domingo, 26 de maio de 2019

Santiago: um documentário raro dentro do cinema brasileiro


Santiago (2007) aparece na lista dos 100 Melhores Filmes Brasileiros. A escolha é o resultado de uma inquirição realizada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), que contou com a participação dos principais críticos de cinema do Brasil, como  Pablo Villaça, Celso Sabadin, Amir Labaki, Francisco Russo, João Batista de Brito, Rubens Ewald Filho e Jean-Claude Bernardet. A lista virou o livro Os 100 Melhores Filmes Brasileiros, que conta com ensaios sobre os filmes escolhidos.
Dirigido por João Moreira Salles, irmão de Walter Salles, o documentário fala sobre Santiago, o mordomo que trabalhou na casa dos pais de João e Walter quando os mesmos ainda eram crianças. Nascido na Argentina em 1912, Santiago Badariotti Merlo colecionava (literalmente) diversas história sobre as famílias para quem trabalhou e suas experiências em outros países.
Em 1992, João Moreira Salles filma as histórias de seu antigo mordomo para realizar o documentário sobre sua vida. Dois anos depois, Santiago acaba falecendo e Salles não sentiu na época que aquele seria o momento certo de trabalhar em seu filme. O material filmado só virou um filme pronto em 2007, quando em 2005 ele resolve pegar o material guardado durante treze anos, editá-lo e dar outro sentido a ele.
O resultado é um documentário reflexivo, já que há uma narração com as ideias do próprio João Moreira Salles, questionando o próprio material que ele tinha nas mãos e os rumos e ideias que contribuíram para uma evolução do próprio documentário. Como cita Bill Nichols no livro Introdução ao Documentário, lançado em 2001, o documentário reflexivo, nega a premissa da capacidade da câmera de representação fiel da realidade. Esse modo estimula a consciência do espectador a respeito do modo de se fazer documentários. Segundo Nichols, “o modo reflexivo é o modo de representação mais consciente de si mesmo e aquele que mais se questiona”.
Santiago já seria excelente apenas pela peculiaridade de seu único personagem e suas histórias cheias de saudosismo e pinceladas de melancolia. A eloquência do mordomo e a alegria ao contar suas histórias, às vezes nos transporta  para os lugares e situações que são narrados pelo homem. Trabalhando para tantas famílias durante muitos anos, Santiago tinha orgulho em ter servido tantas pessoas importantes.
Esse tempo que levou para que o longa finalmente ficasse pronto, não poderia ter sido mais benéfico para a obra. Nota-se o amadurecimento e aprendizado para o próprio cineasta, que ao se aproximar mais de seu material depois de tantos anos, acaba evidentemente se aproximando mais de Santiago e conseguindo dar ao filme uma profundidade muito maior do a que poderia ter tido, caso essa pausa não tivesse ocorrido.
O modo reflexivo e ensaístico de Santiago, e como o filme reflete seu próprio conteúdo, faz o próprio espectador refletir sobre o fazer do longa. Isso é sem dúvida um dos pontos altos do filme, já que temos praticamente uma espécie de “making of” do documentário, mas mais no sentido intelectual do que no sentido técnico.
Há esse reconhecimento constante do próprio diretor sobre assuntos que não iriam fazer parte da ideia original do filme, mas que agora fazem parte dele. Além do amadurecimento do diretor diante da obra, como já citado acima, talvez possamos notar um pedido de desculpas do próprio João Moreira Salles (pela forma rude que sua equipe o tratou na época, durante as filmagens) a Santiago e uma homenagem ao mordomo.
Santiago é a prova que documentários podem nos informar, mas também ir mais além, ao dar ao espectador uma experiência e emoções que possam nos tirem de uma zona de conforto e não enxergar o filme apenas com um simples registro da vida de seu personagem.

domingo, 5 de maio de 2019


The Hole in the Ground: uma metáfora para os conflitos familiares

Primeiro longa do cineasta irlandês Lee Cronin, The Hole in the Ground (2019), O Buraco no Chão, na tradução livre, teve sua estreia no Festival de Sundance em janeiro deste ano. A A24  e a DirecTV Cinema, adquiriram os direitos de distribuição do filme nos EUA, que lançou o longa nos cinemas de lá em março. Infelizmente não houve uma exibição aqui no Brasil, mas a crítica elogiou o trabalho de Cronin, que conta com alguns curtas no currículo, como o premiado Ghost Train (2013), que ganhou o prêmio Méliès d'Argent de melhor Curta-Metragem Fantástico Europeu.
Sarah O'Neill (Seána Kerslake) e seu filho Chris (James Quinn Markey), saem aparentemente às pressas para o interior da Irlanda, depois de Sarah recentemente sair de uma relação abusiva com seu ex-marido e pai de Chris. Mãe e filho tentam começar uma vida nova em uma casa alugada que fica perto de uma grande floresta, onde um enorme buraco pode ser encontrado bem no meio do local. Quando Chris descobre a floresta e consequentemente o buraco, o menino passa a ter seu comportamento mudado, se tornando uma criança sinistra e violenta.

Em entrevista para o site Awards Daily, Cronin falou sobre a inspiração na mitologia celta, especificamente a do Changeling, lenda folclórica que trata da troca de crianças. Geralmente uma fada levava uma criança do berço e em troca deixava um objeto ou até mesmo uma outra fada , já velha, enquanto o bebê verdadeiro iria viver com outras fadas. Em The Hole in the Ground no entanto, o diretor trabalhou apenas a questão da troca, deixando de lado as fadas e criando um enorme buraco no chão que é o culpado de tudo.
Não é a primeira vez que o terror usa de seus elementos para falar de dramas e aflições reais da vida cotidiana. The Babadook (2014), de Jennifer Kent, ficou bem conhecido no Brasil ao criar um realismo fantástico de um monstro que servia como uma metáfora para os problemas enfrentados por uma mãe durante a difícil fase de relacionamento com seu filho de seis anos.

The Hole in the Ground tem suas semelhanças com o filme de Kent. Somos colocados no universo do filme já de início, quando Chris está em um parque de diversões brincando em frente a um espelho que distorce sua imagem. Em uma cena em que o carro de Sarah está em na estrada a caminho da nova cidade, a imagem aérea do carro, deixa visível duas estradas, já transpondo essa ideia de duplo, assim como no espelho. Em seguida, a imagem é invertida colocando o carro em cima e o céu embaixo, frisando a ideia desse mundo dos personagens que sofrerá um grande transtorno, ao mesmo tempo em que coloca o próprio céu como um imenso “buraco”.

Não faltam alguns elementos até típicos do gênero, como a senhorinha sinistra que diz coisas sem sentido, até que mais adiante tudo começa a fazer sentido para o protagonista, além de claro, a criança estranha. Sarah se esforça para ao mesmo tempo em que tenta recomeçar, tenta lidar com a criação do filho, que em um primeiro momento se mostra uma criança mais reservada e que não consegue fazer amigos. O garoto fica magoado quando percebe que sua mãe mentiu para ele ao falar sobre o pai, dizendo que o mesmo estava logo atrás deles no caminho para a nova casa. O filme por um lado deixa as coisas mais abstratas, mas não a ponto de ficarmos sem saber o que está acontecendo. Para um bom entendedor, meia palavra, basta.
Permitindo uma leitura superficial, temos mãe e filho tentando lidar com acontecimentos fantásticos que acabam abalando a convivência deles. Mas se tentarmos aprofundarmos mais essas questões, podemos perceber que o filme usa esse tom sobrenatural para falar sobre a dificuldade da separação e de como criar um filho enquanto isso acontece. Sarah parece ter simplesmente fugido sem de fato lidar com seus problemas e resolvê-los para depois sim, ir embora. O longa coloca essa mudança precoce como um ato que ainda não foi amadurecido, principalmente como o roteiro espelha a mudança brusca e sinistra de Chris. A própria reação do menino, que vai ficando mais violento com o passar do tempo, sugere uma preocupação de como o garoto está absorvendo a situação toda e até mesmo o medo da mãe de que seu filho se torne alguém violento no futuro.
Sem buscar explicar tudo o que acontece, The Hole in the Ground ainda sim é um filme interessante que explora bem as dificuldades na relação entre mãe e filho, durante um período delicado na vida de ambos.  

terça-feira, 30 de abril de 2019

Dica de série: Areia movediça

A dica de série dessa semana é “Areia movediça” nova série da Netflix que estreou no dia 5 de abril, baseada no livro de mesmo titulo, de Malin Persson Giolito.

 A série é uma produção sueca, dirigida por Per-Olav Sorensen e Lisa Farzaneh, com seis episódios intrigantes na temporada de estréia, Areia movediça não deixou á desejar, ainda não sabemos se terá uma segunda temporada, mas vamos torcer. (dedos cruzados)

O enredo da série é sobre o caso de Mija Norberg (Hanna Ardéhn), uma garota aparentemente normal que está passando por um julgamento, por causa de um atentado violento que ocorreu na escola na qual ela estudava. No decorrer da série conseguimos identificar melhor cada personagem e entender mais sobre suas histórias.



A série traz temas muito relevantes para o debate atual, como relacionamentos abusivos, uso excessivo de drogas, preconceito racial e de classe. E esses temas são abordados de forma clara, o que faz o espectador acreditar que já sabe tudo o que aconteceu logo de cara. Mas ao longo da história vamos mudando de opinião, algumas vezes, o que torna a trama mais envolvente.

O relacionamento de Mija com seu novo namorado Sebastian (Felix Sandman), dá a volta as aulas uma emoção a mais, na vida da garota, porém nem todo mundo na escola,  é fã do rapaz rico que dá muitas festas na mansão do seu pai e não se importa muito com vida escolar.



Sebastian tem uma vida diferente do que todos na escola acham, embora seja apresentado na série como um garoto educado e apaixonado por Mija, logo vemos que não é apenas isso, e sua vida tem várias perturbações que acabam por atingir também a vida de Mija. 

Por conta da  montagem da série, não conseguimos identificar logo o que está acontecendo ,e isso dá um tom de mistério aos acontecimentos, ao mesmo tempo em que temos Mija sendo preparada e interrogada para o julgamento, vemos também o que aconteceu em sua vida antes do ocorrido na escola. Podemos acompanhar as investigações na perspectiva de Mija.

Cada episódio nos deixa com a sensação de que faltam informações para a solucionar o caso, causando no expectador uma vontade imediata de assistir ao próximo episódio, em busca de mais detalhes da história, o que faz a série ser devorada em apenas um dia. 

Os eventos que se procede depois do atentado te faz ter compaixão e ao mesmo tempo falta de paciência com a protagonista. Areia movediça é muito bem conduzida, fazendo com que sintamos todos as emoções e confusões vividas por Mija, enquanto assistimos a série.

Então se você ainda não tem o que fazer nesse feriado de 1° de maio. Te indico essa ótima série da Netflix e não esqueça o lencinho!

Texto de: Nadine Roberta 
Nossa nova redatora blogueira :)

domingo, 21 de abril de 2019

Na Netflix: "Beach Rats": quando a sexualidade não é resolvida



Dirigido por Eliza Hittman, Ratos de Praia (Beach Rats, 2017) está disponível na Netflix. O drama conta a história do jovem Frankie (Harris Dickinson ), um adolescente que vive no Brooklyn e que gosta de entrar em sites de performances ao vivo de nudez para conhecer caras mais velhos. Sem muita expectativa na vida, Frankie passa boa parte do seu tempo com seus amigos jogando conversa fora ou usando drogas.
“Eu não sei bem do que eu gosto”. Essa é a primeira frase dita pelo protagonista. O cinema já abordou diversas questões que envolvem sexualidade, como a descoberta da mesma e um amadurecimento que fará com que o protagonista fique bem consigo mesmo e acima de tudo, busque sua aceitação. Em Ratos de Praia, as coisas são um pouco diferentes.
O longa não está preocupado com uma narrativa mais convencional e opta apenas por ilustrar a vida de Frankie e de seus amigos durante dias. Basicamente o rapaz e seus amigos, passam os dias na ociosidade, andando por um parque de diversões, usando drogas e até praticando pequenos furtos. Mesmo com esse retrato bem naturalista da vida de alguns jovens sem perspectiva, o que obviamente nos prende ao filme é o estudo do personagem principal e de sua sexualidade.
Simone (Madeline Weinstein) surge como o possível interesse amoroso de Frankie, que obviamente esconde da namorada e de seus amigos preconceituosos sua condição sexual também voltada para a homossexualidade. Vemos um protagonista em total desconexão com uma perspectiva de vida e que pouco entende ou reflete sobre sua própria sexualidade. Quando o mesmo está com Simone, é nítido seu desconforto e até desinteresse. Ao mesmo tempo, Frankie parece se sentir culpado por isso e até se esforça (talvez para também impressionar os amigos) para agradar a namorada.
Já quando está conversando online com homens mais velhos, às vezes até marcando encontro com eles, Frankie se torna um personagem sempre à margem. Mesmo tendo seu quarto, ele prefere conversar com os caras em um porão onde fica seu computador e uma outra cama. A fotografia reforça tudo isso trabalhando muito o uso de sombras e tons acinzentados e azuis. Os caras que aparecem na câmera costuma pedir para que Frankie se mostre melhor para eles, já que o rapaz tem o costume de deixar o ambiente à meia luz. Os corpos nus e seminus dos homens são sempre vistos através da tela do computador, como se colocassem o real desejo do protagonista sempre em um lugar inalcançável. Mesmo em cenas em que ele está tendo relações sexuais com alguém, a própria cena em si acontece à noite e perto da praia. A câmera constantemente sai de foco enquanto mostra o seu rosto e planos detalhe de partes dos corpos sem roupa. A cena em si busca tanto um erotismo como algo “frio” e momentâneo.
Outro lugar marcante no filme, é o parque de diversões. As diversas cores e o ambiente tido como harmonioso e agradável, parecem pouco entrar em contexto com a atmosfera que emana de Frankie. É lá aliás que ele conhece Simone. A jovem observa os fogos de artificio e chama de romântica toda a situação, enquanto flerta com Frankie, que pouco se importa com os fogos, dizendo que “a cada ano, é tudo a mesma coisa”. Esse fogos serão mostrados novamente no encerramento do filme, apresentando um outro contexto com o personagem. 
Se de um lado temos Simone, do outro o personagem Harry (Douglas Everett Davis) que aparece na vida do protagonista, representando um ponto de esperança para o espectador de que através desse personagem, Frankie consiga de uma vez por todas, abrir mais a sua vida e seus sentimentos. Em um encontro um pouco mais afetuoso entre Frankie e Harry, a cena de intimidade entre os dois acontece em um quarto onde até as luzes são mais quentes e a cena é toda conduzida para tirar o personagem da “clandestinidade”.
Depois de se envolver em um problema em que as consequências ficam ambíguas para o espectador, temos de volta os fogos no parque de diversão. Frankie que antes pouco se importava com eles (como uma metáfora de sua ignorância com relação a si mesmo e a seus atos) agora passa a olhá-los como sinal de alguém que talvez tenha despertado para a vida. Tarde demais? Talvez, já que os fogos do nada param, restando apenas uma fumaça no céu que vai aos poucos dissipando.
Ratos de Praia pode até ser um retrato pouco esperançoso da descoberta e exploração da sexualidade de seu protagonista, podendo até causar no espectador uma falta de empatia por Frankie. Porém, a forma com que lida com isso, é bem diferente do que se costuma ver na grande maioria dos filmes que abordam essa temática. Por isso, vale a pena conferir o longa e se deixar levar por essa exploração bem honesta e natural.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Dica de série: Killing Eve


A dica de série dessa semana é a série Killing Eve, que teve muito destaque no ano de 2018 e acabou entrando para as listas das melhores séries produzidas no ano passado. Uma maior visibilidade veio ainda após diversas indicações e premiações na temporada de premiações da TV mundial, incluindo o Globo de Ouro 2019 para a protagonista da série Sandra Oh, atriz já conhecida pelo grande público por participar da série Grey’s Anattomy na qual interpretou a Christina.



Killing Eve é baseada no livro Codename Villanelle do autor britânico Luke Jennings. Ai adaptação para a TV ficou por conta da jovem diretora, atriz, roteirista e produtora Phobe Waller-Bridge, que vem ganhado destaque com trabalhos cada vez mais sólidos, tanto no cinema quanto na televisão, conseguindo imprimir sua marca registrada em suas produções com fortes traços de humor ácido e inteligente.

Phoebe Waller Bridge

A história se trata de um drama com suspense, no qual Eve Polastri (Sandra Oh) uma policial sagaz e intuitiva, que costuma “meter os pés pelas mãos” em suas investigações, é demitida de seu departamento por insistir em suas teorias a respeito de um caso de assassinatos em séries, no qual estava trabalhando. Ela insiste que os crimes provavelmente são cometidos por uma mulher, ideia essa que é rapidamente rejeitada por seus superiores, já que eles não acreditam que uma mulher poderia ser uma Serial Killer tão habilidosa.

Após a sua demissão, Eve é contratada por Carolyn Martens (Fiona Shaw), uma agente secreta da divisão do serviço secreto britânico, que percebe em Eve um grande potencial, deixando-a chefiar uma equipe para investigar os assassinatos misteriosos que estão ocorrendo por toda a Europa. Logo a intuição de Eve é confirma e os crimes são de fato cometidos por uma mulher. O que havia começado como uma intuição da teimosa Eve se confirma, e a trama passa a girar em torno da obsessão dela em capturar a assassina cruel e virtuosa.

A série trabalha por dois pontos de vista: o de Eve, e o da Villanelle (Jodie Comer), a assassina de aluguel treinada por facções criminosas internacionais.
Villanelle é um personagem muito interessante, com traços de psicopatia, uma jovem bonita que tem paixão por seu trabalho e procura exercê-lo “da melhor forma” possível, o que dá à personagem um lado sombrio que é compensado por sua personalidade forte e bem humorada, que apesar de trabalhar para facções criminosas é apaixonada por moda e um estilo de vida luxuoso, que é bancado por seus serviços pouco convencionais.



O Atrito entre Eve e Villanelle é o que move a série, que aumenta o tom de suspense conforme a obsessão de uma em relação a outra vai ficando cada vez maior e intensa, em quase um jogo de gato e rato.


No desenrolar da série os personagens vão se mostrando mais complexos e a história passa a ganhar vários desdobramentos, o que a torna envolvente do primeiro ao último episódio.
O grande forte de Killig Eve está no roteiro e na poderosa criação dos personagens. A série ainda tem uma linda fotografia, direção de arte e montagem que contribuem muito para criar uma linda mis-en-scène.

A segunda temporada de Killing Eve estreia no dia sete de abril de 2019 pela BBC America. Atualmente no Brasil a série é exibida pelo serviço de streaming da globo, a Globoplay.








domingo, 31 de março de 2019

"As Duas Faces da Felicidade", de Agnès Varda. A ironia de um casamento utópico através do olhar do homem


A cineasta e fotógrafa Agnès Varda foi sem dúvidas um dos grandes nomes do cinema. Nascida na Bélgica e radicada na França, a diretora infelizmente faleceu na semana passada. Seu cinema é focado em questões feministas e comentários sociais ao mesmo tempo em que concebe suas obras através de um olhar documental e até experimental. Também é comum encontrarmos em seus filmes, o uso de atores não profissionais. Historiadores citam o trabalho de Varda como algo essencial para a Nouvelle Vague, considerando a própria diretora como a mãe do movimento francês.
Agnés Varda costuma dar voz aos protagonistas marginalizados socialmente. Por conta de seu background na fotografia, as imagens estáticas são bastante usadas em seus filmes. Às vezes é possível notar conflitos entre imagens fixas e em movimento. Tudo que está ali apresenta sua própria implicação e empresta a mensagem de todo o filme.
Varda tem sua obra frequentemente considerada feminista por causa do uso de protagonistas femininos e da criação de uma voz cinematográfica feminina. Mesmo sem ligação de fato a algum movimento feminista, a cineasta apenas concentra essas questões nos temas de seus filmes.
Em As Duas Faces da Felicidade (Le Bonheur, 1965), Varda cria uma obra muito interessante e que pode até mesmo ganhar mais de uma interpretação, embora dado ao seu contexto e ao próprio fazer cinema da diretora, podemos entender o longa como uma grande ironia. De qualquer forma, essas duas leituras serão citadas no texto.

A sinopse traz François (Jean-Claude Drouot), um homem que trabalha como carpinteiro para seu tio. Ele  vive uma vida feliz com sua esposa Thérèse (Claire Drouot) e seu dois filhos. Um dia,  François se apaixona por Émilie (Marie-France Boyer), que trabalha como balconista em uma agência dos correios do bairro. Temas como a possibilidade de ser feliz por completo (ou a ideia de uma felicidade acumulada) e até mesmo relações e estruturas familiares, são discutidos no filme. Melhor que isso, é como a cineasta concebe todas essas questões.
O filme é inteiro do ponto de vista de François, um homem que trabalha e vive essa vida tranquila e prazerosa com todos à sua volta. Para isso, Varda não poupa na fotografia e na direção de arte que criam um visual que enche os olhos. Cores e mais cores compõem a vida do nosso protagonista, principalmente o amarelo e o azul. Também não faltam flores, campos de girassóis, piqueniques com a família e até um ambiente de trabalho harmonioso e feliz. Ironia?
Chegamos até a nos incomodar com tanta perfeição na tela. Mas mesmo diante dela, acompanhamos a rotina de François e sua família. Thérèse trabalha como costureira e está fazendo um vestido de noiva para uma de sua clientes. Ironicamente temos esse casal também feliz que irá se casar, enquanto há esse contraste com o que já sabemos (pelo menos para quem leu a sinopse) que irá acontecer.
As imagens dos objetos estáticos na casa de François parecem frisar tanto sua rotina, quanto essa ordem existente em sua vida. Ordem essa que logo sofrerá um arranhão quando o personagem conhecer Émilie. É nesse momento que o filme começa a mostrar mais ainda seu diferencial. Quando conhece a mulher e não demora muito para que ambos iniciem um romance extra conjugal, o longa claramente não parece julgar nenhum dos dois personagens por isso. Seria por estarmos justamente acompanhando o filme do ponto de vista de um homem? Praticamente não há mudança de tom no filme, e a amante de François é retratada como se fosse sua segunda esposa.
Há apenas um detalhe interessante que mais para frente, chamará a atenção. Émilie está de mudança para um novo apartamento e chama François para ajudá-la a montar os móveis. No apartamento da mulher, a câmera estática também frisa nos objetos, agora amontoados em cantos da parede. Aliás, durante boa parte do filme, o apartamento de Émilie será visto ainda sem ter todos os móveis montados enquanto os tons brancos predominam na cama e lençóis.  É como se a ideia de família ainda não possa ser concretizada, porque ainda temos Thèrése como a esposa, além da mesma não saber ainda do caso que seu marido está tendo.
Já as duas mulheres envolvidas no triângulo amoroso, nunca se confrontam, mas chegam a dividir a mesma tela duas vezes. A primeira é quando uma passa pela outra em uma rua. A outra, bem mais elaborada, é durante uma festa. Aqui o encontro ocorre durante uma dança em que diversos casais dançam e trocam de parceiros. François é visto dançando com Thèrése, mas também com Émilie. Uma árvore no meio da tela é responsável por fazer essa transição de casais ao mesmo tempo em que divide as duas mulheres.
Quando finalmente resolve revelar para a esposa sobre Émelie, O longa mais uma vez surpreende. Mais uma vez sem julgamento, Thèrése parece aceitar o relacionamento de seu marido, quando descobre que a felicidade do mesmo é sempre plena quando ele se vê com as duas mulheres. Por mais utópico que pareça, também podemos interpretar isso como uma ideia de evolução como pessoa e até mesmo uma mente aberta por parte da personagem, que nos mostra que a ideia de tratar as pessoas como posses é errada. Se por um lado o filme tem essa linha de interpretação, por outro podemos problematizar mais uma vez a questão irônica de estarmos vendo o filme do ponto de vista de François e de que a fácil aceitação da esposa, seria na verdade um mundo utópico visto do ponto de vista de um homem.
Com a morte de Thèrése, não sabemos ao certo se ela teve um acidente ou se suicidou, cabendo ambas interpretações. Podemos reparar como o efeito do luto devasta François, porém o filme não gasta muito tempo no processo de luto, mas sim em um processo de configuração de uma nova família, agora com Émilie, que passamos a vê-la assumindo o papel da esposa, buscando os enteados na escola, arrumando a casa e fazendo piqueniques com François e seus filhos.

Provocativo e até subversivo, Os Dois Lados da Felicidade é um filme que cabe mais de uma forma de interpretação e que é estruturado sem dúvida alguma, como forma de provocar e nos tirar da zona de conforto, ao mesmo tempo em que nos conforta enquanto nossos olhos são praticamente acalentados com uma vida aparentemente perfeita e livre de problematizações e questionamentos.

terça-feira, 26 de março de 2019

Crítica: Nós - Terror questionador


E finalmente Nós (Us, 2019) já está nos cinemas! Um dos filmes mais aguardados deste ano, traz novamente o cineasta Jordan Peele se aventurando no gênero do terror. Se em Corra! (Get Out, 2017) Peele também colocou alguns elementos de comédia, característica evidente em seus filmes anteriores, em Nós as coisas são diferentes. Descrito pelo próprio diretor como um filme 100% de terror, Jordan também chegou a anunciar que seu novo filme também não trataria de aspectos raciais como no longa anterior, tendo desta vez como um dos temas do filme, a questão dos privilégios.
Como bem definido no trailer que circulou na Internet e que conta com mais de dezoito milhões de views, a sinopse trata da família composta por Adelaide (Lupita Nyong'o), seu marido Gabriel (Winston Duke) e seus filhos Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex), que viajam até a casa de praia da família, quando se veem confrontados por um grupo de doppelgängers (ser fantástico proveniente de lendas germânicas que representa a cópia idêntica de uma pessoa e que tem a característica de trazer transtorno para a vida de seu duplicata). No longa, cada integrante da família tem seu sósia equivalente, que persegue seu original.
Assim como em Corra!, Peele manteve a atmosfera de estranhamento que já se inicia logo no começo do filme. A história nos apresenta a infância de Adelaide em 1986. O próprio caminhar da personagem em uma parque de diversões já é o suficiente para nos deixarmos meio que à espreita de que algo ali pode ser suspeito. Na casa de espelhos do parque, o visual abusa dos reflexos que multiplicam e distorcem a menina. Muita coisa fará sentido no final do filme. Isso aliás é muito interessante, pois Nós é um filme que busca provocar no espectador a reflexão, além de exigir uma atenção especial a diversas pistas ao longo do filme. Em um nível mais simplório, a história está lá, fácil de ser compreendida e absorvida pelo espectador. Mas se você procura por algo a mais em um filme e não só a diversão, esse filme é perfeito para isso. Sabemos que não é todo dia que um filme mais comercial do gênero de terror, busca instigar seu espectador a pensar sobre ele.
SPOILERS ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
É quando falamos em interpretar tudo aquilo o que vimos e tentamos entender as alegorias usadas, é que Nós se torna ainda mais interessante. Você pode ler diversas interpretações do filme que já estão disponíveis para leitura em vários sites. Isso já é muito louvável porque com certeza essa foi a intenção de Peele. Independente de qual seja sua interpretação do filme, está claro o engajamento social do mesmo. Dessa vez o discurso está claro quando se fala em privilégios e minorias à margem da sociedade. Nosso lugar de conforto e o desconhecimento da existências de pessoas menos favorecidas em diversos aspectos de suas vidas, parece ser o ponto principal do filme.
A ideia de pensarmos nas pessoas como nossos semelhantes, cai bem no filme quando são colocadas cópias dos protagonistas como aqueles que estão ali para reivindicar por algo. O final revelador (que para muitos não foi tão surpreendente assim), parece trazer uma discussão que não necessariamente busca categorizar quem são os vilões do filme. Adelaide foi retirada de sua vida, ainda na infância por sua cópia que viu a possibilidade de ter uma vida melhor. Quando essa cópia assume a vida privilegiada da verdadeira Adelaide, ela ao mesmo tempo não se importa mais com aqueles que estão vivendo lá embaixo. Cabe à real Adelaide ter empatia pelas cópias e reivindicar o lugar que era seu como uma vingança à sua cópia. Aqui Adelaide leva todos com ela para assim se rebelarem.
Até mesmo a questão dos movimentos repetidos pelos doppelgängers que imitam as ações de suas versões originais, pode ser entendida como uma quebra de um sistema que entorpece as pessoas e as impede de agir por si próprias.
Vale destacar a campanha publicitária Hands Across America organizada em 1986 e que aparece no filme. Na época, aproximadamente 6,5 milhões de pessoas seguraram as mãos em uma cadeia humana por quinze minutos ao longo de um caminho através dos Estados Unidos contíguos. Dos 34 milhões de dólares arrecadados, apenas 15 milhões foram entregues às instituições de caridade para o combate a fome. O resto do dinheiro foi usado para pagar os custos operacionais da organização da campanha.
De fato a intenção foi boa, mas sabemos que não resolveu o problema da pobreza nos EUA. O evento acabou ganhando mais notoriedade e destaque, e quando voltamos ao filme, fica claro como o final recria essa união formada em 1986. As cópias se unem de mãos dadas após assassinarem suas versões originais. Se de um lado temos os personagens que mal sabem da existência da população que vive abaixo deles, será que essas cópias vão conseguir se impor e vencer através da violência? O longa apenas nos aponta questões sem necessariamente julgar nenhum lado, mais uma vez buscando nossa reflexão.
Claro que como já foi dito, cada um pode ter sua própria interpretação. Há até quem interprete os Doppelgängers como os próprios imigrantes que vivem nos EUA e vivem à margem da sociedade americana. Podemos ver como esse filme pode ser enriquecedor ao render longos debates, não é mesmo?
As atuações não poderiam estar melhores. Todos os atores conseguem uma distinção clara e sinistra entre suas versões originais e suas cópias. Lupita Nyong'o está fantástica tanto como Adelaide, como sua cópia. Principalmente quando lembramos do plot twist no final, percebemos as nuances e ambiguidade necessárias na personagem para que o final não fosse descoberto logo no início. Fora o sofrimento misturado com insanidade na doppelgänger de Adelaide que causa um desconforto no espectador.
A tensão em Nós está mais intensa, se comparada a Corra!. Há muitas cenas de perseguição que alternam entre os personagens, já que cada cópia persegue seu equivalente. 
Como em um episódio da série Além da Imaginação (que por sinal teve o episódio Image Mirror como inspiração para Peele fazer o filme), Nós já é um dos melhores filmes de 2019. Com um terror de qualidade e bem dirigido, Jordan Peele parece ter conseguido fazer filmes de terror que têm o alcance do grande público ao mesmo tempo em que busca nos fazer refletir sobe questões atuais e pertinentes. Mais uma vez é o terror e o absurdo a favor dos verdadeiros horrores do nosso dia a dia.  

Erotismo e a cidade: Vidas nuas (1967) de Ody Fraga

  O aspecto mais interessante em Vidas nuas é a fluidez como a cidade de São Paulo é filmada, desde seu primeiro plano quando temos acesso ...