, para que possamos notar algo que tenha passado batido. Com uma história que se mostra mais eficiente justamente por não trazer respostas, o longa cumpre o seu papel ao fazer parte de um cinema que busca nos fazer questionar.

domingo, 9 de junho de 2019

A Sombra do Pai - terror brasileiro que vale a pena ser visto

Gabriela Amaral Almeida nasceu na Bahia e se formou na UFBA (Universidade Federal da Bahia). Em Cuba, se especializou em Roteiro na EICTV (Escuela Internacional de Cine y TV). Chamou a atenção da crítica com seu primeiro longa-metragem, O Animal Cordial (2017). Antes de ir para os longas, a cineasta também se destacou pelo seus curtas que renderam diversos prêmios em festivais, como o Festival de Paulínia, Prêmio Abraccine,  Festival Curta Cabo Frio, entre outros.
Agora com A Sombra do Pai (2019), Almeida usa claras referências de filmes que contribuíram para sua bagagem dentro do gênero que mais agrada a diretora: o terror. Como dito em algumas de suas entrevistas, Gabriela passou sua infância na era dourada para qualquer fã de cinema de horror, em que muitos clássicos passavam na TV aberta quase sem nenhuma preocupação com a faixa etária, fora as locadoras de bairro que ajudaram ainda mais no consumo desses clássicos.
Mesmo com tantas referências de filmes americanos, a diretora sabe adaptar tudo isso para o Brasil e a partir do olhar de uma família que represente uma família brasileira, assim como a quantidade de rituais e crenças tipicamente brasileiros que também estão presentes no filme. Já o medo, o desamparo e o luto, claro, são elementos universais que no filme são bem representados.
Dalva (Nina Medeiros) tem nove anos e vive com seu pai, Jorge (Júlio Machado) e sua tia, Cristina (Luciana Paes) em uma casa simples em São Paulo. O pai que trabalha como pedreiro em uma construção, perdeu a esposa há dois anos, mas ainda não superou a perda. Quando Cristina resolve sair de casa para viver com o namorado, Dalva fica só e se torna a responsável por tomar conta de seu pai e da casa.
Em Estátua! (2014), um dos curtas de Gabriela, a diretora também tocou em temas como negligência e apego, quando coloca uma menina por volta de nove anos de idade, aos cuidados de uma babá que está grávida. A mãe da menina, que trabalha como aeromoça, parece pouco se importar com ela.  
A atmosfera do filme inteiro é pesada e fúnebre. As primeiras cenas mostram Dalva desenterrando sua boneca enquanto o pai está no cemitério para a exumação dos restos mortais de sua esposa, para que os mesmos sejam colocados em uma gaveta. Em uma caixa estão uma correntinha, alguns dentes e a trança de sua mulher. Os itens, levados para casa por Jorge, por mais macabros que sejam para nossa cultura, são as lembranças que Dalva tem e guarda da falecida mãe.  
A casa simples, ganha tons acinzentados nas paredes e na fotografia, enquanto a câmera quando resolve mostra o imóvel por fora, fica no nível do chão. Talvez não para enaltecer o lugar, mas sim para mais uma vez fazer referência ao solo. O fúnebre acompanha até as expressões faciais de Dalva e Jorge, que estão quase sempre sem emoção e sérias. É nítido como o filme e o cinema de Gabriela, não tem interesse em chocar ou assustar (mesmo com o tema), optando mais por uma atmosfera carregada, estranha e desconfortável.
O elemento da fantasia no longa, como ponto de vista da menina, pontua a falta que a mesma sente da mãe falecida e do pai ausente. Sua ligação com a morte se estende para os filmes que assiste. A Noite dos Mortos Vivos e Cemitério Maldito, são referências importantes para a diretora, que estudou toda a obra de Stephen King. Os temas e cenas pontuais desses filmes são exibidos na TV da sala da casa de Dalva, que mesmo com medo, abraça a ideia de que alguém morto possa voltar. Essa mistura do macabro com questões emocionais e tão universais para nós, parece ser uma marca da cineasta.
Importante apontar como o pai de Dalva vai aos poucos se parecendo com um zumbi. O andar levemente desengonçado, a palidez e a falta de expressão, são aqui no filme, fruto do excesso do trabalho que exausta Jorge e impede o personagem de ter um tempo com a família e muito menos de ter tempo para absorver melhor a morte da esposa. A alegoria do zumbi o transforma em um escravo do capitalismo, como disse a cineasta, ao mesmo tempo em que a criatura morta e viva faz parte do imaginário de Dalva.
A Sombra do Pai é mais uma prova (junto com Mate-me Por FavorTrabalhar CansaAs Boas ManeirasO Animal Cordeal) de como o cinema de gênero, tão pouco realizado no Brasil, tem capacidade de usar o terror para abordar questões sociais sérias e pertinentes. Só resta a qualquer fã desse gênero, dar valor também ao que é nosso. 

domingo, 26 de maio de 2019

Santiago: um documentário raro dentro do cinema brasileiro


Santiago (2007) aparece na lista dos 100 Melhores Filmes Brasileiros. A escolha é o resultado de uma inquirição realizada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), que contou com a participação dos principais críticos de cinema do Brasil, como  Pablo Villaça, Celso Sabadin, Amir Labaki, Francisco Russo, João Batista de Brito, Rubens Ewald Filho e Jean-Claude Bernardet. A lista virou o livro Os 100 Melhores Filmes Brasileiros, que conta com ensaios sobre os filmes escolhidos.
Dirigido por João Moreira Salles, irmão de Walter Salles, o documentário fala sobre Santiago, o mordomo que trabalhou na casa dos pais de João e Walter quando os mesmos ainda eram crianças. Nascido na Argentina em 1912, Santiago Badariotti Merlo colecionava (literalmente) diversas história sobre as famílias para quem trabalhou e suas experiências em outros países.
Em 1992, João Moreira Salles filma as histórias de seu antigo mordomo para realizar o documentário sobre sua vida. Dois anos depois, Santiago acaba falecendo e Salles não sentiu na época que aquele seria o momento certo de trabalhar em seu filme. O material filmado só virou um filme pronto em 2007, quando em 2005 ele resolve pegar o material guardado durante treze anos, editá-lo e dar outro sentido a ele.
O resultado é um documentário reflexivo, já que há uma narração com as ideias do próprio João Moreira Salles, questionando o próprio material que ele tinha nas mãos e os rumos e ideias que contribuíram para uma evolução do próprio documentário. Como cita Bill Nichols no livro Introdução ao Documentário, lançado em 2001, o documentário reflexivo, nega a premissa da capacidade da câmera de representação fiel da realidade. Esse modo estimula a consciência do espectador a respeito do modo de se fazer documentários. Segundo Nichols, “o modo reflexivo é o modo de representação mais consciente de si mesmo e aquele que mais se questiona”.
Santiago já seria excelente apenas pela peculiaridade de seu único personagem e suas histórias cheias de saudosismo e pinceladas de melancolia. A eloquência do mordomo e a alegria ao contar suas histórias, às vezes nos transporta  para os lugares e situações que são narrados pelo homem. Trabalhando para tantas famílias durante muitos anos, Santiago tinha orgulho em ter servido tantas pessoas importantes.
Esse tempo que levou para que o longa finalmente ficasse pronto, não poderia ter sido mais benéfico para a obra. Nota-se o amadurecimento e aprendizado para o próprio cineasta, que ao se aproximar mais de seu material depois de tantos anos, acaba evidentemente se aproximando mais de Santiago e conseguindo dar ao filme uma profundidade muito maior do a que poderia ter tido, caso essa pausa não tivesse ocorrido.
O modo reflexivo e ensaístico de Santiago, e como o filme reflete seu próprio conteúdo, faz o próprio espectador refletir sobre o fazer do longa. Isso é sem dúvida um dos pontos altos do filme, já que temos praticamente uma espécie de “making of” do documentário, mas mais no sentido intelectual do que no sentido técnico.
Há esse reconhecimento constante do próprio diretor sobre assuntos que não iriam fazer parte da ideia original do filme, mas que agora fazem parte dele. Além do amadurecimento do diretor diante da obra, como já citado acima, talvez possamos notar um pedido de desculpas do próprio João Moreira Salles (pela forma rude que sua equipe o tratou na época, durante as filmagens) a Santiago e uma homenagem ao mordomo.
Santiago é a prova que documentários podem nos informar, mas também ir mais além, ao dar ao espectador uma experiência e emoções que possam nos tirem de uma zona de conforto e não enxergar o filme apenas com um simples registro da vida de seu personagem.

domingo, 5 de maio de 2019


The Hole in the Ground: uma metáfora para os conflitos familiares

Primeiro longa do cineasta irlandês Lee Cronin, The Hole in the Ground (2019), O Buraco no Chão, na tradução livre, teve sua estreia no Festival de Sundance em janeiro deste ano. A A24  e a DirecTV Cinema, adquiriram os direitos de distribuição do filme nos EUA, que lançou o longa nos cinemas de lá em março. Infelizmente não houve uma exibição aqui no Brasil, mas a crítica elogiou o trabalho de Cronin, que conta com alguns curtas no currículo, como o premiado Ghost Train (2013), que ganhou o prêmio Méliès d'Argent de melhor Curta-Metragem Fantástico Europeu.
Sarah O'Neill (Seána Kerslake) e seu filho Chris (James Quinn Markey), saem aparentemente às pressas para o interior da Irlanda, depois de Sarah recentemente sair de uma relação abusiva com seu ex-marido e pai de Chris. Mãe e filho tentam começar uma vida nova em uma casa alugada que fica perto de uma grande floresta, onde um enorme buraco pode ser encontrado bem no meio do local. Quando Chris descobre a floresta e consequentemente o buraco, o menino passa a ter seu comportamento mudado, se tornando uma criança sinistra e violenta.

Em entrevista para o site Awards Daily, Cronin falou sobre a inspiração na mitologia celta, especificamente a do Changeling, lenda folclórica que trata da troca de crianças. Geralmente uma fada levava uma criança do berço e em troca deixava um objeto ou até mesmo uma outra fada , já velha, enquanto o bebê verdadeiro iria viver com outras fadas. Em The Hole in the Ground no entanto, o diretor trabalhou apenas a questão da troca, deixando de lado as fadas e criando um enorme buraco no chão que é o culpado de tudo.
Não é a primeira vez que o terror usa de seus elementos para falar de dramas e aflições reais da vida cotidiana. The Babadook (2014), de Jennifer Kent, ficou bem conhecido no Brasil ao criar um realismo fantástico de um monstro que servia como uma metáfora para os problemas enfrentados por uma mãe durante a difícil fase de relacionamento com seu filho de seis anos.

The Hole in the Ground tem suas semelhanças com o filme de Kent. Somos colocados no universo do filme já de início, quando Chris está em um parque de diversões brincando em frente a um espelho que distorce sua imagem. Em uma cena em que o carro de Sarah está em na estrada a caminho da nova cidade, a imagem aérea do carro, deixa visível duas estradas, já transpondo essa ideia de duplo, assim como no espelho. Em seguida, a imagem é invertida colocando o carro em cima e o céu embaixo, frisando a ideia desse mundo dos personagens que sofrerá um grande transtorno, ao mesmo tempo em que coloca o próprio céu como um imenso “buraco”.

Não faltam alguns elementos até típicos do gênero, como a senhorinha sinistra que diz coisas sem sentido, até que mais adiante tudo começa a fazer sentido para o protagonista, além de claro, a criança estranha. Sarah se esforça para ao mesmo tempo em que tenta recomeçar, tenta lidar com a criação do filho, que em um primeiro momento se mostra uma criança mais reservada e que não consegue fazer amigos. O garoto fica magoado quando percebe que sua mãe mentiu para ele ao falar sobre o pai, dizendo que o mesmo estava logo atrás deles no caminho para a nova casa. O filme por um lado deixa as coisas mais abstratas, mas não a ponto de ficarmos sem saber o que está acontecendo. Para um bom entendedor, meia palavra, basta.
Permitindo uma leitura superficial, temos mãe e filho tentando lidar com acontecimentos fantásticos que acabam abalando a convivência deles. Mas se tentarmos aprofundarmos mais essas questões, podemos perceber que o filme usa esse tom sobrenatural para falar sobre a dificuldade da separação e de como criar um filho enquanto isso acontece. Sarah parece ter simplesmente fugido sem de fato lidar com seus problemas e resolvê-los para depois sim, ir embora. O longa coloca essa mudança precoce como um ato que ainda não foi amadurecido, principalmente como o roteiro espelha a mudança brusca e sinistra de Chris. A própria reação do menino, que vai ficando mais violento com o passar do tempo, sugere uma preocupação de como o garoto está absorvendo a situação toda e até mesmo o medo da mãe de que seu filho se torne alguém violento no futuro.
Sem buscar explicar tudo o que acontece, The Hole in the Ground ainda sim é um filme interessante que explora bem as dificuldades na relação entre mãe e filho, durante um período delicado na vida de ambos.  

terça-feira, 30 de abril de 2019

Dica de série: Areia movediça

A dica de série dessa semana é “Areia movediça” nova série da Netflix que estreou no dia 5 de abril, baseada no livro de mesmo titulo, de Malin Persson Giolito.

 A série é uma produção sueca, dirigida por Per-Olav Sorensen e Lisa Farzaneh, com seis episódios intrigantes na temporada de estréia, Areia movediça não deixou á desejar, ainda não sabemos se terá uma segunda temporada, mas vamos torcer. (dedos cruzados)

O enredo da série é sobre o caso de Mija Norberg (Hanna Ardéhn), uma garota aparentemente normal que está passando por um julgamento, por causa de um atentado violento que ocorreu na escola na qual ela estudava. No decorrer da série conseguimos identificar melhor cada personagem e entender mais sobre suas histórias.



A série traz temas muito relevantes para o debate atual, como relacionamentos abusivos, uso excessivo de drogas, preconceito racial e de classe. E esses temas são abordados de forma clara, o que faz o espectador acreditar que já sabe tudo o que aconteceu logo de cara. Mas ao longo da história vamos mudando de opinião, algumas vezes, o que torna a trama mais envolvente.

O relacionamento de Mija com seu novo namorado Sebastian (Felix Sandman), dá a volta as aulas uma emoção a mais, na vida da garota, porém nem todo mundo na escola,  é fã do rapaz rico que dá muitas festas na mansão do seu pai e não se importa muito com vida escolar.



Sebastian tem uma vida diferente do que todos na escola acham, embora seja apresentado na série como um garoto educado e apaixonado por Mija, logo vemos que não é apenas isso, e sua vida tem várias perturbações que acabam por atingir também a vida de Mija. 

Por conta da  montagem da série, não conseguimos identificar logo o que está acontecendo ,e isso dá um tom de mistério aos acontecimentos, ao mesmo tempo em que temos Mija sendo preparada e interrogada para o julgamento, vemos também o que aconteceu em sua vida antes do ocorrido na escola. Podemos acompanhar as investigações na perspectiva de Mija.

Cada episódio nos deixa com a sensação de que faltam informações para a solucionar o caso, causando no expectador uma vontade imediata de assistir ao próximo episódio, em busca de mais detalhes da história, o que faz a série ser devorada em apenas um dia. 

Os eventos que se procede depois do atentado te faz ter compaixão e ao mesmo tempo falta de paciência com a protagonista. Areia movediça é muito bem conduzida, fazendo com que sintamos todos as emoções e confusões vividas por Mija, enquanto assistimos a série.

Então se você ainda não tem o que fazer nesse feriado de 1° de maio. Te indico essa ótima série da Netflix e não esqueça o lencinho!

Texto de: Nadine Roberta 
Nossa nova redatora blogueira :)

domingo, 21 de abril de 2019

Na Netflix: "Beach Rats": quando a sexualidade não é resolvida



Dirigido por Eliza Hittman, Ratos de Praia (Beach Rats, 2017) está disponível na Netflix. O drama conta a história do jovem Frankie (Harris Dickinson ), um adolescente que vive no Brooklyn e que gosta de entrar em sites de performances ao vivo de nudez para conhecer caras mais velhos. Sem muita expectativa na vida, Frankie passa boa parte do seu tempo com seus amigos jogando conversa fora ou usando drogas.
“Eu não sei bem do que eu gosto”. Essa é a primeira frase dita pelo protagonista. O cinema já abordou diversas questões que envolvem sexualidade, como a descoberta da mesma e um amadurecimento que fará com que o protagonista fique bem consigo mesmo e acima de tudo, busque sua aceitação. Em Ratos de Praia, as coisas são um pouco diferentes.
O longa não está preocupado com uma narrativa mais convencional e opta apenas por ilustrar a vida de Frankie e de seus amigos durante dias. Basicamente o rapaz e seus amigos, passam os dias na ociosidade, andando por um parque de diversões, usando drogas e até praticando pequenos furtos. Mesmo com esse retrato bem naturalista da vida de alguns jovens sem perspectiva, o que obviamente nos prende ao filme é o estudo do personagem principal e de sua sexualidade.
Simone (Madeline Weinstein) surge como o possível interesse amoroso de Frankie, que obviamente esconde da namorada e de seus amigos preconceituosos sua condição sexual também voltada para a homossexualidade. Vemos um protagonista em total desconexão com uma perspectiva de vida e que pouco entende ou reflete sobre sua própria sexualidade. Quando o mesmo está com Simone, é nítido seu desconforto e até desinteresse. Ao mesmo tempo, Frankie parece se sentir culpado por isso e até se esforça (talvez para também impressionar os amigos) para agradar a namorada.
Já quando está conversando online com homens mais velhos, às vezes até marcando encontro com eles, Frankie se torna um personagem sempre à margem. Mesmo tendo seu quarto, ele prefere conversar com os caras em um porão onde fica seu computador e uma outra cama. A fotografia reforça tudo isso trabalhando muito o uso de sombras e tons acinzentados e azuis. Os caras que aparecem na câmera costuma pedir para que Frankie se mostre melhor para eles, já que o rapaz tem o costume de deixar o ambiente à meia luz. Os corpos nus e seminus dos homens são sempre vistos através da tela do computador, como se colocassem o real desejo do protagonista sempre em um lugar inalcançável. Mesmo em cenas em que ele está tendo relações sexuais com alguém, a própria cena em si acontece à noite e perto da praia. A câmera constantemente sai de foco enquanto mostra o seu rosto e planos detalhe de partes dos corpos sem roupa. A cena em si busca tanto um erotismo como algo “frio” e momentâneo.
Outro lugar marcante no filme, é o parque de diversões. As diversas cores e o ambiente tido como harmonioso e agradável, parecem pouco entrar em contexto com a atmosfera que emana de Frankie. É lá aliás que ele conhece Simone. A jovem observa os fogos de artificio e chama de romântica toda a situação, enquanto flerta com Frankie, que pouco se importa com os fogos, dizendo que “a cada ano, é tudo a mesma coisa”. Esse fogos serão mostrados novamente no encerramento do filme, apresentando um outro contexto com o personagem. 
Se de um lado temos Simone, do outro o personagem Harry (Douglas Everett Davis) que aparece na vida do protagonista, representando um ponto de esperança para o espectador de que através desse personagem, Frankie consiga de uma vez por todas, abrir mais a sua vida e seus sentimentos. Em um encontro um pouco mais afetuoso entre Frankie e Harry, a cena de intimidade entre os dois acontece em um quarto onde até as luzes são mais quentes e a cena é toda conduzida para tirar o personagem da “clandestinidade”.
Depois de se envolver em um problema em que as consequências ficam ambíguas para o espectador, temos de volta os fogos no parque de diversão. Frankie que antes pouco se importava com eles (como uma metáfora de sua ignorância com relação a si mesmo e a seus atos) agora passa a olhá-los como sinal de alguém que talvez tenha despertado para a vida. Tarde demais? Talvez, já que os fogos do nada param, restando apenas uma fumaça no céu que vai aos poucos dissipando.
Ratos de Praia pode até ser um retrato pouco esperançoso da descoberta e exploração da sexualidade de seu protagonista, podendo até causar no espectador uma falta de empatia por Frankie. Porém, a forma com que lida com isso, é bem diferente do que se costuma ver na grande maioria dos filmes que abordam essa temática. Por isso, vale a pena conferir o longa e se deixar levar por essa exploração bem honesta e natural.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Dica de série: Killing Eve


A dica de série dessa semana é a série Killing Eve, que teve muito destaque no ano de 2018 e acabou entrando para as listas das melhores séries produzidas no ano passado. Uma maior visibilidade veio ainda após diversas indicações e premiações na temporada de premiações da TV mundial, incluindo o Globo de Ouro 2019 para a protagonista da série Sandra Oh, atriz já conhecida pelo grande público por participar da série Grey’s Anattomy na qual interpretou a Christina.



Killing Eve é baseada no livro Codename Villanelle do autor britânico Luke Jennings. Ai adaptação para a TV ficou por conta da jovem diretora, atriz, roteirista e produtora Phobe Waller-Bridge, que vem ganhado destaque com trabalhos cada vez mais sólidos, tanto no cinema quanto na televisão, conseguindo imprimir sua marca registrada em suas produções com fortes traços de humor ácido e inteligente.

Phoebe Waller Bridge

A história se trata de um drama com suspense, no qual Eve Polastri (Sandra Oh) uma policial sagaz e intuitiva, que costuma “meter os pés pelas mãos” em suas investigações, é demitida de seu departamento por insistir em suas teorias a respeito de um caso de assassinatos em séries, no qual estava trabalhando. Ela insiste que os crimes provavelmente são cometidos por uma mulher, ideia essa que é rapidamente rejeitada por seus superiores, já que eles não acreditam que uma mulher poderia ser uma Serial Killer tão habilidosa.

Após a sua demissão, Eve é contratada por Carolyn Martens (Fiona Shaw), uma agente secreta da divisão do serviço secreto britânico, que percebe em Eve um grande potencial, deixando-a chefiar uma equipe para investigar os assassinatos misteriosos que estão ocorrendo por toda a Europa. Logo a intuição de Eve é confirma e os crimes são de fato cometidos por uma mulher. O que havia começado como uma intuição da teimosa Eve se confirma, e a trama passa a girar em torno da obsessão dela em capturar a assassina cruel e virtuosa.

A série trabalha por dois pontos de vista: o de Eve, e o da Villanelle (Jodie Comer), a assassina de aluguel treinada por facções criminosas internacionais.
Villanelle é um personagem muito interessante, com traços de psicopatia, uma jovem bonita que tem paixão por seu trabalho e procura exercê-lo “da melhor forma” possível, o que dá à personagem um lado sombrio que é compensado por sua personalidade forte e bem humorada, que apesar de trabalhar para facções criminosas é apaixonada por moda e um estilo de vida luxuoso, que é bancado por seus serviços pouco convencionais.



O Atrito entre Eve e Villanelle é o que move a série, que aumenta o tom de suspense conforme a obsessão de uma em relação a outra vai ficando cada vez maior e intensa, em quase um jogo de gato e rato.


No desenrolar da série os personagens vão se mostrando mais complexos e a história passa a ganhar vários desdobramentos, o que a torna envolvente do primeiro ao último episódio.
O grande forte de Killig Eve está no roteiro e na poderosa criação dos personagens. A série ainda tem uma linda fotografia, direção de arte e montagem que contribuem muito para criar uma linda mis-en-scène.

A segunda temporada de Killing Eve estreia no dia sete de abril de 2019 pela BBC America. Atualmente no Brasil a série é exibida pelo serviço de streaming da globo, a Globoplay.








Erotismo e a cidade: Vidas nuas (1967) de Ody Fraga

  O aspecto mais interessante em Vidas nuas é a fluidez como a cidade de São Paulo é filmada, desde seu primeiro plano quando temos acesso ...