domingo, 31 de março de 2019

"As Duas Faces da Felicidade", de Agnès Varda. A ironia de um casamento utópico através do olhar do homem


A cineasta e fotógrafa Agnès Varda foi sem dúvidas um dos grandes nomes do cinema. Nascida na Bélgica e radicada na França, a diretora infelizmente faleceu na semana passada. Seu cinema é focado em questões feministas e comentários sociais ao mesmo tempo em que concebe suas obras através de um olhar documental e até experimental. Também é comum encontrarmos em seus filmes, o uso de atores não profissionais. Historiadores citam o trabalho de Varda como algo essencial para a Nouvelle Vague, considerando a própria diretora como a mãe do movimento francês.
Agnés Varda costuma dar voz aos protagonistas marginalizados socialmente. Por conta de seu background na fotografia, as imagens estáticas são bastante usadas em seus filmes. Às vezes é possível notar conflitos entre imagens fixas e em movimento. Tudo que está ali apresenta sua própria implicação e empresta a mensagem de todo o filme.
Varda tem sua obra frequentemente considerada feminista por causa do uso de protagonistas femininos e da criação de uma voz cinematográfica feminina. Mesmo sem ligação de fato a algum movimento feminista, a cineasta apenas concentra essas questões nos temas de seus filmes.
Em As Duas Faces da Felicidade (Le Bonheur, 1965), Varda cria uma obra muito interessante e que pode até mesmo ganhar mais de uma interpretação, embora dado ao seu contexto e ao próprio fazer cinema da diretora, podemos entender o longa como uma grande ironia. De qualquer forma, essas duas leituras serão citadas no texto.

A sinopse traz François (Jean-Claude Drouot), um homem que trabalha como carpinteiro para seu tio. Ele  vive uma vida feliz com sua esposa Thérèse (Claire Drouot) e seu dois filhos. Um dia,  François se apaixona por Émilie (Marie-France Boyer), que trabalha como balconista em uma agência dos correios do bairro. Temas como a possibilidade de ser feliz por completo (ou a ideia de uma felicidade acumulada) e até mesmo relações e estruturas familiares, são discutidos no filme. Melhor que isso, é como a cineasta concebe todas essas questões.
O filme é inteiro do ponto de vista de François, um homem que trabalha e vive essa vida tranquila e prazerosa com todos à sua volta. Para isso, Varda não poupa na fotografia e na direção de arte que criam um visual que enche os olhos. Cores e mais cores compõem a vida do nosso protagonista, principalmente o amarelo e o azul. Também não faltam flores, campos de girassóis, piqueniques com a família e até um ambiente de trabalho harmonioso e feliz. Ironia?
Chegamos até a nos incomodar com tanta perfeição na tela. Mas mesmo diante dela, acompanhamos a rotina de François e sua família. Thérèse trabalha como costureira e está fazendo um vestido de noiva para uma de sua clientes. Ironicamente temos esse casal também feliz que irá se casar, enquanto há esse contraste com o que já sabemos (pelo menos para quem leu a sinopse) que irá acontecer.
As imagens dos objetos estáticos na casa de François parecem frisar tanto sua rotina, quanto essa ordem existente em sua vida. Ordem essa que logo sofrerá um arranhão quando o personagem conhecer Émilie. É nesse momento que o filme começa a mostrar mais ainda seu diferencial. Quando conhece a mulher e não demora muito para que ambos iniciem um romance extra conjugal, o longa claramente não parece julgar nenhum dos dois personagens por isso. Seria por estarmos justamente acompanhando o filme do ponto de vista de um homem? Praticamente não há mudança de tom no filme, e a amante de François é retratada como se fosse sua segunda esposa.
Há apenas um detalhe interessante que mais para frente, chamará a atenção. Émilie está de mudança para um novo apartamento e chama François para ajudá-la a montar os móveis. No apartamento da mulher, a câmera estática também frisa nos objetos, agora amontoados em cantos da parede. Aliás, durante boa parte do filme, o apartamento de Émilie será visto ainda sem ter todos os móveis montados enquanto os tons brancos predominam na cama e lençóis.  É como se a ideia de família ainda não possa ser concretizada, porque ainda temos Thèrése como a esposa, além da mesma não saber ainda do caso que seu marido está tendo.
Já as duas mulheres envolvidas no triângulo amoroso, nunca se confrontam, mas chegam a dividir a mesma tela duas vezes. A primeira é quando uma passa pela outra em uma rua. A outra, bem mais elaborada, é durante uma festa. Aqui o encontro ocorre durante uma dança em que diversos casais dançam e trocam de parceiros. François é visto dançando com Thèrése, mas também com Émilie. Uma árvore no meio da tela é responsável por fazer essa transição de casais ao mesmo tempo em que divide as duas mulheres.
Quando finalmente resolve revelar para a esposa sobre Émelie, O longa mais uma vez surpreende. Mais uma vez sem julgamento, Thèrése parece aceitar o relacionamento de seu marido, quando descobre que a felicidade do mesmo é sempre plena quando ele se vê com as duas mulheres. Por mais utópico que pareça, também podemos interpretar isso como uma ideia de evolução como pessoa e até mesmo uma mente aberta por parte da personagem, que nos mostra que a ideia de tratar as pessoas como posses é errada. Se por um lado o filme tem essa linha de interpretação, por outro podemos problematizar mais uma vez a questão irônica de estarmos vendo o filme do ponto de vista de François e de que a fácil aceitação da esposa, seria na verdade um mundo utópico visto do ponto de vista de um homem.
Com a morte de Thèrése, não sabemos ao certo se ela teve um acidente ou se suicidou, cabendo ambas interpretações. Podemos reparar como o efeito do luto devasta François, porém o filme não gasta muito tempo no processo de luto, mas sim em um processo de configuração de uma nova família, agora com Émilie, que passamos a vê-la assumindo o papel da esposa, buscando os enteados na escola, arrumando a casa e fazendo piqueniques com François e seus filhos.

Provocativo e até subversivo, Os Dois Lados da Felicidade é um filme que cabe mais de uma forma de interpretação e que é estruturado sem dúvida alguma, como forma de provocar e nos tirar da zona de conforto, ao mesmo tempo em que nos conforta enquanto nossos olhos são praticamente acalentados com uma vida aparentemente perfeita e livre de problematizações e questionamentos.

terça-feira, 26 de março de 2019

Crítica: Nós - Terror questionador


E finalmente Nós (Us, 2019) já está nos cinemas! Um dos filmes mais aguardados deste ano, traz novamente o cineasta Jordan Peele se aventurando no gênero do terror. Se em Corra! (Get Out, 2017) Peele também colocou alguns elementos de comédia, característica evidente em seus filmes anteriores, em Nós as coisas são diferentes. Descrito pelo próprio diretor como um filme 100% de terror, Jordan também chegou a anunciar que seu novo filme também não trataria de aspectos raciais como no longa anterior, tendo desta vez como um dos temas do filme, a questão dos privilégios.
Como bem definido no trailer que circulou na Internet e que conta com mais de dezoito milhões de views, a sinopse trata da família composta por Adelaide (Lupita Nyong'o), seu marido Gabriel (Winston Duke) e seus filhos Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex), que viajam até a casa de praia da família, quando se veem confrontados por um grupo de doppelgängers (ser fantástico proveniente de lendas germânicas que representa a cópia idêntica de uma pessoa e que tem a característica de trazer transtorno para a vida de seu duplicata). No longa, cada integrante da família tem seu sósia equivalente, que persegue seu original.
Assim como em Corra!, Peele manteve a atmosfera de estranhamento que já se inicia logo no começo do filme. A história nos apresenta a infância de Adelaide em 1986. O próprio caminhar da personagem em uma parque de diversões já é o suficiente para nos deixarmos meio que à espreita de que algo ali pode ser suspeito. Na casa de espelhos do parque, o visual abusa dos reflexos que multiplicam e distorcem a menina. Muita coisa fará sentido no final do filme. Isso aliás é muito interessante, pois Nós é um filme que busca provocar no espectador a reflexão, além de exigir uma atenção especial a diversas pistas ao longo do filme. Em um nível mais simplório, a história está lá, fácil de ser compreendida e absorvida pelo espectador. Mas se você procura por algo a mais em um filme e não só a diversão, esse filme é perfeito para isso. Sabemos que não é todo dia que um filme mais comercial do gênero de terror, busca instigar seu espectador a pensar sobre ele.
SPOILERS ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
É quando falamos em interpretar tudo aquilo o que vimos e tentamos entender as alegorias usadas, é que Nós se torna ainda mais interessante. Você pode ler diversas interpretações do filme que já estão disponíveis para leitura em vários sites. Isso já é muito louvável porque com certeza essa foi a intenção de Peele. Independente de qual seja sua interpretação do filme, está claro o engajamento social do mesmo. Dessa vez o discurso está claro quando se fala em privilégios e minorias à margem da sociedade. Nosso lugar de conforto e o desconhecimento da existências de pessoas menos favorecidas em diversos aspectos de suas vidas, parece ser o ponto principal do filme.
A ideia de pensarmos nas pessoas como nossos semelhantes, cai bem no filme quando são colocadas cópias dos protagonistas como aqueles que estão ali para reivindicar por algo. O final revelador (que para muitos não foi tão surpreendente assim), parece trazer uma discussão que não necessariamente busca categorizar quem são os vilões do filme. Adelaide foi retirada de sua vida, ainda na infância por sua cópia que viu a possibilidade de ter uma vida melhor. Quando essa cópia assume a vida privilegiada da verdadeira Adelaide, ela ao mesmo tempo não se importa mais com aqueles que estão vivendo lá embaixo. Cabe à real Adelaide ter empatia pelas cópias e reivindicar o lugar que era seu como uma vingança à sua cópia. Aqui Adelaide leva todos com ela para assim se rebelarem.
Até mesmo a questão dos movimentos repetidos pelos doppelgängers que imitam as ações de suas versões originais, pode ser entendida como uma quebra de um sistema que entorpece as pessoas e as impede de agir por si próprias.
Vale destacar a campanha publicitária Hands Across America organizada em 1986 e que aparece no filme. Na época, aproximadamente 6,5 milhões de pessoas seguraram as mãos em uma cadeia humana por quinze minutos ao longo de um caminho através dos Estados Unidos contíguos. Dos 34 milhões de dólares arrecadados, apenas 15 milhões foram entregues às instituições de caridade para o combate a fome. O resto do dinheiro foi usado para pagar os custos operacionais da organização da campanha.
De fato a intenção foi boa, mas sabemos que não resolveu o problema da pobreza nos EUA. O evento acabou ganhando mais notoriedade e destaque, e quando voltamos ao filme, fica claro como o final recria essa união formada em 1986. As cópias se unem de mãos dadas após assassinarem suas versões originais. Se de um lado temos os personagens que mal sabem da existência da população que vive abaixo deles, será que essas cópias vão conseguir se impor e vencer através da violência? O longa apenas nos aponta questões sem necessariamente julgar nenhum lado, mais uma vez buscando nossa reflexão.
Claro que como já foi dito, cada um pode ter sua própria interpretação. Há até quem interprete os Doppelgängers como os próprios imigrantes que vivem nos EUA e vivem à margem da sociedade americana. Podemos ver como esse filme pode ser enriquecedor ao render longos debates, não é mesmo?
As atuações não poderiam estar melhores. Todos os atores conseguem uma distinção clara e sinistra entre suas versões originais e suas cópias. Lupita Nyong'o está fantástica tanto como Adelaide, como sua cópia. Principalmente quando lembramos do plot twist no final, percebemos as nuances e ambiguidade necessárias na personagem para que o final não fosse descoberto logo no início. Fora o sofrimento misturado com insanidade na doppelgänger de Adelaide que causa um desconforto no espectador.
A tensão em Nós está mais intensa, se comparada a Corra!. Há muitas cenas de perseguição que alternam entre os personagens, já que cada cópia persegue seu equivalente. 
Como em um episódio da série Além da Imaginação (que por sinal teve o episódio Image Mirror como inspiração para Peele fazer o filme), Nós já é um dos melhores filmes de 2019. Com um terror de qualidade e bem dirigido, Jordan Peele parece ter conseguido fazer filmes de terror que têm o alcance do grande público ao mesmo tempo em que busca nos fazer refletir sobe questões atuais e pertinentes. Mais uma vez é o terror e o absurdo a favor dos verdadeiros horrores do nosso dia a dia.  

domingo, 17 de março de 2019

Na Netflix: "Cam" e a exploração dos excessos da exposição e da ambição em ser visto




Com dois curtas de drama/comédia no currículo, Daniel Goldhaber fez sua estreia com Cam (2018), seu primeiro longa-metragem que está há algum tempo no catálogo da Netflix. Dessa vez se aventurando no gênero do terror, a história adentra o mundo das camgirls, mulheres que ganham a vida fazendo shows de exibicionismo pela webcam.
Alice (Madeline Brewer) usa o nome Lola para fazer suas apresentações. Ambiciosa para alcançar o primeiro lugar de visualizações no site em que trabalha, ela inclui em uma de suas apresentações, um falso suicídio. Um dia ela descobre que sua conta foi roubada e que uma mulher exatamente como ela, está se apresentando em seu lugar, para desespero total de Alice.
Não é a primeira vez em que o audiovisual aborda os perigos da exposição na internet. Aqui Goldhaber escolhe uma abordagem que pode conter tanto explicações reais, quanto fantásticas sobre quem seria essa sósia tão idêntica à Lola. Independente de qual seja a interpretação, fica clara a alegoria do poder da exposição e como a mesma domina as pessoas que fazem o possível para estarem em evidência. A sede por essa forma de poder que deve sempre resultar em um número de visualizações favorável  no canal da protagonista, parece despertar na personagem, seu lado competitivo e ambicioso. Lado esse que cria vida própria e compete com ela mesma. Mesmo que no caso de Alice essa exposição faça parte do seu ganha pão, o longa felizmente não quer pregar nenhum moralismo, muito menos um julgamento da personagem por conta de sua profissão.
Vale a pena destacar em uma cena em que Alice pede ajuda, o descaso da polícia, justamente por conta do julgamento, preconceito e machismo dos próprios policias. É a velha história de culpar sempre a vítima, seja porque ela usa roupa curta ou ainda pior, porque ela se expoe na internet para várias pessoas. Isso também ajuda muito para a empatia que criamos pela personagem, que independente da forma como ganha a vida, ela é uma vítima dessa sua cópia que tomou o seu lugar e está usando sua imagem para ganhar dinheiro. 
As cores usadas no filme não poderiam fazer mais sentido dentro do contexto do filme. Quando está em seu quarto, fazendo as apresentações, as cores predominantes são o vermelho e o roxo. Como cita Patti Bellantoni no livro If It’s Purple, Someone is Gonna Die (Se for Roxo, Alguém Vai Morrer), na tradução livre, a cor roxa no cinema tem várias interpretações. A autora cita que a cor roxa já foi usada para representar sensualidade, poesia e romantismo. Porém, com o tempo a representatividade da cor acabou ganhando um status místico e até paranormal. Por ser uma cor difícil de se encontrar na natureza, ela acaba adquirindo essa identidade daquilo que está além do nosso mundo físico. A morte é uma associação muito comum e pode ser vista em vários filmes. Mas Bellantoni aponta também que a morte também pode ser simbólica, como a perda de algo ou até mesmo ligada a transformação.
No longa isso fica claro quando o conflito do filme é claramente algo que parece fugir de uma explicação natural. Lembrando que as interpretações podem variar, mas existe uma essência que acaba inclinando o tom do filme para o fantástico. Já o vermelho, claro, descreve ao mesmo tempo a sensualidade e o perigo. Uma dicotomia entre o prazer e os perigos encontrados no trabalho de Alice.
Já a tensão e o mistério são garantido à medida em que a personagem tenta descobrir quem está se passando por ela. Destaque para a cena do aniversário de Jordan (Devin Druid), irmão de Alice, em que a família de Anna e os amigos de seu irmão, descobrem sua verdadeira profissão. A cena é feita quase toda em plano sequência e cria um suspense quando deixa o espectador ciente de que os amigos de Jordan estão na casa assistindo a um dos vídeos eróticos do clone da protagonista. Enquanto a própria Anna, seu irmão, sua mãe e suas amigas estão na casa e ainda não sabem o que está acontecendo, ficamos esperando o momento em que tudo irá “explodir” e trazer o segredo da personagem à tona.
Cam é uma boa pedida para os fãs da série Black Mirror e para quem curte um terror mais psicológico, cheio de tensão e mistério.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Na Netflix: "Aterrorizados": o choque pelo desconforto


Lançado em 2018, Aterrorizados (Aterrados, 2017) foi escrito e dirigido pelo cineasta argentino Demián Rugna. O longa teve sua estreia internacional no Festival de Mar del Plata e teve uma recepção positiva por parte do público e da crítica. Com o sucesso, o longa já está disponível na Netflix e o diretor já anunciou que está trabalhando em uma sequência.
Em uma rua de um bairro na Argentina, três casas sofrem com acontecimentos estranhos. Um homem não consegue dormir por conta de uma estranha presença durante à noite em seu quarto, uma mulher ouve vozes vindas do ralo da pia da cozinha e outra mulher após perder seu filho em um acidente na própria rua, vê o corpo da criança (que aparentemente saiu do túmulo) dentro de sua própria casa.
Em meio a isso, três investigadores tentam descobrir o que está havendo nessa rua sinistra. Primeiramente é preciso deixar de lado um pouco alguns aspectos. Nem tudo no filme será explicado, deixando muita coisa para ser melhor trabalhada possivelmente na continuação que ainda irá estrear. O final pendendo para o clichê, acaba sendo anticlimático, como se ao chegar no fim, o filme tivesse sido cortado ou estivesse faltando a continuação.
Você deve se perguntar: Se o filme tem esses problemas, ele merece mesmo ser visto? A resposta é sim. Principalmente, claro, para os fãs de terror. Pouco preocupado com assustar constantemente o espectador, Aterrorizados segura seu público nos acontecimentos bizarros e numa sensação de insegurança dos personagens que acaba por nos deixar tensos junto com eles.
As criaturas não surgem do nada na tela para nos pegar de surpresa. Com raras exceções, elas surgem no momento certo e o próprio aspecto das mesmas, já nos choca sem precisar do tal susto junto com uma música estridente que se inicia quando menos esperamos. Ficamos à mercê do perigo e sem saber o que está acontecendo. Quando temos um pouco de informação sobre o que está acontecendo com as personagens vítimas dos estranhos acontecimento nas casas, tudo fica ainda mais bizarro e instigante.
Com algumas referências de filmes como A Morte do Demônio e as histórias de H. P. LovecraftAterrorizados é um bom filme do gênero do terror/horror que tem seus méritos. O roteiro poderia desenvolver uma história mais consistente, mas mesmo assim vale a diversão.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Dica de Documentário: Expedition Happiness


A dica de hoje é de um filme documental alemão, Expedition Happiness, dirigido e Co estrelado pelo casal Felix Starck e Selima Taibi.

O filme se trata de uma experiência de vida, na qual Felix, Selima e o cachorro de estimação Rudi se aventuram em uma viagem ambiciosa a bordo de um ônibus, com a meta de cruzarem o continente americano.



No começo do filme somos apresentados ao casal e as suas ideias sobre a viagem, enquanto eles reformam um ônibus estilo esses ônibus escolares americanos. Starck é um jovem cineasta que já havia se aventurado em outra jornada parecida, que também ficou registrada no documentário de sucesso “Pedal the World” de 2015. Já Selima Taibi que também conhecida como Mogli é uma cantora e compositora, que por sinal assina a trilha sonora do filme ela deseja que a viagem seja uma experiência criativa e inspiradora para a produção artística do casal.



Como o próprio titulo do filme sugere, se trata de uma expedição em busca da felicidade, eles desejam sair do lugar comum e registrar imagens em contato com as maravilhas da natureza, e conhecer novas culturas entrando diretamente em contato com a forma de viver de cada lugar que passarem, talvez esse seja o grande trunfo do filme, a experiência do conato humano, não apenas na relação estabelecida ente Felix Starck e Selima Taibi a bordo do ônibus, mas também a troca que eles fazem com as pessoas que vão conhecendo ao longo da viagem.



O filme é rico em paisagens deslumbrantes do Canada, dos Estados Unidos, do Alasca, e do México, na qual a natureza ganha destaque em belas imagens em planos demorados para que possam ser apreciados de forma a inspirar tranquilidade e paz. Porém todo o contato humano em diferentes culturas traz o charme do documentário, do qual não fica de fora nem mesmo problemas com o visto nos EUA, e até mesmo visitas em fazendas de pessoas possivelmente envolvidas com o crime organizado no México.



Tudo isso ajuda o filme a ganhar um peso emocional interessante, fugindo da proposta inicial dos sentimentos apenas de liberdade e felicidade, fazendo com que a viagem ganhe verdade em meio a problemas sérios encontrados pelo caminho, que passam de problemas com a manutenção do ônibus, e dificuldades de adaptação a climas diferentes, até problemas graves de saúde do cãozinho Rudi, o que coloca em cheque o desenrolar da viagem e obriga o casal a repensar o roteiro.

O filme tem uma direção moderna, em vários momentos temos a sensação de estarmos acompanhando dois amigos em uma viagem pelas redes sociais e pelo YouTube, pois tem várias tomadas e imagens com câmera na mão em formato de self, registros pessoais, e conversa cara a cara com a câmera como desabafos em estilo stories de Instagram,  ao mesmo tempo que temos o contraste com lindas tomadas panorâmicas e um controle de roteiro e edição que torna tudo muito bonito, além de uma trilha sonora que vem a calhar com lindas canções da própria Selima Taibi.



O filme é uma ótima pedida para quem curti documentários sobre estilo de vida e viagens, mas ele acaba indo além, flertando com estilos documentais como o performático e o reflexivo.
Se você ficou interessado em conferir o filme, vale lembrar que ele ainda está disponível no catálogo da Netflix.

domingo, 3 de fevereiro de 2019


A "cura gay" em "Boy Erased: Uma Verdade Anulada"

O ator australiano Joel Edgerton, estreou na direção com o excelente thriller O Presente (The Gift, 2015), no qual também atua. Agora no seu segundo filme, Boy Erased: Uma Verdade Anulada (Boy Erased, 2018), Edgerton repete os cargos na direção e também como ator coadjuvante. O ator e cineasta até agora tem se saído bem em ambas as funções, levando em conta quem nem sempre pode ser fácil dirigir e interpretar no mesmo filme.
Dessa vez em um drama sensível, Edgerton adaptou o livro Boy Erased: A Memoir, escrito por Garrard Conley em 2016. O livro narra as memórias de Conley durante o tempo em que ficou na Love Action, um ministério cristão dedicado a “curar” a homossexualidade de pessoas dispostas a “mudar” sua condição sexual. Vindo de uma família cristã protestante que vive no Arkansas, Conley é filho de um pastor que obviamente não aceitava a homossexualidade de seu único filho.
No longa os nomes foram modificados, tendo Lucas Hedges como Jared Eamons (Garrard), Nicole Kidman como Nancy Eamons (Martha, mãe de Conley) e Russell Crowe como o pastor Marshall Eamons (Hershel, pai de Conley). Joel Edgerton, interpreta Victor Sykes, o líder do ministério Love Action.
Seguindo a linha narrativa do livro, o longa não conta a história de forma linear, optando por progredir e regredir no tempo. O início já nos mostra a internação de Jared no ministério, enquanto começamos a voltar em situações antes da interação, em momentos pontuais em que o personagem precisa lembrar do que aconteceu com ele para fazer as atividades exigidas por Victor.
Por mais absurdo que uma terapia de conversão sexual possa ser, é curioso como o filme escolhe um tom mais ameno para retratar isso. Longe de um possível sensacionalismo, Love Action é retratado como um lugar extremamente bem organizado e sistemático. Em um primeiro momento, acreditamos até nas “boas intenções do lugar”.
A Câmera frequentemente passei pelos personagens enquanto são lidos tópicos importantes para que a “cura” seja realizada. Os internos sempre usam branco, talvez como forma de representar a pureza de espírito longe do “pecado”, já que é justamente essa espécie de libertação que é buscada no local. Ao mesmo tempo, quando há um enquadramento de todos juntos, podemos até nos lembrar de uma linha de montagem de automóveis onde todos parecem iguais, já que estão sendo condicionados a pensar e agir da mesma forma.
Jared nisso tudo, se mostra alguém disposto a tentar mudar sua vida para poder ser aceito em casa, já que a condição imposta por seu pai para que ele continue a viver junto com a família, é que ele mude. No decorrer dos dias, algumas tarefas são pedidas aos internos, sempre como forma de descobrir o motivo que levou com que o indivíduo tenha se “tornado” homossexual. É A partir daí que pontos chaves da vida de Jared nos permite conhecê-lo melhor, como por exemplo quando ele foi para a faculdade. Aqui mais uma vez o filme foge do óbvio.
Podendo abordar um romance mais típico entre dois garotos e talvez até se ancorar a isso para criar uma empatia mais fácil com o personagem, o primeiro contato íntimo do protagonista com alguém do mesmo sexo, é extremamente traumático e devastador. Esse acontecimento poderia caracterizar (para pessoas que pensam que a homossexualidade surge depois de algum trauma) o ponto inicial em que a homossexualidade de Jared teria se manifestado. Claro que não é assim, e o filme de forma simples e não didática, deixa isso bem claro. Depois um segundo contato entre Jared e outro garoto, sai novamente do óbvio e acaba sendo mais simples do que se poderia imaginar. Ao mesmo tempo a experiência simples e até inocente entre os dois jovens, foi extremamente impactante e benéfica para Jared.
No decorrer da narrativa vamos descobrindo melhor sobre os métodos utilizados para se alcançar essa espécie de regeneração das pessoas. Os momentos mais difíceis, por sinal, ocorrem com outros personagens, que em maioria, estão bem representados em cenas também pontuais. O cantor australiano Troye Sivan, que tem uma canção na trilha sonora do filme, interpreta Gary, que está ciente de que o “tratamento” não serve de nada, mas que se conformou em fingir que está dando certo. Xavier Dolan tem uma pequena participação no filme em pouco mais de quatro cenas em que faz um jovem que leva toda a experiência no ministério a sério, aparecendo constantemente com hematomas no rosto decorrentes de possíveis abusos físicos (além dos psicológicos) que também fazem parte do lugar.
Uma sequencia específica é a mais dolorosa de assistir e mesmo carregada de um exagero que nunca é gratuito, mesmo porque o filme é baseado em fatos, não faz com o que o longa perca sua naturalidade e sensibilidade. Talvez antes de pensarmos nos organizadores do Love Action como vilões, eles também sejam pessoas completamente atormentadas e ignorantes que acreditam de fato de que é possível se livrar da homossexualidade como se ela fosse uma doença.
Joel Edgerton stars as the head of a “conversion therapy” program in Boy Erased, which he also directs.
Nosso protagonista no entanto, é diferente dos outros. Como diz o próprio nome “Boy Erased” (“Garoto Apagado”), o tratamento nada mais é que uma forma de apagar a personalidade das pessoas, seus gostos, opiniões, enfim, tudo aquilo que faz ela ser o que é de verdade. O momento em que Jared percebe realmente que isso não está sendo benéfico para ele, resulta em momentos bem tensos e também emocionantes. É aqui que descobrimos a força da personagem de Nicole Kidman, em uma das cenas mais emocionantes do filme. Russel Crowe também tem seu momento em uma cena mais para o final em que seu personagem evolui como ser humano.
Com uma simplicidade e um ritmo mais desacelerado que pode até incomodar algumas pessoas, Boy Erased: Uma Verdade Anulada, consegue tratar de mais um assunto que vale sempre ser discutido dentro da causa LGBTQ+ ao mesmo tempo em que faz isso sem didatismos, optando por uma abordagem mais intimista do personagem principal.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

"Grey Gardens" - Documentando passado e presente



Os irmãos Albert e David Maysles, foram dois grandes documentaristas conhecidos por um estilo chamado de cinema direto. O termo nada mais é que um gênero de documentário também conhecido como documentário observativo. Nesse estilo há literalmente uma observação do que está sendo apresentado. Não há uma interferência direta do cineasta, que aqui é ignorado, assim como a câmera. Há uma pretensão de neutralidade e naturalidade, transmitindo a ideia de realidade. Não há narração nem entrevistas, muitas vezes sem uso até mesmo de uma trilha musical.
Os avanços tecnológicos no Canadá, na Europa e nos Estados Unidos, logo após a Segunda Guerra Mundial, trouxeram as câmeras de 16mm e gravadores de áudio que possibilitavam o carregamento de uma só pessoa. Captação de som já podia ser sincronizada com as imagens, sem a necessidade de equipamentos volumosos ou cabos que uniam gravadores e câmeras. Câmera e gravador se moviam livremente no espaço no momento em que tudo acontecia, como aponta Bill Nichols no livro Introdução Ao Documentário, lançado em 2001.
O trabalho dos irmãos Maysles rompeu com a tradição dos documentário narrativos e faixas de música que guiavam o espetador a sentir algo. A montagem (edição) pode ser entendida como a "voz" narrativa desses filmes. Albert construiu sua própria câmera de 16mm que possibilitou que a mesma ficasse confortavelmente em seu ombro, eliminando a necessidade de um tripé e permitindo que ele filmasse com fluidez.
Com mais de vinte documentários realizados juntos, os irmãos Maysles fizeram história no cinema documental. Com David já falecido em 1987, Albert foi saudado em 1999 pela Eastman Kodak como um dos cem melhores cineastas do mundo. Além desse prêmio, vieram outros como o Prêmio de Cinematografia para Documentários do Festival de Sundance em 2001 pelo filme LaLee's Kin: The Legacy of Cotton. Albert também ganhou a Medalha Nacional das Artes que foi entregue pelo então presidente Barack Obama em 28 de julho de 2014. Albert faleceu em 2017 aos 88 anos.
Grey Gardens, filme de 1975 dirigido pelos irmãos Maysles, foi eleito em 2014 pela revista britânica de cinema Sight and Sound como o nono melhor documentários de todos os tempos. Filmado como um documentário observativo, a sinopse por si só já é bem cativante. Edith Beale, conhecida como "Big Edie", e sua filha Edith Beale, conhecida como "Little Edie", eram tia e a prima (de primeiro grau) respectivamente, de Jacqueline Kennedy Onassis, ex-Primeira-dama dos Estados Unidos e que ficou viúva do ex-presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy.
“Big” e “Little” Edie viveram juntas na propriedade de Grey Gardens por décadas, com recursos limitados, em meio a miséria e o isolamento. A casa foi projetada em 1897 por Joseph Greenleaf Thorpe e comprada em 1923 por "Big Edie" e seu marido Phelan Beale. Depois que Phelan deixou sua esposa, "Big Edie" e "Little Edie" viveram lá por mais de 50 anos. O nome Grey Gardens se deu por causa da cor das dunas, das paredes de cimento do jardim e da névoa do mar no local onde está a casa das duas mulheres, no vilarejo de East Hampton, condado de Suffolk em Nova York.
Entre 1971 e 1972, a casa estava infestava de pulgas e era habitada por gatos e guaxinins, sem água corrente na casa, além do lixo que estava por todo lado. mãe e filha foram notícia em um artigo no National Enquirer e uma reportagem de capa na New York Magazine. Os irmãos Maysles se interessaram pela história das duas mulheres e obtiveram a permissão para filmar o documentário sobre as duas mulheres. Lançado em 1976 com grande aclamação da crítica, a forma com que o filme foi conduzido, fez com que mãe e filha simplesmente contassem sua história diante da câmera.
Grey Gardens é fascinante na forma com que apresenta essas duas personagens e suas histórias de vida. Um contraponto se instala no filme entre as imagens que mostram a deterioração da casa e de seus objetos com a forma com que as personagens lembram o passado. É como se o espectador ainda pudesse visualizá-lo apesar de tudo já ter sido consumido pela poeira e pelos danos do tempo.
O notório, porém inofensivo dano psicológico presente em “Little Edie”, permite que a mulher traga em seu semblante um devaneio constante em sua fala e olhar. É como se às vezes presente e passado estivessem juntos na mesma pessoa. Mesmo quando ciente do estado da casa e de que nada é como antes, “Little Edie” parece encontrar na oportunidade de ver sua vida documentada, uma chance de poder aparecer (no bom sentido) e ser vista. Mesmo sem ter coragem de fato de deixar sua mãe, a personagem sonha com sua liberdade e pode viver em Nova York.
“Big Edie” por outro lado, não traz arrependimentos e sempre se orgulha em dizer que viveu a vida como quis. Mesmo vivendo em situação deplorável em meio ao lixo e em uma casa que precisa urgentemente ser limpa e reformada, ficamos com pena dessas duas mulheres, mas ao mesmo tempo embarcamos na história de vida de ambas. Quase de forma teatral, mas não forçada, “Little Edie” canta, se orgulha em exibir suas roupas e as combinações feitas por ela mesma, esquecendo por vezes a sua realidade. A câmera por vezes se fixa em alguns objetos do passado, como um retrato pintado de “Big Edie” ainda na juventude, que faz um contraste com a mulher no momento do filme.
Grey Gardens tem um efeito raro de nos apresentar uma história de uma realidade triste, ao mesmo tempo em que a força de suas duas personagens, faz o filme ser coberto por uma utopia que nos faz acompanhar dois mundos simultâneos: o da realidade mais dura e o dos sonhos e das bonitas lembranças que de tão vívidos ainda na memória de suas personagens, nos faz esquecer do pó que os cobrem. 

Erotismo e a cidade: Vidas nuas (1967) de Ody Fraga

  O aspecto mais interessante em Vidas nuas é a fluidez como a cidade de São Paulo é filmada, desde seu primeiro plano quando temos acesso ...