domingo, 17 de fevereiro de 2019

Na Netflix: "Aterrorizados": o choque pelo desconforto


Lançado em 2018, Aterrorizados (Aterrados, 2017) foi escrito e dirigido pelo cineasta argentino Demián Rugna. O longa teve sua estreia internacional no Festival de Mar del Plata e teve uma recepção positiva por parte do público e da crítica. Com o sucesso, o longa já está disponível na Netflix e o diretor já anunciou que está trabalhando em uma sequência.
Em uma rua de um bairro na Argentina, três casas sofrem com acontecimentos estranhos. Um homem não consegue dormir por conta de uma estranha presença durante à noite em seu quarto, uma mulher ouve vozes vindas do ralo da pia da cozinha e outra mulher após perder seu filho em um acidente na própria rua, vê o corpo da criança (que aparentemente saiu do túmulo) dentro de sua própria casa.
Em meio a isso, três investigadores tentam descobrir o que está havendo nessa rua sinistra. Primeiramente é preciso deixar de lado um pouco alguns aspectos. Nem tudo no filme será explicado, deixando muita coisa para ser melhor trabalhada possivelmente na continuação que ainda irá estrear. O final pendendo para o clichê, acaba sendo anticlimático, como se ao chegar no fim, o filme tivesse sido cortado ou estivesse faltando a continuação.
Você deve se perguntar: Se o filme tem esses problemas, ele merece mesmo ser visto? A resposta é sim. Principalmente, claro, para os fãs de terror. Pouco preocupado com assustar constantemente o espectador, Aterrorizados segura seu público nos acontecimentos bizarros e numa sensação de insegurança dos personagens que acaba por nos deixar tensos junto com eles.
As criaturas não surgem do nada na tela para nos pegar de surpresa. Com raras exceções, elas surgem no momento certo e o próprio aspecto das mesmas, já nos choca sem precisar do tal susto junto com uma música estridente que se inicia quando menos esperamos. Ficamos à mercê do perigo e sem saber o que está acontecendo. Quando temos um pouco de informação sobre o que está acontecendo com as personagens vítimas dos estranhos acontecimento nas casas, tudo fica ainda mais bizarro e instigante.
Com algumas referências de filmes como A Morte do Demônio e as histórias de H. P. LovecraftAterrorizados é um bom filme do gênero do terror/horror que tem seus méritos. O roteiro poderia desenvolver uma história mais consistente, mas mesmo assim vale a diversão.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Dica de Documentário: Expedition Happiness


A dica de hoje é de um filme documental alemão, Expedition Happiness, dirigido e Co estrelado pelo casal Felix Starck e Selima Taibi.

O filme se trata de uma experiência de vida, na qual Felix, Selima e o cachorro de estimação Rudi se aventuram em uma viagem ambiciosa a bordo de um ônibus, com a meta de cruzarem o continente americano.



No começo do filme somos apresentados ao casal e as suas ideias sobre a viagem, enquanto eles reformam um ônibus estilo esses ônibus escolares americanos. Starck é um jovem cineasta que já havia se aventurado em outra jornada parecida, que também ficou registrada no documentário de sucesso “Pedal the World” de 2015. Já Selima Taibi que também conhecida como Mogli é uma cantora e compositora, que por sinal assina a trilha sonora do filme ela deseja que a viagem seja uma experiência criativa e inspiradora para a produção artística do casal.



Como o próprio titulo do filme sugere, se trata de uma expedição em busca da felicidade, eles desejam sair do lugar comum e registrar imagens em contato com as maravilhas da natureza, e conhecer novas culturas entrando diretamente em contato com a forma de viver de cada lugar que passarem, talvez esse seja o grande trunfo do filme, a experiência do conato humano, não apenas na relação estabelecida ente Felix Starck e Selima Taibi a bordo do ônibus, mas também a troca que eles fazem com as pessoas que vão conhecendo ao longo da viagem.



O filme é rico em paisagens deslumbrantes do Canada, dos Estados Unidos, do Alasca, e do México, na qual a natureza ganha destaque em belas imagens em planos demorados para que possam ser apreciados de forma a inspirar tranquilidade e paz. Porém todo o contato humano em diferentes culturas traz o charme do documentário, do qual não fica de fora nem mesmo problemas com o visto nos EUA, e até mesmo visitas em fazendas de pessoas possivelmente envolvidas com o crime organizado no México.



Tudo isso ajuda o filme a ganhar um peso emocional interessante, fugindo da proposta inicial dos sentimentos apenas de liberdade e felicidade, fazendo com que a viagem ganhe verdade em meio a problemas sérios encontrados pelo caminho, que passam de problemas com a manutenção do ônibus, e dificuldades de adaptação a climas diferentes, até problemas graves de saúde do cãozinho Rudi, o que coloca em cheque o desenrolar da viagem e obriga o casal a repensar o roteiro.

O filme tem uma direção moderna, em vários momentos temos a sensação de estarmos acompanhando dois amigos em uma viagem pelas redes sociais e pelo YouTube, pois tem várias tomadas e imagens com câmera na mão em formato de self, registros pessoais, e conversa cara a cara com a câmera como desabafos em estilo stories de Instagram,  ao mesmo tempo que temos o contraste com lindas tomadas panorâmicas e um controle de roteiro e edição que torna tudo muito bonito, além de uma trilha sonora que vem a calhar com lindas canções da própria Selima Taibi.



O filme é uma ótima pedida para quem curti documentários sobre estilo de vida e viagens, mas ele acaba indo além, flertando com estilos documentais como o performático e o reflexivo.
Se você ficou interessado em conferir o filme, vale lembrar que ele ainda está disponível no catálogo da Netflix.

domingo, 3 de fevereiro de 2019


A "cura gay" em "Boy Erased: Uma Verdade Anulada"

O ator australiano Joel Edgerton, estreou na direção com o excelente thriller O Presente (The Gift, 2015), no qual também atua. Agora no seu segundo filme, Boy Erased: Uma Verdade Anulada (Boy Erased, 2018), Edgerton repete os cargos na direção e também como ator coadjuvante. O ator e cineasta até agora tem se saído bem em ambas as funções, levando em conta quem nem sempre pode ser fácil dirigir e interpretar no mesmo filme.
Dessa vez em um drama sensível, Edgerton adaptou o livro Boy Erased: A Memoir, escrito por Garrard Conley em 2016. O livro narra as memórias de Conley durante o tempo em que ficou na Love Action, um ministério cristão dedicado a “curar” a homossexualidade de pessoas dispostas a “mudar” sua condição sexual. Vindo de uma família cristã protestante que vive no Arkansas, Conley é filho de um pastor que obviamente não aceitava a homossexualidade de seu único filho.
No longa os nomes foram modificados, tendo Lucas Hedges como Jared Eamons (Garrard), Nicole Kidman como Nancy Eamons (Martha, mãe de Conley) e Russell Crowe como o pastor Marshall Eamons (Hershel, pai de Conley). Joel Edgerton, interpreta Victor Sykes, o líder do ministério Love Action.
Seguindo a linha narrativa do livro, o longa não conta a história de forma linear, optando por progredir e regredir no tempo. O início já nos mostra a internação de Jared no ministério, enquanto começamos a voltar em situações antes da interação, em momentos pontuais em que o personagem precisa lembrar do que aconteceu com ele para fazer as atividades exigidas por Victor.
Por mais absurdo que uma terapia de conversão sexual possa ser, é curioso como o filme escolhe um tom mais ameno para retratar isso. Longe de um possível sensacionalismo, Love Action é retratado como um lugar extremamente bem organizado e sistemático. Em um primeiro momento, acreditamos até nas “boas intenções do lugar”.
A Câmera frequentemente passei pelos personagens enquanto são lidos tópicos importantes para que a “cura” seja realizada. Os internos sempre usam branco, talvez como forma de representar a pureza de espírito longe do “pecado”, já que é justamente essa espécie de libertação que é buscada no local. Ao mesmo tempo, quando há um enquadramento de todos juntos, podemos até nos lembrar de uma linha de montagem de automóveis onde todos parecem iguais, já que estão sendo condicionados a pensar e agir da mesma forma.
Jared nisso tudo, se mostra alguém disposto a tentar mudar sua vida para poder ser aceito em casa, já que a condição imposta por seu pai para que ele continue a viver junto com a família, é que ele mude. No decorrer dos dias, algumas tarefas são pedidas aos internos, sempre como forma de descobrir o motivo que levou com que o indivíduo tenha se “tornado” homossexual. É A partir daí que pontos chaves da vida de Jared nos permite conhecê-lo melhor, como por exemplo quando ele foi para a faculdade. Aqui mais uma vez o filme foge do óbvio.
Podendo abordar um romance mais típico entre dois garotos e talvez até se ancorar a isso para criar uma empatia mais fácil com o personagem, o primeiro contato íntimo do protagonista com alguém do mesmo sexo, é extremamente traumático e devastador. Esse acontecimento poderia caracterizar (para pessoas que pensam que a homossexualidade surge depois de algum trauma) o ponto inicial em que a homossexualidade de Jared teria se manifestado. Claro que não é assim, e o filme de forma simples e não didática, deixa isso bem claro. Depois um segundo contato entre Jared e outro garoto, sai novamente do óbvio e acaba sendo mais simples do que se poderia imaginar. Ao mesmo tempo a experiência simples e até inocente entre os dois jovens, foi extremamente impactante e benéfica para Jared.
No decorrer da narrativa vamos descobrindo melhor sobre os métodos utilizados para se alcançar essa espécie de regeneração das pessoas. Os momentos mais difíceis, por sinal, ocorrem com outros personagens, que em maioria, estão bem representados em cenas também pontuais. O cantor australiano Troye Sivan, que tem uma canção na trilha sonora do filme, interpreta Gary, que está ciente de que o “tratamento” não serve de nada, mas que se conformou em fingir que está dando certo. Xavier Dolan tem uma pequena participação no filme em pouco mais de quatro cenas em que faz um jovem que leva toda a experiência no ministério a sério, aparecendo constantemente com hematomas no rosto decorrentes de possíveis abusos físicos (além dos psicológicos) que também fazem parte do lugar.
Uma sequencia específica é a mais dolorosa de assistir e mesmo carregada de um exagero que nunca é gratuito, mesmo porque o filme é baseado em fatos, não faz com o que o longa perca sua naturalidade e sensibilidade. Talvez antes de pensarmos nos organizadores do Love Action como vilões, eles também sejam pessoas completamente atormentadas e ignorantes que acreditam de fato de que é possível se livrar da homossexualidade como se ela fosse uma doença.
Joel Edgerton stars as the head of a “conversion therapy” program in Boy Erased, which he also directs.
Nosso protagonista no entanto, é diferente dos outros. Como diz o próprio nome “Boy Erased” (“Garoto Apagado”), o tratamento nada mais é que uma forma de apagar a personalidade das pessoas, seus gostos, opiniões, enfim, tudo aquilo que faz ela ser o que é de verdade. O momento em que Jared percebe realmente que isso não está sendo benéfico para ele, resulta em momentos bem tensos e também emocionantes. É aqui que descobrimos a força da personagem de Nicole Kidman, em uma das cenas mais emocionantes do filme. Russel Crowe também tem seu momento em uma cena mais para o final em que seu personagem evolui como ser humano.
Com uma simplicidade e um ritmo mais desacelerado que pode até incomodar algumas pessoas, Boy Erased: Uma Verdade Anulada, consegue tratar de mais um assunto que vale sempre ser discutido dentro da causa LGBTQ+ ao mesmo tempo em que faz isso sem didatismos, optando por uma abordagem mais intimista do personagem principal.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

"Grey Gardens" - Documentando passado e presente



Os irmãos Albert e David Maysles, foram dois grandes documentaristas conhecidos por um estilo chamado de cinema direto. O termo nada mais é que um gênero de documentário também conhecido como documentário observativo. Nesse estilo há literalmente uma observação do que está sendo apresentado. Não há uma interferência direta do cineasta, que aqui é ignorado, assim como a câmera. Há uma pretensão de neutralidade e naturalidade, transmitindo a ideia de realidade. Não há narração nem entrevistas, muitas vezes sem uso até mesmo de uma trilha musical.
Os avanços tecnológicos no Canadá, na Europa e nos Estados Unidos, logo após a Segunda Guerra Mundial, trouxeram as câmeras de 16mm e gravadores de áudio que possibilitavam o carregamento de uma só pessoa. Captação de som já podia ser sincronizada com as imagens, sem a necessidade de equipamentos volumosos ou cabos que uniam gravadores e câmeras. Câmera e gravador se moviam livremente no espaço no momento em que tudo acontecia, como aponta Bill Nichols no livro Introdução Ao Documentário, lançado em 2001.
O trabalho dos irmãos Maysles rompeu com a tradição dos documentário narrativos e faixas de música que guiavam o espetador a sentir algo. A montagem (edição) pode ser entendida como a "voz" narrativa desses filmes. Albert construiu sua própria câmera de 16mm que possibilitou que a mesma ficasse confortavelmente em seu ombro, eliminando a necessidade de um tripé e permitindo que ele filmasse com fluidez.
Com mais de vinte documentários realizados juntos, os irmãos Maysles fizeram história no cinema documental. Com David já falecido em 1987, Albert foi saudado em 1999 pela Eastman Kodak como um dos cem melhores cineastas do mundo. Além desse prêmio, vieram outros como o Prêmio de Cinematografia para Documentários do Festival de Sundance em 2001 pelo filme LaLee's Kin: The Legacy of Cotton. Albert também ganhou a Medalha Nacional das Artes que foi entregue pelo então presidente Barack Obama em 28 de julho de 2014. Albert faleceu em 2017 aos 88 anos.
Grey Gardens, filme de 1975 dirigido pelos irmãos Maysles, foi eleito em 2014 pela revista britânica de cinema Sight and Sound como o nono melhor documentários de todos os tempos. Filmado como um documentário observativo, a sinopse por si só já é bem cativante. Edith Beale, conhecida como "Big Edie", e sua filha Edith Beale, conhecida como "Little Edie", eram tia e a prima (de primeiro grau) respectivamente, de Jacqueline Kennedy Onassis, ex-Primeira-dama dos Estados Unidos e que ficou viúva do ex-presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy.
“Big” e “Little” Edie viveram juntas na propriedade de Grey Gardens por décadas, com recursos limitados, em meio a miséria e o isolamento. A casa foi projetada em 1897 por Joseph Greenleaf Thorpe e comprada em 1923 por "Big Edie" e seu marido Phelan Beale. Depois que Phelan deixou sua esposa, "Big Edie" e "Little Edie" viveram lá por mais de 50 anos. O nome Grey Gardens se deu por causa da cor das dunas, das paredes de cimento do jardim e da névoa do mar no local onde está a casa das duas mulheres, no vilarejo de East Hampton, condado de Suffolk em Nova York.
Entre 1971 e 1972, a casa estava infestava de pulgas e era habitada por gatos e guaxinins, sem água corrente na casa, além do lixo que estava por todo lado. mãe e filha foram notícia em um artigo no National Enquirer e uma reportagem de capa na New York Magazine. Os irmãos Maysles se interessaram pela história das duas mulheres e obtiveram a permissão para filmar o documentário sobre as duas mulheres. Lançado em 1976 com grande aclamação da crítica, a forma com que o filme foi conduzido, fez com que mãe e filha simplesmente contassem sua história diante da câmera.
Grey Gardens é fascinante na forma com que apresenta essas duas personagens e suas histórias de vida. Um contraponto se instala no filme entre as imagens que mostram a deterioração da casa e de seus objetos com a forma com que as personagens lembram o passado. É como se o espectador ainda pudesse visualizá-lo apesar de tudo já ter sido consumido pela poeira e pelos danos do tempo.
O notório, porém inofensivo dano psicológico presente em “Little Edie”, permite que a mulher traga em seu semblante um devaneio constante em sua fala e olhar. É como se às vezes presente e passado estivessem juntos na mesma pessoa. Mesmo quando ciente do estado da casa e de que nada é como antes, “Little Edie” parece encontrar na oportunidade de ver sua vida documentada, uma chance de poder aparecer (no bom sentido) e ser vista. Mesmo sem ter coragem de fato de deixar sua mãe, a personagem sonha com sua liberdade e pode viver em Nova York.
“Big Edie” por outro lado, não traz arrependimentos e sempre se orgulha em dizer que viveu a vida como quis. Mesmo vivendo em situação deplorável em meio ao lixo e em uma casa que precisa urgentemente ser limpa e reformada, ficamos com pena dessas duas mulheres, mas ao mesmo tempo embarcamos na história de vida de ambas. Quase de forma teatral, mas não forçada, “Little Edie” canta, se orgulha em exibir suas roupas e as combinações feitas por ela mesma, esquecendo por vezes a sua realidade. A câmera por vezes se fixa em alguns objetos do passado, como um retrato pintado de “Big Edie” ainda na juventude, que faz um contraste com a mulher no momento do filme.
Grey Gardens tem um efeito raro de nos apresentar uma história de uma realidade triste, ao mesmo tempo em que a força de suas duas personagens, faz o filme ser coberto por uma utopia que nos faz acompanhar dois mundos simultâneos: o da realidade mais dura e o dos sonhos e das bonitas lembranças que de tão vívidos ainda na memória de suas personagens, nos faz esquecer do pó que os cobrem. 

domingo, 6 de janeiro de 2019



"Ironia da Sorte" - Lágrimas de um palhaço
Ironia da Sorte (He Who Gets Slapped, 1924) foi dirigido por Victor Sjöström e baseado no livro russo escrito por Leonid Andreyev. Foi o primeiro filme a ser produzido na época pela recém inaugurada Metro-Goldwyn-Mayer, que usou pela primeira vez nesse filme, o famoso leão rugindo no seu logo. Curiosamente, no próprio longa há a presença de um leão durante um momento importante da história.
O elenco traz Norma Shearer, John Gilbert e ninguém menos que Lon Chaney (o homem das mil faces) como o protagonista. Considerado por muitos como um do melhores filmes do ator, Ironia da Sorte traz Chaney por traz de uma maquiagem relativamente simples, se comparada com algumas outras mais elaboradas e até arriscadas para a saúde do ator, que costumava criar grandes efeitos em seu rosto, muito antes do látex ser usado.
No longa, Chaney vive um cientista desconhecido chamado Paul Beaumont, que durante anos finalmente conseguiu reunir provas sobre a origem da humanidade. Ele é acolhido pelo Barão Regnard (Marc McDermott), que se torna seu patrono e permite que Beaumont viva em sua mansão enquanto o cientista realiza suas pesquisas. Um dia, Paul é traído por sua namorada e pelo próprio Regnard, que rouba suas pesquisas e as apresenta durante um congresso como se fossem suas. Paul assiste à tudo e ao tentar confrontar o Barão, é humilhado por ele ao receber um tapa no rosto e ser motivo de piada por todos presentes no local.
Cinco anos depois, Paul está trabalhando em um circo onde é conhecido pelo nome artístico de HE (Ele). Ironia da Sorte é mais um retrato interessante (e trágico) do velho palhaço que ao mesmo tempo em que faz todos rirem, quando conhecido mais a fundo, se desfaz da figura cômica e se deixa humanizar e mostrar suas falhas e sofrimentos. O longa combina muito bem drama, romance e vingança, ao mesmo tempo em que traz uma boa reflexão sobre a perda da dignidade e até o sadismo humano.

Interessante como algumas metáforas reforçam características de seus personagens, como a própria ideia do palhaço carregar a imagem do bobo que se permite virar motivo de riso de todos. Ao mesmo tempo em que Paul parece usar sua humilhação no congresso para fazer disso sua profissão, se sentindo até bem nessa posição, podemos entender sua decisão também como um reflexo de sua baixa autoestima. O problema está no conflito do palhaço quando percebe que na plateia está o Barão que roubou suas pesquisas. Para completar, Paul se vê apaixonado por Consuelo (Norma Shearer), que também trabalha no circo e que é praticamente obrigada por seu pai a se casar com Regnard..
Nunca levado a sério, HE vira essa figura cômica para os próprios personagens do filme, até mesmo quando se declara para Consuelo, que mesmo sem a intenção de humilhá-lo, entende os sentimentos de Paul como uma grande brincadeira por parte do mesmo. O interessante no filme é justamente a contradição do cômico com a real história de vida do cientista. As cenas em que ele se apresenta no circo e leva tapas de outros palhaços, chega a nos constranger quando sabemos que Paul está lembrando de sua humilhação no congresso. Tudo está no contexto, já que passamos a nos incomodar com as humilhações no momento em que todo o passado do personagem está volta.   
O uso de um globo terrestre traz alguns significados interessantes. Antes de se tornar um palhaço, Paul arremessa as folhas contendo suas pesquisas (depois de serem lidas pelo Barão) em um globo terrestre, como a representação de um ressentimento do personagem com relação ao próprio mundo, mais especificamente às pessoas e à frustração de não poder confiar em ninguém.

Essa mesmo globo terrestre é “transformado” em uma bola que é vista sendo girada por um palhaço em um momento que marca a passagem de uma cena para outra. Aqui parece termos a representação de um mundo que dá voltas e que traz consigo mudanças nas vidas dos personagens, ao mesmo tempo em que a bola ganha o status de brinquedo nas mãos do palhaço, que gira como se de certa forma representasse o “controle do mundo” que Paul adquiriu ao fazer com que suas humilhações virassem o seu ganha pão. Uma forma de levar a vida de forma menos séria, ou um conformismo com sua dignidade rebaixada?
Mesmo com essa perseverança e com a possibilidade de se vingar do Barão, Paul não tem tanta sorte e os momentos finais de HE, são tão irônicos quanto tristes. Risos se misturam com um final nada cômico, enquanto nosso palhaço acaba pagando um preço por sua vingança. Mesmo com uma plateia que ignora o que está de fato acontecendo com o HE, o filme parece buscar o lado perverso da humanidade, mesmo que de forma indireta, quando as gargalhadas e os aplausos tomam conta do picadeiro durante um momento dramático.
Ironia da Sorte é um interessante filme sobre a vida de um palhaço e do contraste amargo entre o cômico e o trágico, capaz de abranger questões sobre a dignidade humana e também sua perversidade.

sábado, 29 de dezembro de 2018

A História da Eternidade - A quebra de estereótipos do sertão brasileiro

Nosso cinema já retratou em muitos filmes, o sertão e a vida dos nordestinos. Questões como a seca, a pobreza, a fome, o conservadorismo e a forte religiosidade, durante anos, ilustraram uma característica extremamente forte na nossa cultura e na nossa história. Mesmo com sua grande importância para o cinema, muita coisa mudou e alguns filmes que se passam no sertão, começaram a trazer questões também pertinentes e mais pessoais dentro desse mundo.
Um bom exemplo é o filme Boi Neon (2015), de Gabriel Mascaro. O sonho aqui de ter uma vida melhor, deixa de lado a miséria extrema, quando o maior sonho do protagonista Iremar (Juliano Cazarré), é se tornar-se estilista no Polo de Confecções do Agreste. Enquanto trabalha nas famosas vaquejadas, o personagem cria e costura roupas ao mesmo tempo em que quebra muitos estereótipos.
Com A História da Eternidade (2015) não é diferente. Primeiro filme do pernambucano  Camilo Cavalcante, o longa foi exibido no Festival de Roterdã, na Holanda e ganhou diversos prêmios, como o de melhor filme no Festival de Paulínia, além de ser eleito o melhor filme pela Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).
O filme se passa em um vilarejo do sertão e gira em torno de três personagens principais. Querência (Marcelia Cartaxo) acaba de perder seu filho e enquanto passa pelo processo de luto, é cortejada por Aderaldo (Leonardo França), um sanfoneiro cego que não desiste da mulher e está disposto a esperar até que a mesma esteja pronta para lhe corresponder. Dona Das Dores (Zezita de Matos) é uma senhora religiosa que vive sozinha. Ela espera a chegada de seu neto que veio de São Paulo para passar um tempo com ela. Por último, Afonsina (Débora Ingrid), é uma jovem que sonha em conhecer o mar. Ela vive com seu pai machista e conservador, Nataniel (Cláudio Jaborandy) e seus irmãos. Seu maior amigo é seu tio João “Dinho” (Irandhir Santos), um homem bom e ligado às artes, que sofre de crises de convulsão. O homem que vive na casa alugada de seu irmão Nataniel, que desaprova o lado artístico do irmão.
Em uma atmosfera cheia de poesia visual e uma fotografia belíssima, que algumas vezes parece lembrar uma versão do agreste de um quadro de Edward Hopper, o trabalho de luz e sombra contextualiza a emoção de suas personagens ao mesmo tempo em que fica entra uma representação naturalista e romântica do sertão brasileiro.
Se por um lado as casas dessas três mulheres ainda retratam a simplicidade, por outro cenas em que a família de Afonsina se reúne para almoçar e jantar, mostram uma refeição simples, mas o bastante para que todos possam se alimentar. Nataniel reclama da seca e de um período difícil que está enfrentando, mas no filme isso não se torna um problema notório. Já Dona das Dores, leva um prato farto de comida para Querência, que ainda chora pela morte do filho.
Dentro desse conservadorismo e machismo no núcleo de Afonsina, João faz questão de expressar sua veia artística em frente sua casa, sem se importar com o que dizem. Mais do que uma simples apresentação, a dança que o personagem faz enquanto toca a música “Fala” da banda Secos e Molhados, é na verdade uma explosão do que sente o personagem e de sua vontade de manifestar sua arte, mesmo que depois seja repreendido por Nataniel.
E o que dizer dessas três mulheres? Muito longe de uma abordagem focada na pobreza ou na seca, aqui isso já não tem importância. Se Afonsina poderia facilmente sonhar em ir para a cidade e buscar outras condições de vida, a garota quer apenas conhecer o mar. Esse desejo parece ser transferido para o tio, que à sua maneira (e diga-se de passagem, bem poética) mostra o “mar” para a sobrinha. A força de sua personagem também está na forma como fica em conflito com seu pai, num rumo polêmico e ousado, mesmo se o filme se passasse em São Paulo.
Mais polêmico é o núcleo de Dona das Dores. A religiosidade aqui se dá por parte dessa personagem, que sempre frequenta a missa e tem em sua casa, uma mesa com diversos retratos de santos, velas, rosários e com a bíblia. A chegada do neto traz memórias e lembranças que se dão antes da chegada do rapaz, quando a senhora pega uma caixa de fotos antigas e lembra do jovem ainda na infância. O que parece ser um simples relacionamento entre neto e avó, acaba tomando um rumo ainda mais polêmico do que na história de Afonsina. Repressão religiosa e sexualidade entram em conflito quando Dona das Dores encontra uma revista pornográfica nas coisas do neto. O despertar de uma sexualidade que parecia à muito tempo adormecida ou talvez nunca descoberta por completo, fará com que a senhora projete esse desejo no próprio neto. A culpa é inevitável e a auto punição também.
A mais romântica de todas, seja talvez a história de Querência e Aderaldo. O filme abre logo com sua história e é responsável por momentos em que a fotografia tem seus ápices. Aqui o processo do luto leva tempo e requer paciência. Tanto a nossa, quanto a de Aderaldo, que vai até a janela da mulher todas as manhãs, tocar sanfona. Detalhes como uma fresta de luz dentro do quarto da personagem, ou a janela que é aberta aos poucos, antes da porta ser finalmente aberta, mostra a delicadeza com que a personagem vai aos poucos abrindo o seu coração para o amor.
A chuva no filme tem outro papel muito importante. Aos mesmo tempo em que aflora as emoções das personagens e culminam no ápice das ações e da entrega (cada uma à sua maneira) ao desejo de cada uma dessas três mulheres, traz também algumas consequências que serão mais difíceis para Dona das Dores e Afonsina. Para Querência a chuva traz como consequência, a necessidade de um tempo só para ela, como se a água levasse de vez resquícios de seu luto e ela precisasse reerguer suas estruturas abaladas.
A História da Eternidade é um filme que quebra muitos conceitos já estabelecidos quando falamos sobre filmes passados no sertão do Brasil. Com ênfase em seus personagens e no que eles sentem, o sertão deixa de ser o palco do sofrimento e da miséria, para se tornar um lugar cheio de atmosfera que dá ao filme e principalmente às histórias, um tom romântico e por vezes quase fabulesco, mas ao mesmo tempo em que fala de questões reais e palpáveis, como nosso desejos e emoções.
Confira o trailer!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Projeto férias Filme 1 : Capitão América o primeiro vingador

Filme 1 :  "Capitão América o primeiro vingador" - Direção :  Joe Johnston, 2011

Esse ano o Blog Simulacro resolveu  iniciar um projeto novo para as férias, e para dar o ponta pé inicial  traremos um especial sobre o  Universo Cinematográfico da Marvel.

Faremos  uma maratona pelos filmes, seguindo uma sequencia narrativa que interliga o universo dos Vingadores, e a cada filme assistido sairá aqui no blog e nas nossas redes sociais, resenhas e análises fílmicas com detalhes e curiosidades desse universo, que começou nas HQs e hoje em dia domina as bilheterias mundiais.

O primeiro filme da nossa lista é o  "Capitão América - O primeiro vingador" , dirigido por Joe Johnston, lançado no ano de 2011, o filme assim como o título sugere, traz para as telonas a proposta ambiciosa de remontar a saga dos Vingadores na linguagem cinematográfica. Esse não é o primeiro filme da franquia da Marvel em ordem cronológica de lançamento, mas é a primeira parte dessa narrativa. 


O filme é uma linda homenagem aos quadrinhos do Capitão América, e os fãs provavelmente notaram isso, ao começar pelo fato de que em toda a primeira parte do filme o personagem famoso por possuir um escudo circular com as cores da bandeira americana, possui um escudo um pouco diferente, se trata na verdade do primeiro modelo de escudo utilizado pelo capitão América nos quadrinhos.


O filme recria a gênese de  Steve Rogers o Capitão America(Chris Evans), que viria a se tornar um dos heróis mais icônicos da Marvel, personagem criado pelos lendários  Jack Kirby e  Joe Simon em 1940, bem antes da Marvel Comics ter esse nome, e antes mesmo dela representar o império que hoje representa.

Assim como nas HQs o Steve Rogers do cinema em um primeiro momento é apenas uma rapaz de aparência franzina e adoentada, mas com o desejo de servir o seu país na segunda gerra mundial, acima de tudo fica claro que Rogers tem um bom coração e é capaz de qualquer coisa para fazer um bem maior pelo próximo e pelos seus compatriotas. 

Essa veia de patriotismo do Capitão América vai além de suas vestes, fica bem clara em seu modo de vida que provavelmente é fortemente marcado pela época em que a história se passa, em um período de guerras mundiais e em um contexto de afirmação cultural de Estado Nação americano. Vale lembrar que não apenas as HQs, mas toda a produção cultural americana da época do lançamento da revista do Capitão America foi fortemente influenciada por esse contexto histórico politico social. Do qual saiu a figura do "Homem de Bem Americano", representado enumeras vezes no cinema do período, que marcou a estrutura do cinema clássico americano, que por sua vez é retomado com força na produção de filmes de heróis.

O filme  Capitão América o Primeiro Vingador, marca também a presença do que se tornaria a S.H.I.E.L.D. trazendo personagens memoráveis como a Agent Carter e Howard Stark, sim ele mesmo o pai do Tony Stark o Homem de Ferro!

A S.H.I.E.L.D. é uma agência secreta especial americana, criada pela própria Agente Carter, no filme o próprio governo americano o responsável pela transformação de Steve Rogers no Capitão América. 





Então o jovem doente que sonhava em servir o seu país, encontra sua oportunidade ao aceitar participar de um experimento cientifico do governo americano , que desejava criar super soldados, para representar os Estados Unidos em missões de extremo perigo.

A experiência funciona, e Steve Rogers  se torna o Capitão América, que nesse primeiro filme tem a missão de derrotar o Caveira Vermelha, um criador de armas que lutava ao lado de  Adolf Hitler e da Hidra famosa conhecida dos fãs dos quadrinhos e da série Agentes da S.H.I.E.L.D., o papel da Hidra nesse contexto cinematográfico da Marvel está em praticamente representar a ameça nazista tanto do período da segunda gerra mundial, quanto em seu ressurgimento nos tempos atuais, inspirando um certo medo coletivo, que só pode ser combatido por "Heróis honrados".

O filme é marcado por sequências de ação bem desenvolvidas, e uma fotografia bonita que recria ao máximo os enquadramentos de revistas em quadrinhos,  com um efeito de coloração que se aproxima da qualidade de HQs antigas. A direção de arte remonta a época da segunda gerra mundial, inclusive uma das sequências do filme na qual é feita a divulgação do Capitão América pelo governo americano, temos uma espécie de trecho musical, que demonstra o poder propagandista cultural da época, de forma muito interessante.


A trilha sonora do filme é imponente, e representa o tom heroico do longa, que ganha destaque em momentos decisivos da narrativa, o que remete muito a estrutura dos filmes Star Wars, alias percebe-se forte referência a franquia, não apenas na trilha sonora mas na montagem, o que nos dá uma dica da construção de um universo ainda maior para o filme, o que viria ocorrer depois nos próximos filmes que dão sequência na história. Vale lembrar que essa construção cinematográfica com uma narrativa que vai se expandindo, e interligando diversos personagens já era uma marca registrada das revistas em quadrinho da Marvel, bem antes dessa forma de narrativa se tornar popular no cinema.

Depois de derrotar o Caveira Vermelha o Capitão America passa por um longo período congelado, esse espaço de tempo aproveitado pelo filme, para dar sequencia em todo o universo dos Vingadores, se refere diretamente ao hiato verdadeiro de anos que a revista do Capitão América parou de ser produzida, e quando o projeto foi retomado pelo seu criador  Jack Kirby, ao ser indagado de como o herói poderia se encaixar novamente em um novo momento dos quadrinhos, respondeu com uma grande sacada de que o Capitão America passou anos congelado. Desse modo o personagem permanece intacto com seus princípios e história, mas pode viver em um novo mundo, com novos desafios e com outros personagens.



E assim nasce a historia do Capitão America no cinema, é claro que ao se tratar de uma outra mídia muitas coisas acabam de fato mudando, no entanto o fenômeno vindo dos quadrinhos nos anos 1940 permanece vivo, atraindo ainda mais pessoas em volta de histórias de heróis.

Abaixo a lista dos filmes do nosso especial para maratonar nessas férias ! =)

1- Capitão América o primeiro vingador.
2- Homem de ferro.
3- O incrível Hulk.
4- Homem de ferro 2.
5- Thor
6- os vingadores
7- Homem de ferro 3.
8- Thor o mundo sombrio.
9- Capitão América o soldado invernal.
10- Guardiões da galáxia.
11- os vingadores a era de Ultron.
12- Homem formiga.
13- Capitão América Guerra civil.
14- Dr Estranho.
15- Homem aranha de volta ao lar.
16- Guardiões da Galáxia 2.
17- Thor Ragnarok
18- Pantera Negra.
19- os vingadores guerra infinita.


Erotismo e a cidade: Vidas nuas (1967) de Ody Fraga

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