sábado, 14 de janeiro de 2017

Verão, Filmes Indies e Nostalgia no cinema

Quando falamos em produções independentes não estamos apenas falando de filmes de baixo orçamento realizados por pequenas produtoras, ou filmes experimentais com pouco poder de dialogo com o público, mas também pode-se citar filmes que costumam inovar a linguagem cinematográfica e revelar novos diretores e atores, além de dar oportunidades para que atores já veteranos mostrem sua versatilidade na atuação, em filmes que fogem dos padrões  e assuntos corriqueiros dos filmes feitos para lotar salas de cinema.

Esses filmes estão ganhando cada vez mais espaço até mesmo dentro da indústria, que por vezes mesmo contando com todo o suporte que o dinheiro pode oferecer costumam recriar a atmosfera de filmes pequenos e despretensiosos que acabam por envolver o público com suas histórias delicadas ao colocar o foco no homem comum.

Os filmes indies trazem para as telonas os mais variados temas, desde os que seriam barrados no circuito comercial, até simples narrativas do cotidiano. Nos últimos anos esses filmes têm atraído muitos olhares, principalmente do público mais nostálgico e em busca de reflexões, elementos esses que não são encontrados facilmente em filmes blockbusters.

Alguns filmes produzidos recentemente se encaixam nesse padrão, com o poder tirar o espectador de seu lugar comum, e lança o olhar em histórias que poderiam passar despercebidas, porém trazem elementos de identificação, despertando nostalgia em seu público. 

 “O Verão da Minha Vida” (Jim Rach e Nat Faxon  - 2013) 

“O Verão da Minha Vida”  -  Jim Rach e Nat Faxon 
O filme se passe nos dias atuais e o clima de nostalgia está sempre presente na narrativa, a fotografia lembra a de filmes que abordam lembranças e memórias de um passado próximo dos anos 1980 ou 1990.

“O Verão da Minha Vida”  -  Jim Rach e Nat Faxon 
 A história gira em torno das férias desastrosas de Duncan (Lian James), um garoto de 14 anos, introvertido e de sua família disfuncional que passa férias em uma casa de praia. O garoto tem um padrasto daqueles típicos "machões", que implica sempre com o menino. Em meio a dias ensolarados e tediosos, Duncan vai se descobrindo e adquirindo maturidade à medida em que vai fazendo novas amizades.

O padrasto chato é vivido pelo ator Stive Correll em uma atuação um tanto diferente das quais estamos acostumados a ver o ator, o elenco ainda tem a brilhante Toni Collet, que vive a mãe de Duncan.


 “Ferias Frustradas de Verão” (Greg Mottola - 2009)

“Ferias Frustradas de Verão” - Greg Mottola


Ferias Frustradas de Verão é um filme que se passa no ano de 1987 e segue todo um clima nostálgico, para falar sobre as experiências de um jovem durante um monótono emprego de verão em um parque de diversões. 

Jess Assemberg (bem antes do sucesso de “A Rede Social”, e de ser cogitado para o papel de Lex Lutor), vive James Bremmen, um garoto que sonha em se tornar escritor e precisa levantar uma grana para ir estudar em Nova York, para realizar seu sonho ele vai trabalhar no parque de diversões de sua cidade, um emprego bem abaixo das suas expectativas, mas a única saída no momento, ele acaba fazendo amizades no trabalho e se apaixona por uma colega, “Emily”, vivida por Kristen Stewart em grande atuação,o elenco ainda conta com um jovem  Ryan Reynolds, que nem sonhava em virar o famoso Deadpool. 

O filme é regado a muita música dos anos 1980, o que da um charme especial a trilha sonora, que tem nomes como Lou Reed, The Cure, Judas Priest e David Bowie, entre outros, o que ajuda a acentuar os dramas e crises da juventude que é tratada com profundidade e naturalismo.

“Ferias Frustradas de Verão”  - Greg Mottola

“Os Reis do Verão” (Jordan Vogt-Roberts - 2013)

“Os Reis do Verão” - Jordan Vogt-Roberts


Outro bom exemplo de filme que se passa nos dias atuais, mas que mantém o clima de nostalgia tão forte que poderia muito bem se passar nos anos 80 é Os Reis do Verão de Jordan Vogt-Roberts . 

O longa acompanha Joe Toy (Nick Robinson), um garoto que não aguenta mais as pressões e cobranças do pai autoritário e acaba tendo a ideia de ir morar sozinho com os amigos no meio de uma floresta como tentativa de fuga da vida que levava, sozinho o garoto terá que lidar com as crises do amadurecimento.

O filme segue a pegada de aventuras entre garotos como os já conhecidos "Conta Comigo" de 1986 e "Os Goonies" de 1985, porém sua fotografia e montagem fogem  dos padrões das grandes produções americanas, o que deixa o filme mais sensível e impactante. 

Mesmo com uma temática aparentemente simples  Os reis do Verão consegue ser minimalista e criativo, explorando os dramas comuns do ser humano.

“Os Reis do Verão” - Jordan Vogt-Roberts

Häxan - A Feitiçaria Através dos Tempos

O cinema independente, mais precisamente o do gênero do terror, já falou sobre bruxaria no último “A Bruxa de Blair” de Eduardo Sánchez, e Daniel Myrick. O filme não chega a ser exatamente sobre o tema bruxaria, focando mais na investigação (no formato found footage) de três jovens sobre uma lenda de uma bruxa que sacrificava crianças. O longa se tornou um enorme sucesso na época de seu lançamento, arrecadando 248 milhões nas bilheterias. 

“A Bruxa de Blair”  - Eduardo Sánchez
 

No ano passado o tema voltou a ser abordado em “A Bruxa”, do diretor estreante Robert Eggers, que foi muito elogiado pela crítica ao tratar de forma extremamente fiel, a vida de uma família por volta de 1630 que se vê vítima de bruxaria.

 “A Bruxa” - Robert Eggers
  

Embora nesse último a história se passe numa época em que ainda existia a caça às bruxas, ambos os filmes conseguem criar uma atmosfera incomoda o suficiente para conquistar o espectador ao criar um desconforto com aquilo que muitas vezes não pode ser visto, ou com situações mais sinistras.

Mas para quem não sabe, a bruxaria já foi mencionada no cinema mudo, e de forma muito madura. Em 1922 foi lançado “Häxan - A Feitiçaria Através dos Tempos”, um documentário dividido em quatro partes que é um verdadeiro estudo sobre a bruxaria no século XV, juntamente com a inquisição, que foi instituída pela igreja católica.

“Häxan - A Feitiçaria Através dos Tempos” -  Benjamin Christensen

O longa foi filmado entre 1919 e 1921 na Suécia e na Dinamarca, tornando-se o filme mudo mais caro já produzido na Escandinávia, com gastos de produção chegando a um milhão e meio a dois milhões de coroas suecas. Banido nos Estados Unidos e censurado em outros países, o filme foi todo filmado durante a noite para manter o tom do tema abordado.

A produção é bem caprichada e bem didática, porém seu didatismo não cai no tédio. Como um documentário tipicamente expositivo, ele dialoga diretamente com o público, fazendo o uso de imagens que comprovam tudo o que está sendo dito, e intertítulos explicativos (que seriam substituídos pela narração em off no cinema falado) que passam objetividade e domínio do assunto que está sendo abordado.

“Häxan - A Feitiçaria Através dos Tempos” -  Benjamin Christensen

A produção ainda faz uso de dramatizações com atores que ajudam a ilustrar o cotidiano dessas “bruxas” e até seus rituais, em cenas muito bem filmadas e sinistras. Destaque para uma cena que mostra diversas bruxas voando em suas vassouras. A cena surpreende para a época, e fez uso de uma cidade em miniatura e diversas atrizes filmadas individualmente que depois foram inseridas “no céu” através de uma impressora óptica, para dar a impressão de estarem realmente sobrevoando a cidade. 

Häxan - A Feitiçaria Através dos Tempos é mais que um estudo da bruxaria, pois vai além ao fazer uma analogia com a época em que o filme foi lançado, mostrando também o sofrimento de tantas pessoas com problemas psicológicos, ou até que tinham uma religião que envolvia rituais, mas que por preconceito, eram hostilizadas (e por isso consideradas “bruxas”) pelos demais por conta de crendices e preconceito que resultaram em um julgamento injusto e covarde. 

“Häxan - A Feitiçaria Através dos Tempos” -  Benjamin Christensen


Texto de: Tarcísio Paulo Dos Santos Araújo

sábado, 7 de janeiro de 2017

Desafios da Maternidade no Cinema de Terror

A maternidade costuma ser vista pela sociedade, de uma forma geral, como um momento de extrema importância, quase como uma missão que deverá ser cumprida em algum momento da vida de uma mulher.  No entanto, nem tudo são flores, sendo bem comum que algumas mulheres não estejam preparadas para lidar com seus filhos ou com a chegada dos mesmos.

Os motivos podem ser variados, afinal, nossa mente é complexa o suficiente e podemos lidar com receios e traumas de formas diferentes. O cinema pode facilmente fazer uso dessas dificuldades através do gênero do terror, ao usar seus elementos mais comuns para exacerbar as dificuldades da maternidade.

Dois filmes são extremamente interessantes nessa discussão e embora ambos possam ser interpretados pelo âmbito do sobrenatural, vale a pena sairmos um pouco de uma interpretação mais comum e perceber como alguns filmes podem estar querendo ir mais além do que um simples filme que foca sua narrativa no que não pode ser explicado pela ciência.

O primeiro filme já é considerado um clássico do terror e foi baseado no livro homônimo de Ira Levin. O Bebê de Rosemary (1968), foi dirigido por Roman Polanski e narra a história de um jovem casal, Rosemary (Mia Farrow) e Guy (John Cassavetes), que se muda para um apartamento com alguns excêntricos vizinhos. Ao engravidar, Rosemary entra em um mundo cheio de paranoia e insegurança que passa a controlar sua vida.

Diferente de muitos filmes típicos do gênero, “O Bebê de Rosemary” vai contra muitos elementos que seriam facilmente usados em outros filmes. Aqui não é usado um uso excessivos de sombras, uma casa que pareça ser assombrada, muito menos sustos fáceis. Pelo contrário, encontramos logo no início, uma fonte rosa e mais delicada que nos apresenta o título do filme.

"O Bebê de Rosemary" -  Roman Polanski (1968)

Tons em amarelo representam no começo a alegria e a expectativa do casal em começar uma vida nova. Na casa, essa atmosfera praticamente não sofre grandes alterações, deixando todas as mudanças para a personagem. O design de produção (direção de arte) consegue criar uma ideia de forte debilitação da personagem através de um corte de cabelo bem mais curto e de roupas mais justas e uma maquiagem que deixa Farrow pálida e com olheiras.

"O Bebê de Rosemary" -  Roman Polanski (1968)
"O Bebê de Rosemary" -  Roman Polanski (1968)

Toda a narrativa se sustenta (de forma muito eficaz) a partir de situações de desconforto vivida pela protagonista. Rosemary vai ficando fraca cada vez mais fraca enquanto suspeita que seus excêntricos vizinhos e seu marido possam estar arquitetando algum plano diabólico contra ela e seu bebê.

A câmera muitas vezes assume a visão da personagem, como se algo oculto estivesse sendo escondido de Rosemary e consequentemente, do espectador. 

"O Bebê de Rosemary" -  Roman Polanski (1968)

Se de um lado temos Rosemary ficando cada vez mais debilitada com a gravidez e suspeitando que seu bebê corre perigo, do outro temos Guy e os vizinhos sempre tentando acalmá-la, garantindo que tudo irá ficar bem. Todos os elementos usados no filme podem ser vistos como fruto de uma possível repressão religiosa vivida há um tempo por Rosemary, que foi somado ao peso e o receio da maternidade, que cobrará da protagonista uma decisão de como encarar o fato de ser mãe.

O segundo filme é “O Babadook” (2014). O longa independente, é o primeiro da australiana Jennifer Kent, baseado em seu curta “Monstro”, lançado em 2005. O filme teve uma boa resposta da crítica e já circula em listas de possíveis filmes que poderão se tornar um clássico do terror daqui a alguns anos.

Amelia (Essie Davis) é viúva, e mesmo passados seis anos da morte de seu marido, a mulher ainda vive atormentada pelo ocorrido. Samuel (Noah Wiseman) tem seis anos e é filho de Amelia. O garoto tem se comportado mal na escola, para o desespero da mãe que não sabe como lidar com ele. Para piorar, um livro intitulado “O Babadook” surge na prateleira do quarto do garoto, que parece libertar uma criatura maligna que fará de tudo para destruir Amelia e Samuel.

“O Babadook” - Jennifer Kent (2014)
Mesmo o filme ganhando toques que lembrarão outros clássicos como “O Iluminado” e até mesmo “O Exorcista”, o longa consegue criar identidade própria e uma atmosfera de total apreensão e desconforto sem ser apelativo com cenas de extrema violência, excesso de sangue e claro, os famosos sustos gratuitos. Kent consegue cria um incomodo no espectador que torce para que a relação entre mãe e filho se restabeleça.
As atuações são espetaculares, principalmente a de Essie Davis, que em determinadas cenas, parece mudar de rosto sem o auxílio de qualquer efeito especial de maquiagem. Tudo com sua atuação.

O design de produção também dá um toque muito especial ao filme. Tons acinzentados, azuis e pretos predominam na casa e o figurino dos personagens, passando toda uma carga pesada e negativa. É possível notarmos também características e sombras dos filmes do expressionismo alemão. A casa também incorpora um design que parece ter saído de um livro infantil, mas sem perder seu realismo. O filme possui uma linha tênue entre realismo e fábula, guiando tudo para o fantástico.

“O Babadook” - Jennifer Kent (2014)

Tanto “O Bebê de Rosemary”, quanto “O Babadook” se mostram filmes bem eficientes no que diz respeito a uma elaboração de uma narrativa que permite mais de uma interpretação, convidando o espectador a refletir sobre o que viu. Além disso, é possível captar em ambos o drama, muito difícil em alguns filmes de terror que parecem usar seus personagens como peças para situações que chocam, sem respeitar o lado humano dos mesmos. 



Texto de: Tarcísio Paulo Dos Santos Araújo



domingo, 1 de janeiro de 2017

The OA - ultima série de 2016

1° dia de janeiro, dia de fazer promessas e colocar o ponto inicial nas listas que prometemos fazer de séries filmes e livros para o ano, além atualizar as postagens do blog, esse ano acredito que terei mais tempo e farei isso com mais tranquilidade e frequência, mas comentar criticar e recomendar filmes livros e séries requer tempo para assistir e dar uma estudada nos conteúdos que são produzidos, borá lá então...

Sem mais delongas o ano de 2016 foi promissor com o que se refere à produção de séries, assistimos a consagração da Netflix, que acrescenta a seu catalago suas próprias produções e, diga-se de passagem, trazendo ao mundo do entretenimento uma maior diversidade de temas e formas de se produzir audiovisual seriado, várias equipes de produção de muito talento com artistas que por vezes descartados pela grande mídia televisiva ou a do cinema, encontraram o lugar ideal para inovar, o serviço de streaming abriu espaço para produções mundiais que trazem um novo frescor ao universo do cinema.

Durante o ano a estrela do catalogo foi à aclamada série “Stranger Things” (Matt Duffer, Ross Duffer), a qual com certeza faremos análise aqui no blog, mas o ano fechou muito bem com a série “The OA” com uma primeira temporada encantadora, que agarra o espectador já em seu piloto, com um roteiro enigmático que consegue segurar a atenção durante os 8 episódios da primeira temporada, se você gosta de ficção cientifica a série é para você, ela aborda teorias de viagens no tempo e, questões de experiências de vida pós morte, tratando de forma muito singular e criativa a experiência de quase morte (EQM).


The OA, trás como protagonista Prairie (Brit Marling) uma jovem misteriosa que é encontrada no primeiro episódio depois de uma tentativa de suicídio.  Ela havia passado 7 anos desaparecida e antes de retornar a sua cidade natal era uma garota cega, agora podia enxergar o que foi considerado um milagre na região onde morava, porém no decorrer dos episódios a história vai se desenrolando de uma forma bem interessante em duas camadas de montagem, uma na qual   Prairie ou OA, como ela gosta de ser chamada, está aprendendo a voltar a vida depois de anos desaparecida, e outra camada na qual ela narra sua própria história e conta tudo que aconteceu desde que desapareceu.

Esse modo de montagem torna tudo muito envolvente, pois nos são apresentados todos os personagens que estão envolvidos na trajetória da Prairie, tudo que acontece em sua vida e como deixou de ser cega vai sendo explicado (neste post não darei spoilers).

Fora uma boa premissa de uma boa narrativa complexa de ficção cientifica, a série aborda questões de misticismo, amadurecimento e comportamento humano, com uma boa pitada de teorias filosóficas e psicológicas, além de referencias dentro do cinema, filmes como “Pacto sinistro” (Alfred Hitchcock) de 1951, e nomes como Stanley Kubrick, são citados pelos personagens e não para por ai só nas citações, a série trás referências estéticas dos grandes mestres do cinema durante os episódios, que os bons observadores e cinéfilos vão perceber.

Os personagens giram em torno da protagonista, basicamente dois núcleos um nos dias atuais durante a série, um grupo de adolescentes estudantes disfuncionais, com problemas de comportamentos e familiares, que se juntam a Prairie e passam a escutar suas histórias, é através desses momentos que temos acesso ao passado sombrio da personagem, e aos personagens do segundo núcleo, que estão nas lembranças da personagem que se abre aos garotos fazendo revelações que passa a mudar suas rotinas e comportamentos.




Esse modo como a série se desenrola faz com que se crie empatia pelos personagens de forma rápida, mesmo que muitos deles sejam pessoas não muito agradáveis, com histórico de violência ou uma professora de meia idade sem muitos atrativos a principio. As rodas de conversa faz com que eles partilhem suas experiências e possam se conhecer assim como em terapias de grupo ou algo muito próximo do que acontece do filme “Clube dos Cinco” (John Hughes) de 1985, nas rodas de conversa enquanto os personagens estão presos conseguimos entende-los melhor, e, diga-se de passagem, o número 5 de personagens é o número da série, e cada um deles são apaixonantes, cada um a seu modo.

A fotografia da série é um charme a parte, lembra muito filmes “indies” Europeus, e por vezes temos planos realísticos de bairros e casas, que também nos remete ao cinema brasileiro contemporâneo, dando aquele toque de filme independente de baixo orçamento, uma estética muito recorrente quando a produção quer abordar um realismo quase documental. Muitos planos são bem aproveitados com luz natural e com a ausência de luz, que nos remete a escuridão vivida pela personagem que boa parte da série é cega, mas também a cegueira interior e a jornada de autoconhecimento que se enfrenta no desenrolar da trama, temos planos e insertes belíssimos da natureza e dos ambientes num geral, porém a fotografia não para no naturalismo, como dito a série se desdobra em uma montagem complexa de camadas tanto nas narrativas, na montagem, mas também na fotografia, temos momento místicos, nos quais a proposta é feita de forma minimalista sem medo do clichê e funciona muito bem as imagens de experiência de quase morte dos personagens que viajam por outras dimensões, dando imagens simples e muito bonitas dessas experiências ao espectador.


A atriz Brit Marling, que interpreta a protagonista, é uma roteirista e também uma das criadoras da série, um trabalho recente dela que trás um pouco da atmosfera da série é o filme “O sistema” de 2013, dirigido por Zal Batmanglij, que também dirige a série, a dupla já funcionou bem antes, a relação do filme com a série é apenas no que desrespeito a critica a sociedade pós-moderna capitalista, através de uma dose de misticismo e ideias de autoconhecimento.

Aproveite que o ano esta só começando e assista The OA, vale muito apena, comente o que achou, em breve poderei fazer mais análises dos episódios.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A invenção do cinema, o dia 28 de Dezembro e os Irmãos Lumière

Há exatamente 121 anos, a invasão de um trem mudaria para sempre o mundo.

Calma, não se trata de uma tragédia ou algo do tipo. É que em 28 de dezembro de 1895, no Salon Indien du Grand Café, 14, Boulevard des Capucines, em Paris, uma projeção de diversos filmes curtos, com a duração de 20 minutos no total, foi realizada.


Entre eles estava o pequeno filme “L’Arrivée d’um Train en Gare de La Ciotat” (A Chegada de um Trem na Estação), cuja perspectiva sugeria que o trem “invadisse” a sala de exibição, o que chegou a assustar muita gente.

Lembrando de que estamos falando dos irmãos Auguste e Louis Lumière, e do cinematógrafo.

A caixa de madeira equipada com uma lente em sua parte dianteira, e uma pequena manivela do lado direito, foi desenvolvida sob encomenda pelo engenheiro parisiense Jules Carpentier. Diferente dos outros equipamentos de filmagem que já haviam sido inventados na época, o cinematógrafo pesava bem menos, e era capaz de filmar, copiar e projetar. Quer mais modernidade que isso?

cinematógrafo

Auguste e Louis Lumière
Na verdade, no dia 22 de março de 1895 fora realizada para os membros da Société d'Encouragement pour l'Industrie Nationale o que seria considerada a primeira exibição pública de um filme. A exibição era do curta (embora ninguém ainda usava esse termo) “La Sortie de l'usine Lumière à Lyon” (A saída dos operários da Fábrica Lumière), que compunha oitocentos fotogramas e tinha a duração de 50 segundos. A câmera foi posicionada em frente a fábrica, no horário de almoço dos funcionários.

Em 10 de junho, o cinematógrafo foi exibido na convenção de fotógrafos em Lyon, desta vez já com oito filmes no programa.

Mas você deve estar se perguntando qual a relevância do dia 28 de dezembro de 1895, se já existiam exibições anteriores?

 Ocorre que os inventores tinham criado equipamentos de filmagem que eram inferiores ao cinematógrafo, e não se importavam com o público, restringindo as exibições apenas para as comunidades científicas.

O dia 28 de dezembro marca o grande encontro do cinema com o público, já se iniciando com as pessoas que passavam pela calçada e se interessavam pelo cartaz que anunciava a exibição dos filmes. Nascia então o “cinema de atrações”, um cinema ainda sem uma narrativa estabelecida em que o novo, o diferente, era justamente ver as imagens em movimento em uma tela grande.

Já o famoso trem que não chegou a sair da tela invadindo o lugar onde estavam as pessoas, conseguiu um feito muito maior: invadiu os olhares de cada um ali presente, trazendo consigo uma nova forma de arte e entretenimento. 


 “L’Arrivée d’um Train en Gare de La Ciotat” (A Chegada de um Trem na Estação)



Texto de: Tarcísio Paulo Dos Santos Araújo

domingo, 6 de novembro de 2016

Análise fílmica do filme: “A Rede Social” - David Fincher, 2010

Análise da montagem

O filme a “A Rede social” narra a história de Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, que é interpretado pelo ator Jesse Eisenberg. O filme acompanha o personagem de Mark desde o surgimento da ideia até o sucesso com o Facebook, expondo intrigas que surgiram nesse processo, e que levaram a batalhas judiciais.

O filme se desenvolve entre um processo e outro, na justiça, onde a historia é acompanhada, através de relatos, no tribunal; o que é comum em filmes de tribunal e julgamentos, onde a historia é narrada, apresentando os fatos, que geralmente, são apresentados na perspectiva de uma das personagens que conta em seu julgamento como tudo aconteceu.

Até essa parte o filme apresentaria uma abordagem simplista, mesmo com insertes e com o uso de flashbacks reveladores. O que da a Rede Social, uma forma mais interessante e mais atraente é a montagem, e a forma de se colocar os fatos em ordem, dentro da narrativa. Um elemento importantíssimo dessa forma, é a presença da música e da trilha sonora, que ajudam a pontuar a estrutura da montagem que por vezes é guiada de forma rítmica pela trilha sonora.

Logo na abertura do filme na aparição dos logos das produtoras, ouvimos um som marcante da trilha, como se anunciasse algo do qual não se esperava em um filme de biografia de um empresário bem sucedido. As passagens de uma cena para outra ou até de um plano para outro é sempre seco, marcando esse ritmo de constante quebra do olhar do espectador, assim que aparece a primeira imagem, temos um Pub, lotado e acompanhamos uma conversa entre Mark e Erica (Rooney Mara), a música passa a fazer parte do som ambiente, planos e contraplanos marcam o dialogo de apresentação do personagem de Mark, onde são reveladas as características da personagem principal, como sendo alguém distante, do convívio social, e com dificuldades de manter um relacionamento. Pode-se perceber desde deste momento que a maioria dos planos são próximos, bem intimistas, colocando o espectador bem próximo daquele universo, essa é uma característica quase predominante no filme inteiro.

Quando Mark é rejeitado, inicia-se a trilha que esta presente em quase todo o filme, uma trilha melancólica, que evidencia o estado de espírito da personagem, assim que Mark deixa o Pub, inicia-se uma sequência, ao som da trilha, com planos da cidade,da faculdade de Havard, em um tom de coloração escuro e melancólico, Mark é acompanhado por diversos planos sequências pelo caminho até seu dormitório na faculdade, neste momento aparecem os créditos iniciais, essa sequência é marcada por uma característica bastante forte no filme que é uma montagem videoclipitica, onde a musica vai pontuado, os cortes e os enquadramentos, essa primeira sequência dessa forma é marcada pela melancolia, colocando o personagem como um jovem comum no mundo, e com o coração partido, trazendo o “Homem de negócios” bem sucedido para uma forma mais humanizada. Os planos são até mais lentos do que os da maior parte do filme, e fora a presença marcante da trilha, os sons ambientes estão sempre presente, sendo evidenciados antes mesmo que estejam presentes em vídeo, como se servisse de alerta ao espectador, da forma como a montagem vai se conduzir, pois ela está muito atrelada à forma como o som por sua vez é utilizado, fazendo as passagens secas de um determinado momento para outro, em espaço, e até no tempo.

São utilizados alguns insertes de texto durante o filme para mostrar datas e locais, mas não é utilizado esse recurso quando se corta de uma ação do passado, e o julgamento, isso deve ficar por conta do espectador entender, pois alem das rupturas secas, e a falta de informações, não há nem uma mudança de coloração, essas idas e vindas no tempo passam a ser incorporado na montagem como sendo tudo apenas uma coisa só, ocorrendo um estranhamento apenas na primeira interrupção.
Os mesmos planos que seguem Mark, pela cidade e pelo Campus da faculdade, são usados da mesma forma dentro do prédio e dentro de seu dormitório, apenas diminuindo a proporção, até tornar novamente os planos próximos e intimistas.

Inserte de texto marcam os horários de postagens de Mark, em seu blog na internet, os planos começam a ficar mais curtos, correndo da tela do computador, para as mãos e para o rosto de Mark, até mesmo para outros garotos no quarto.
Enquanto Mark escreve em seu blog inicia-se uma narração do que o personagem escreve, (falando mal da ex namorada), os planos acelerados, revelam angustia de Mark, e também mostra o impacto instantâneo por onde a mensagem pode se repercutir. É essa basicamente a forma que é trabalhada na montagem o impacto em tempo real das redes sociais.

A sequência seguinte, enquanto mostra Mark, hakeando os arquivos de foto da faculdade, para postar na internet, inicia-se uma musica eletrônica com batidas pontuais, e são apresentadas de formas videoclipiticas a vida social no campus da faculdade, entre festas, e bagunça, em contraste, com os alunos presos no quarto em frente ao computador, hakeando.O ritmo da musica  e os cortes de planos vão dando a ideia de como as coisas funcionam ao mesmo tempo, e adiantam a ideia de “vida social de forma virtual”.

A montagem trabalha em função de mostrar o caminho que fazem as mensagens circulando na internet, mostrando o acesso em lugares diferentes, e mostrando as reações, diferentes das pessoas, envolvidas, a forma como os planos são colados, e os movimentos de câmera, em um balanço continuo de sequência, como por exemplo, se um plano em uma sala, se encerra com a câmera se movendo para a direita, podemos acompanhar num plano seguinte a continuação desse movimento, mas em outro contexto, dando a forma de transporte da mensagem, em tempo real.
A apresentação de Eduardo (Andrew Garfield) é feita de forma semelhante a sequencia de caminhada de Mark pelo campus, com planos sequências, que o seguem até sua checada ao quarto de Mark.

Com a chegada de Eduardo, a música vai diminuindo, e a narração de Mark, explica a importância de Eduardo para seus projetos. Inicia-se outra sequência pontuada pela trilha sonora, dessa vez acompanhando mais de perto a reação das pessoas, em uma rede social, a primeira parte da sequência vai de janela em janela, com no filme “Janela Indiscreta” 1954 Alfred Hitchcock, o que muito provavelmente evoque a ideia da vigilância da vida alheia. E coloca o espectador na posição de observador daquelas pessoas, a montagem começa a encurtar os planos e as sequencias dando um ritimo mais acelerado.

A sequência vai até o quarto do diretor que é informado que a internet da faculdade foi derrubada pelo grande numero de acessos, outro elemento que se destaca, é que os telefonemas tanto quanto as conversas online no filme, são trabalhadas, mostrando todos os pontos de emissão de informação, desse modo é possível se ter noção de quão longe as informações chegam em um pequeno espaço de tempo, através de tecnologia, dando ideia de conexão.

Essa primeira parte do filme se encerra com o primeiro corte seco para a sala onde acontece um dos julgamentos que Mark sofre, durante o filme. Só a partir desse momento se tem a dimensão de o quanto Mark havia crescido depois do Facebook, e se tem um Eduardo adversário de Mark, essa é uma das cenas mais longas no na sala de julgamento, a maioria das outras intervenções entre a sala do julgamento e o decorrer da historia que acontece paralelamente, temos um Mark imaturo, e passando por problemas como um jovem comum, nada espetacular.

Durante o filme esses cortes secos entre a sala de julgamento e a sequencia linear da história vão aumentando, e apresentando ouros personagens, que desejavam processar Mark.
O interessante que muitos desses cortes, completam movimentos de câmera, e até mesmo diálogos, de um momento no tempo para outro, o que é conseguido pelos cortes secos e rápidos, colocando as duas sequências numa dimensão única na linearidade da história do filme.

Na cena em que Eduardo e Mark, conseguem sair com garotas, por terem criado o Facebook, a montagem segue os modelos rápidos, de cortes, dando mais ênfase em Eduardo, com uma garota no em um Box de banheiro fazendo sexo, do que em Mark, que são mostrados apenas os chinelos, a cena se passa um pouco antes dele se reencontrar com Erica, e tentar se dissipar, sem sucesso, pois ela ainda estava chateada, com ele. Esta sequencia, do banheiro, onde Mark e Eduardo parecem vitoriosos, e a queda de Mark diante de um relacionamento, marcam, o ponto de virada de Mark, dentro da história, de um rapaz tímido, tentando se socializar, para alguém que não se importa com a sociedade, quer apenas o sucesso. A trajetória de Mark, no filme é mais próxima de um astro de rock em ascensão, com esse tipo de sequência, do que a de um empresário.

A apresentação do personagem de Sean Parker (Justin Timberlake), acontece nesse clima de astro do rock, a sua primeira cena, que é quando fica sabendo do Facebook, é iluminada, de forma mais clara, dando a áurea mais leve e descontraída do personagem inconsequente, e a relação de Mark e Sean Parker, é mantida nesse contraponto, mostrando como Mark faz a transição para um mundo mais badalado socialmente, a maioria das cenas com os dois pende de um lado para o outro de estado de espírito, planos e contraplanos são mostrados, nos diálogos, e música alta ambiente faz os personagens conversarem em um tom muito alto de voz, sugerindo um descontrole de Mark, que até então se mantinha controlado com Eduardo, dando a ideia de uma outra virada na postura de Mark que começa a entrar de cabeça nas ideias de expansão de negócio de Sean.

A sequência seguinte é outra no formato videoclipitica, onde mostra a competição dos gêmeos Winklevoss (Armie Hammer) de remo. A sequência é toda trabalhada sobre o som da música, o ritmo da competição, é evidenciado pelos planos rápidos, do esforço dos atletas, em seus rostos e braços, e tomadas distanciadas, do rio, e do publico da competição, além de planos da mudança no placar, tudo pontuado na batida da musica que vai ficando intensa, e acelerada como os planos. Culminando na derrota da equipe, dos Winklevoss, que é uma derrota antecedida, a descoberta de que os negócios com o Facebook iam bem e gerava muitos lucros, e faz com que eles se sintam lesados por Mark ter se aproveitado da ideia deles, a sequência, impulsiona o sentimento do desejo de revanche dos Winklevoss, sobre Mark.

O que explica os cortes para o processo que Mark, enfrenta, pelos Winklevoss, durante o filme.
Além das sequências em forma de clipe e de sequências aceleradas, o filme ainda trabalha com outras sequências em ritmo normal, com planos próximos e muitos movimentos de travelig acompanhando os personagens, dando realismo e emoção, a certos momentos, tanto na primeira cena no Pub, no encontro de Mark e Erica, quanto na ultima cena, onde Mark conversa com a advogada, e também em algumas sequências com Eduardo, como na cena em que ele descobre que foi passado para trás nos negócios, onde temos planos subjetivos de Eduardo, e um movimento de câmera o seguindo até a mesa de Mark, e tendo um ataque de raiva quebrando o computador, os cortes são bem sutis, e percebemos a descontração emocional das personagens, acompanhando a reação de Mark, Eduardo, Sean, e dos outros ao redor.

A montagem dessa forma cria um equilíbrio emocional e envolve o espectador, com pistas e recompensa, trazendo a historia para frente e para trás encaixando as peças, de forma instigante, como é mais comum em suspense, não em biografias. 
A rede social, é um filme que trabalha na edição um equilíbrio e uma junção de som e imagem,  recebeu 8 indicações ao Oscar, e venceu vencendo na categoria de melhor roteiro(Aaron Sorkin) e melhor edição (Kirk Baxter e Angus Wal) e melhor trilha original (Trent Reznor e Atticus Ross). E também ganhou 4 globos de ouro, sendo um de melhor direção para David Fincher.

A Rede Social -  David Fincher, 2010

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Filmes infantis nos anos 90



Se você foi criança nos anos 90, com certeza se lembra dos filmes que passavam na sessão da tarde na TV Globo, ou no cinema em casa na SBT, não era todo mundo que tinha acesso a TV a cabo, e internet parecia algo distante, então se algum filme fosse amado pelas crianças ele seria exibido exaustivamente na parte da tarde, durante a semana na TV aberta mesmo.

Quem não se lembra de chegar da escola, e correr para a frente da televisão, e esperar passar um bom filme, e ficar dividido se as duas emissoras concorrentes estivessem exibindo filmes legais, e por vezes isso acontecia.

Bons atores e diretores eram envolvidos nesses projetos, os filmes ditos "para família" traziam formulas mágicas de entretenimento, que acabaram por virar boas lembranças para toda uma geração.

E você se lembra desses títulos? Se lembra de outros?

Então deixe o seu comentário.

"Três Ninjas – Uma Aventura Radical" - Jon Turteltaub, 1992

"o jardim secreto" - Agnieszka Holland, 1993

"A Chave Mágica" - Frank Oz, 1995

"Matilda" - Danny DeVito, 1997

"Esqueceram de Mim" - Chris Columbus, 1990

"Abracadabra" - Kenny Ortega, 1993

"a princesinha" - Alfonso Cuarón, 1995

"Guerreiros da Virtude" - Ronny Yu, 1997

Erotismo e a cidade: Vidas nuas (1967) de Ody Fraga

  O aspecto mais interessante em Vidas nuas é a fluidez como a cidade de São Paulo é filmada, desde seu primeiro plano quando temos acesso ...