sábado, 3 de fevereiro de 2018

Artigos Simulacro do Simulacro - 01

Complexidade Narrativa no Cinema Contemporâneo

Artigo de : Tarcísio P. S. Araújo


Este artigo tem como objetivo apresentar o conceito de complexidade narrativa no cinema atual. Será abordada a sua contextualização (em um cinema que até pouco tempo apresentava uma narrativa mais clássica), seu conceito, e as diferentes formas em que essa estrutura pode ser apresentada no cinema contemporâneo.

Desde que o cinema surgiu, ele sempre esteve em constante transformação. Seja no que diz respeito à técnica, que possibilitou o som, até a passagem da imagem em preto e branco para a colorida. A tela também foi se tornando cada vez maior, e a ruptura nos estilos como o neorrealismo, e as nouvelles vagues redefiniram e reinventaram a estrutura da linguagem da sétima arte. Em um contexto de modernidade clássica com a idade de ouro dos estúdios de Hollywood, o que antigamente se caracterizava como um “teatro falado”, (no primeiro cinema) agora exige dos criadores uma nova gramática narrativa. Narrativa essa que é evidenciada pela continuidade, e fluidez que garante uma verossimilhança e rápida absorção pelo espectador. Hollywood já traz em seu histórico um cinema em que gêneros, intrigas, e personagens sempre foram definidos por um estereótipo e pelos clichês, o que faz com que esses filmes sejam facilmente acessíveis ao grande público ao se corresponderem com uma sociedade conformista. (Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, 2009)

Lipovetsky e Serroy defendem o conceito de hipermodernidade que começou a se iniciar no fim dos anos 70. Essa hipermodernidade tem um patamar que não é simplesmente uma superação da modernidade já existente, mas sim de uma modernidade superlativa. Ela abrange o cinema em todos os sentidos, desde as novas tecnologias, formas de produção, marketing, e claro, a gramática narrativa dos filmes.
Associado ao esgotamento das figuras clássicas da narrativa, esse cinema foi rotulado como “pós-moderno.” (Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, 2009, 66)

Já nos anos 80, analistas observam o aparecimento de uma categoria de filmes que se concentra em imagens-sensações, nas citações, e no empréstimo formal. Associado a um esgotamento das figuras clássicas narrativas, esse cinema foi chamado de “pós-moderno”. Por mais que esta definição esteja de acordo com as ideias desses analistas, o conceito de “pós” se encaixaria melhor em um cinema ultramoderno que apresenta em sua narrativa uma desregulação e complexificação formal do espaço-tempo fílmico. Essa linguagem hipermoderna visa uma diversificação tendencial no cinema em que as referências uniformes e claras coabitam cada vez mais com o atípico. Os filmes passam agora a serem mais elaborados tecnicamente e criam narrativas mais diversificadas, com misturas de tom, cruzamento de linhas, e ambiguidade de sentidos que foram buscadas de forma sistemática. É um cinema multiforme, híbrido e plural. Toda essa diversidade etnocultural de cineastas que realizam filmes em Hollywood é reforçada por uma dinâmica de desregulação estética que se exerce por vários elementos dos filmes. Dentre tantos eles, os autores destacam a narração.

Warren Buckland (2009) traz na Poética de Aristóteles, o conceito da complexidade narrativa. De acordo com o autor, todas as artes poéticas se originam da imitação, ou seja, os enredos estão ligados a esquemas de uma estrutura que busca uma imitação. Para essa narrativa ter sucesso, os elementos que o enredo seleciona, combina, e organiza, devem parecer prováveis e necessários, e não eventuais e casuais. A probabilidade e a necessidade formam a base da imitação e do classicismo. Os enredos mais simples são miméticos (clássicos) porque eles envolvem acontecimentos em uma única ação contínua organizada e unificada com um começo (início da ação), meio (envolvendo uma complicação da ação) e fim (envolvendo a resolução da ação complicada). Enredo esse de fácil aceitação por parte do espectador. Buckland comenta que Aristóteles caracteriza os enredos complexos como simples enredos com qualidades adicionais de “inversão” e “reconhecimento”. Uma inversão (mais especificamente, uma inversão de sorte) é uma ação ou acontecimento que vai contra a situação de um personagem (geralmente o herói/heroína) e das expectativas do espectador.

O Reconhecimento dá nome ao momento quando o herói ou a heroína está sujeito (a) a uma inversão. Aristóteles argumenta que o enredo se torna mais forte se o reconhecimento e a inversão acontecem ao mesmo tempo. É dado um exemplo na tragédia de Édipo Rei, na passagem em que o mesmo descobre que ele matou o próprio pai e casou-se com a própria mãe. Esse é o último momento de realização e inversão de sorte que assola qualquer personagem na história do drama. Inversão e reconhecimento não são realizados por personagens. Elas são impostas a eles, e alteram seus destinos de forma radical. Aristóteles compõe a narrativa complexa na adição de uma segunda linha de casualidade que introduz inversão e casualidade.

Para o autor, o uso do termo “complexidade” se estende e vai além dos termos mencionados por Aristóteles. Existe também um tipo de enredo mais enigmático. O puzzle plot tem sua complexidade no sentido de que o os acontecimentos não são apenas complexos, mas perplexos. Os acontecimentos não são apenas entrelaçados, mas sim envolvidos.

Uma vez que a premissa da maioria desses filmes apresenta narrativas de pontos de vista de uma mesma história, ou narrativas que apresentam diversas possibilidades, fica claro de que há uma quebra da narrativa clássica. A Fuga dessa forma clássica hoje em dia, está muito além da narrativa, mas também atinge personagens, suas ações e acontecimentos, trazendo mais profundidade às histórias e características psicológicas de seus personagens. (Warren Buckland, 2009)

Estruturalmente é comum encontramos nessas narrativas a não linearidade, laços temporais, e realidades fragmentadas no espaço temporal. Esses filmes não deixam claras as fronteiras entre diferentes tipos de realidade, são repletos de lacunas, decepções, estruturas labirínticas, ambiguidades, e ostensivas coincidências. Elas são populares com narradores não confiáveis, ou que estão mortos (mas sem nosso conhecimento ou deles mesmos). A complexidade dos filmes que apresentam puzzle plots opera em dois níveis: narrativa e narração. Ela enfatiza a complexidade no contar histórias (enredo, narração) de uma simples ou complexa história (narrativa).

Um exemplo disso está no filme “Babadook” (Jennifer Kent, 2014). O filme conta a história de Amelia (Essie Davis) que após seis anos passados da morte de seu marido, ainda não consegue superar sua perda. Ela tem um filho pequeno Samuel (Noah Wiseman), que sonha diariamente com um monstro. Um dia o menino encontra um livro chamado “Babadook” e pede para que sua mãe o leia. Após isso, o menino passa a agir de forma estranha, deixando Amelia desesperada.

O filme constrói brilhantemente o estado emocional de Amelia, que faz com que a personagem não caia na superficialidade e revele uma total complexidade de seu psicológico que já se mostra desestabilizado logo no início do filme, mas que no decorrer da narrativa, vai se degradando mais e mais. A narrativa passeia pelo universo fantástico, mas que ao mesmo tempo pode ser entendido como uma metáfora para retratar a mente de Amelia. O Babadook (criatura) pode ser interpretado justamente como esse luto não superado, e que aos poucos vai dominando de vez a vida dela e de seu filho.

“Babadook” (Jennifer Kent, 2014).

Essa narrativa pode ser interpretada tanto pelo lado fantástico, quanto pelo lado mais racional e metafórico. Ou até mesmo pelos dois, já que durante o filme é possível notar diversos elementos que sustentariam ambas as interpretações. Esse filme se encaixa muito bem nesse tipo de narrativa, mostrando como felizmente o cinema também pode fugir do convencional e apresentar uma pluralidade mais rica, ainda mais em um filme do gênero do terror, que tem se mostrado sem muita criatividade ultimamente.

O final se mostra também muito bem explorado, já que essas possibilidades de interpretação se sustentam mesmo com a conclusão da narrativa. O espectador é presenteado com essa possibilidade de ter dois entendimentos, para a derrota do monstro, e escolher uma delas (de acordo com seu entendimento da história, e sua forma de enxergar os fatos) ou abraçar ambos.

Uma vez citado esse exemplo, podemos entrar nos filmes conhecidos por “jogarem com a mente” do espectador (filmes mind-game) que são como os filmes puzzle, mas que são vistos de uma perspectiva teórico-narratológica. Eles não só abordam crises de identidade de seus personagens, mas também problemas epistemológicos (como sabemos o que nós sabemos) e dúvidas ontológicas (sobre outros mundos e mentes). Esses filmes sabem jogam com a mente e envolvem os espectadores de uma maneira que já não podemos observar o mesmo nas narrativas clássicas.

Eles se encaixam num grupo de filmes que são intrigantes pelo seu estranhamento, e chamam a atenção por “provocarem o cérebro”, além de ultrapassarem as barreiras dos filmes hollywoodianos mainstream. (Thomas Elsaesser, 2009)

Esses tipos de filmes podem se dividir em dois níveis: os que apresentam personagens que são vítimas de algum tipo de jogo com a mente (geralmente cruel e mortal) sem nem ao menos saberem quem é o autor desse jogo. Outro nível ocorre quando a vítima desse jogo é o espectador, porque parte da informação acaba sendo omitida para o mesmo, ou apresentada de forma ambígua. Pode ocorrer também da informação ser omitida tanto dos personagens, quanto do espectador.

Cito aqui o filme “Triângulo do Medo” (Christopher Smith, 2009) que surpreende com o estranhamento tanto ao longo da narrativa, quanto com sua complexidade na resolução dos eventos. Jess (Melissa George) parte para o alto mar com um grupo de amigos a bordo de um veleiro, ela tem o pressentimento de que algo está errado. Seus temores se confirmam quando uma tempestade atinge a embarcação deixando todos à deriva. Em seguida, um misterioso navio (aparentemente abandonado) surge no mar, e Jess junto com seus amigos embarcam para buscar ajuda. Logo, todos perceberão que não estão sozinhos e que alguma coisa está caçando os novos tripulantes, um a um. O filme tem referências na mitologia grega: Sísifo encarnava a astúcia e a rebeldia do homem frente aos desígnios divinos. Sua audácia, no entanto, o levou a ser condenado a empurrar eternamente ladeira acima, uma pedra que rolava constantemente ao atingir o topo de uma colina, conforme se narra na Odisséia.

“Triângulo do medo” curiosamente tem o primeiro ato muito semelhante ao um filme de suspense de narrativa clássica, e pouco importante, porém no decorrer da trama ele se mostra muito inteligente e desafiador, apesar de confuso. Jess encontra no navio versões dela mesma, cada uma com uma personalidade diferente, incluindo uma que é assassina. Ela descobre que precisa matar seus amigos um a um no navio para depois sair de lá e salvar o filho dela, que é autista.  No final é exposto que Jess não era uma boa mãe e que a caminho da creche onde ela ia deixar seu filho, para poder sair com os amigos para velejar, ela bate o carro e ambos morrem. Jess não aceita a morte (que interessantemente aparece como um taxista) e a engana, pedindo para que a leve até o cais onde está o barco de seu amigo. Lá ela mente para a morte dizendo que volta logo. Como castigo, ela é eternamente condenada a viver em um tipo de limbo no qual ela sempre passará por esse ciclo com seus amigos, no navio na tentativa de “salvar” seu filho.

“Triângulo do Medo” (Christopher Smith, 2009)

É comum que os personagens centrais estejam mortos (como citado acima), sem que eles tenham consciência disso. Outros filmes dão ênfase à mente: apresentam personagens cuja condição mental é extrema, instável, ou patológica. Esses personagens veem, e interagem com os outros personagens de uma forma normal. Sendo assim, o filme mais uma vez “brinca” com a percepção de realidade do espectador e dos personagens: ele obriga a pessoa a escolher entre uma “realidade” ou um universo igualmente válido, porém incompatíveis. Uma característica primordial desses filmes é desorientar o espectador e induzi-lo ao erro (além da informação completamente omitida e cuidadosamente escondida, há revira voltas no roteiro e finais que apresentam truques). Outra característica é que espectadores de um modo geral não se importam em serem vítimas desses jogos porque isso serve como um desafio para eles.

Claro que há aqueles que não são tão abertos assim a finais e narrativas tão desafiadoras. A narrativa clássica sempre foi a mais predominante no cinema e na televisão, e quando se tem um olhar mais acostumado com o que já está “pronto” e que não precisa ser questionado ou raciocinado, se deparar com um produto audiovisual que provoque a mente do espectador, pode causar estranhamento.   

         A complexidade narrativa também trabalha personagens que não diferem realidade e ilusão, podendo haver também revelações drásticas que dão uma grande revira volta na história, e demais personagens que tentam abrir os olhos do protagonista que não quer acreditar em sua atual situação. É comum nesses filmes personagens que tenham alguma doença psicológica, e que podem estar conectadas com algum passado pessoal que envolva algum trauma que não deixe o presente desse personagem em paz.

         Nos últimos filmes que têm abordado a paranoia recentemente, é comum a abordagem de mães assombradas pela perda de um filho. Às vezes a existência da criança não está totalmente clara para o espectador, e se seus terapeutas e maridos estão tentando persuadi-las de que a criança nunca existiu. Nesses filmes e livros, mulheres temem por sua sanidade por causa da mistura de mensagens que elas recebem do mundo ao seu redor, além de serem levadas à loucura por seus maridos que pensam que elas não são mais dignas de confiança, até que elas percebam que tudo era um delírio, ou que suas desconfianças eram certas. Geralmente há a presença de um personagem mais novo que será aquele que vai acreditar nelas e ajudá-las, o que acaba equilibrando a narrativa e dando margem para duas possíveis possibilidades. (ELSAESSER, 2009)

O Cinema marcou a história e trouxe uma forma de expressão artística e entretenimento jamais vista antes. Durante um grande tempo esse cinema mostrou grande inovação técnica, porém com uma narrativa mais voltada para o clássico, apresentando sempre linearidade e personagens mais bidimensionais. Mais ou menos a partir da década de noventa, novas formas de narrativa passaram a surgir e uma nova possibilidade de se contar histórias se fez presente. Na poética de Aristóteles, as narrativas emergem da imitação. O enredo trabalha esquemas imitados. Para que a narrativa seja bem sucedida sucesso os acontecimentos devem parecer prováveis e necessários, formando a imitação do classicismo. Já os enredos complexos são classificados por ele como enredos simples, mas com qualidades adicionais.

Thomas Elsaesser (2009) faz considerações que vão além das que foram descobertas por Aristóteles. Os filmes puzzle operam em níveis de narrativa e narração. Enfatiza a complexidade de se contar histórias (enredo, narração) de uma simples ou complexa história (narrativa). Eles contam com a não linearidade, ambiguidade e personagens pouco confiáveis. Ainda nos filmes puzzle, pode se considerar os filmes mind-game como uma subdivisão que traz a complexidade na narrativa, porém apresentam uma perspectiva teórico-narratológica. Eles costumam apresentar personagens com problemas psicológicos e emocionais vindos de algum tipo de trauma, e que vivem algum conflito. No início não sabemos ao certo se esses personagens estão dizendo a verdade ou se tudo faz parte de suas condições psicológicas.


Esses filmes conseguem desviar do percurso das narrativas clássicas, e surpreender o espectador, ainda que nem todos sejam abertos a esse tipo de narrativa mais complexa e que muitas vezes convida ao questionamento e à reflexão. Antes de se sentir enganado, o espectador deve estar ciente de que isso é uma oportunidade de fazer com que deixamos de ser meros observadores diante de uma grande tela, para participarmos do filme (mesmo que indiretamente) de uma forma mais interessante.      

domingo, 7 de janeiro de 2018

O Cinetoscópio

O Início

Texto de: Tarcísio Paulo Dos Santos Araújo


Tudo começa com Thomas Alva Edison, já conhecido por ter inventado a lâmpada elétrica, o microfone a carvão e do fonógrafo. Edison também iniciou pesquisas relacionadas a imagens em movimento, como aponta Celso Sabadin no livro Vocês Ainda Não Ouviram Nada - a Barulhenta História do Cinema Mudo. Antes dos 30 anos, Edison já havia montado um laboratório de pesquisas em Menlo Park, Nova Jersey, onde começou a trabalhar em vários projetos considerados por muitos como “loucuras”.



Registros antigos, como destca Sabadin, apontam quem em 1887, Edison já teria conseguido colocar imagens em movimento por meio de um filme perfurado de celuloide, mas teria abandonado tudo por acreditar que tal invento não despertaria o interesse de ninguém. Esse raciocínio se deve ao fato de Edison teria criado o experimento com imagens em movimento, só para melhorar mais o seu outro invento, o fonógrafo, que possibilitava a gravação e reprodução de sons. Quando percebeu que não conseguia sincronizar som e imagem, deixou as pesquisas sobre movimento de imagens em segundo plano.

Em janeiro de 1889, Thomas Edison acaba designando seu assistente William Kennedy Laurie Dickson para dar continuidade às pesquisas com imagens. Francês filho de britânicos, Dickson trabalhava também como fonógrafo e conhecia melhor as ciências ópticas do que o próprio Edison. Durante aquele mesmo ano, consegue desenvolver um sistema chamado cinetoscópio ou cinetofone.

Como funcionava?

O equipamento em si se tratava de uma câmera – então denominada cinetógrafo – capaz de sensibilizar uma película de celuloide de 35mm de largura e com quatro perfurações de cada lado do fotograma. O filme resultante, com aproximadamente quinze metros, era então exibido dentro de uma caixa chamada cinetoscópio. A caixa era dotada de uma manivela que por sua vez, era acoplada a um fonógrafo. Tudo isso proporcionava a um único espectador por vez assistir a aproximadamente noventa segundos de cenas, cujo tamanho da projeção era de um cartão de visita.


Apresentando o equipamento

A primeira exibição pública do invento aconteceu em 20 de maio de 1891, nos laboratórios de Edison que ficavam em West Orange, Nova Jersey. O público compunha-se de 147 representantes da National Federation of Women’s Clubs e até a imprensa, com registro do jornal The New York Sun em 28 de maio de 1891.

O grande público conhece o cinetoscópio!

Comercialmente, o cinetoscópio só foi apresentado em 14 de abril de 1894 no Holland Bros’ Kinetoscope Parlor, no número 1.155 da Broadway, em Nova York. Havia dez caixas dispostas em duas fileiras e por 25 centavos qualquer pessoa poderia apreciar cinco filmes de aproximadamente noventa segundos cada. Para ver os 10 filmes, os curiosos precisariam pagar meio dólar. O primeiro dia atraiu um público de aproximadamente 500 pessoas, que representou um faturamento de 120 dólares. Seis meses depois o equipamento cruza o Atlântico e é exibido na Inglaterra. A exibição contou com os filmes Carmencita, Annabelle Serpentine, Blacksmith Shop Wrestling Match e A Bar Room Scene. Você pode conferir esses filmes abaixo! 













segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

George Méliès

Texto de: Tarcísio Paulo dos Santos Araújo

A possibilidade do cinema ir mais além


Nascido em Paris em 8 de dezembro de 1861, Marie Georges Jean Méliès já resistia à ideia de se tornar um industrial do ramo dos sapatos, como seu pai, preferindo estudar desenho, escultura, pintura e manipulação de bonecos e marionetes.

Continuou seus estudos em Londres e depois voltou a Paris, onde começou a trabalhar como ilusionista ao mesmo tempo em que desenhava caricaturas para uma publicação de humor. Com a aposentadoria de seu pai, Méliès se viu obrigado a assumir a empresa junto com seu irmão Gaston. 


Em 1888, vende sua parte da empresa para o próprio irmão e compra da viúva de Jean-Eugène Robert-Houdin (conhecido mágico ilusionista francês)  o famoso teatro Robert-Houdin. Aos 27 anos George Méliès já tinha certa fama e dinheiro com shows de ilusionismo. 

A grande mudança veio em 28 de dezembro de 1895 quando o ilusionista estava presente na exibição de A Chegada de Um Trem na Estação, dos Irmãos Lumière. Encantado com o que viu, Méliès falou com Antoine Lumiére para que o mesmo lhe vendesse um exemplar do cinematógrafo. Temendo uma concorrência, Antoine recusou.

Sem desistir, George Méliés projetou e construiu seu próprio modelo de câmera, comprou uma grande quantidade de filmes virgens e passou a rodar suas produções sob a chancela de Star Film. Escamotage d’une Dame au Théâtre Robert Houdin mostra um breve show de mágica em que uma mulher desaparece em baixo de um pano. O filme é considerado historicamente como o primeiro trabalho a usar o recurso stop-motion, inventado por acaso pelo ilusionista. Um dia, enquanto operava sua filmadora em Paris, a câmera emperrou por alguns segundos, retomando seu movimento normal logo em seguida. Ao revelar o filme, o ilusionista se deparou com um ônibus “se transformando” em um carro fúnebre. Na verdade, a manivela parou enquanto o primeiro carro passava e voltou a funcionar no momento em que o segundo carro passou. Assim surgiu o truque da parada e substituição, muito usado por exemplo em alguns episódios do Chapolin, para que as coisas sumam e apareçam do nada. Esse truque foi muito usado nos filmes de George Méliès, assim como em diversos outros filmes. Em 1897 o teatro vira estúdio e sala de projeção, e o cinema passa a tomar toda a atenção de Méliès.

A importância do cineasta para a história do cinema, está no fato em que em uma época onde o cinema era visto ainda como uma invenção tecnológica revolucionária, com filmes que mais pareciam ensaios de documentários (mostrando as pessoas nas ruas) ou esquetes de comédias, George Méliès trouxe a magia do teatro e do ilusionismo para as telas, ganhando o status de linguagem artística. Seus filmes (alguns coloridos a mão!) tinham um rico visual, com cenários e figurinos criados pelo próprio cineasta.

Méliès explorou desde 1897 todas as opções que a câmera poderia lhe oferecer, desenvolvendo truques e efeitos especiais que foram modernizados por seus sucessores. Cineasta, figurinista, cenógrafo, produtor e ator, esse mago do cinema fez em 16 anos mais de 500 filmes que foram vistos pelo mundo todo e que agradavam tanto diretores de vanguarda, quanto de Hollywood.
O sucesso com os filmes cheios de truques, fez a fama do cineasta sem a necessidade de publicidade. Ao mesmo tempo, ele sabia que era preciso inovar cada vez mais, acrescentando temas mais complicados e fantásticos para aumentar o interesse do público. A necessidade de lugares imaginários fez com que o diretor contasse com sua vocação também para o desenho para criar seus cenários ao ar livre, nada naturais. O problema era filmar em dias de chuva ou quando o vento forte balançava ou derrubava os cenários, além da pouca iluminação solar quando alguma nuvem cobria o sol, única fonte de luz para fazer os filmes na época. Essas dificuldades fizeram com que Méliès construísse seu próprio estúdio (de vidro) para poder filmar seus curtas sem empecilhos e aproveitando ao máximo a luz solar.


Muito artístico e com pouca visão empresarial, George Méliès não acompanhou as mudanças que o cinema sofria. Não havia mais espaço para o cinema artesanal criado por ele. Abriu falência em 1923, e o teatro Robert-Houdin foi demolido no mesmo ano. Aos 70 anos, Méliès foi encontrado vendendo doces e brinquedos na estação ferroviária de Paris. Grupos culturais promoveram a revitalização de sua imagem e de sua obra realizando mostras de seus filmes. Mais de 500 no total. Morreu em 1938 aos 76 anos.
Em 2011 A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsesse retratou um pouco da história de Méliès e da magia de seus filmes. O filme venceu 5 Oscars, incluindo melhor fotografia e efeitos visuais, e é uma verdadeira homenagem a esse período tão fantástico do cinema.
Não podemos deixar de indicar alguns dos filmes mais significativos da carreira desse cineasta tão importante para  sétima arte. Felizmente há muitos filmes que sobreviveram ao tempo, mas abaixo você confere os cinco mais significativos de sua carreira.
A Mansão do Diabo (Le Manoir du Diable, 1896)

Esse é considerado o primeiro filme de terror da história do cinema. O curta não chega a assustar, porém, elementos do terror como, esqueletos, fantasmas, morcegos, objetos que aparecem e desaparecem e o próprio diabo, estão presentes nessa produção que merece estar na lista.


Un Homme de Têtes (1898)

Méliès, duas mesas, um banquinho, um banjo e.....cabeças! Nesse singelo curta surreal, o grande mago do cinema ousa nos efeitos. Vemos George Méliès arrancar sua própria cabeça e a multiplicar em cima de duas mesas, formando um coral que canta enquanto ele próprio toca um banjo.


Joana d'Arc (Jeanne d'Arc, 1900)
Primeiro filme a contar toda a história da heroína francesa, o curta de pouco mais de 10 minutos, já traz um cinema criado por Méliès mais voltado para uma narrativa linear do que um truque de mágicas. Pintado à mão, a obra conta com figurinos caprichados e cenários muito bem criados que criam profundidade de campo, ruas e até sombras das casas.


As Quatrocentas Farsas do Diabo (Les quatre cents farces du diable, 1906)
Completamente surreal, o enredo gira em torno de dois homens que encontram problemas durante uma viagem de carruagem. Perseguidos pelo diabo que faz diversos truques, os dois viajantes caem dentro de um vulcão e passam por planetas, estrelas, até caírem de vez no inferno. Destaque para o movimento da carruagem durante boa parte do curta e para o cavalo esqueleto que puxa o veículo.


Viagem à Lua (Le voyage dans la lune, 1902)
E chegamos ao filme que não poderia faltar. O mais conhecido filme de George Méliès, levou três meses para ficar pronto e é considerado um dos primeiro filmes de ficção científica da história do cinema. Baseado livremente no romance  Da Terra à Lua (1865) de Júlio Verne, o curta conta a história de um grupo de astrônomos que viajam até a lua. A cena da lua sendo atingida no olho pelo foguete, está facilmente em listas de cenas mais icônicas de toda a história da sétima arte e mostra como o cinema de George Méliès não tinha limites, podendo representar tanto a Terra, quanto o universo. Suas criações mostraram que o cinema tinha condições de sair da representação da realidade para alcançar lugares nunca antes imaginados dentro da grande tela.


sábado, 2 de dezembro de 2017

Jeanne Dielman


Texto de: Tarcísio Paulo Dos Santos Araújo

Contemplação e mudança de consciência numa narrativa sobre o cotidiano


Hitchcock disse que o cinema é como a vida, só que sem as partes chatas. Ele não estava errado quanto a isso, porém alguns filmes são magistrais justamente em sua simplicidade por mostrar aquilo que facilmente seria julgado como “sem importância”.

Assim é “Jeanne Dielman” (Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce, 1080 Bruxelles, 1976), escrito e dirigido por Chantal Akerman, cineasta belga nascida em Bruxelas em 06 de junho de 1950 e falecida em 05 de outubro de 2015. Com um cinema político e feminista (ainda que a diretora recusasse qualquer tipo de rótulo), Akerman realizava um cinema extremamente realista, muitas vezes privando o espectador de uma linguagem clássica que reforçasse as emoções e o psicológico de seus personagens através de enquadramentos como close-ups, câmera subjetiva, entre outros artifícios. Seus personagens têm total relação com o espaço em que vivem, caracterizando muito do que eles são através de um cotidiano mundano.


Através de um cinema bem contemplativo, o espectador é convidado a observar a rotina de Jeanne (Delphine Seyrig). Pela manhã, a mulher acorda, veste seu hobby, prepara o café da manhã, acorda seu filho adolescente, Sylvain (Jean Decorte), engraxa seus sapatos, dobra o seu pijama quando o garoto vai ao colégio, arruma o sofá cama onde o garoto dorme, lava a louça, sai para fazer algumas compras para a casa, prepara o jantar, faz um lanche à tarde, cuida do bebê da vizinha por um tempo, faz programa em sua própria casa onde recebe seus clientes, espera o seu filho chegar, janta junto com ele, ajuda-o a estudar e fazer as lições de casa, ouve música enquanto termina de fazer um suéter enquanto o garoto ler seu livro, sai com ele para um lugar que nunca é mostrado para o espectador, voltam para casa e vão dormir.

Escrevendo essas ações que aparentemente podem parecer sem importância, podemos perceber como o cinema de Chantal é bem diferente do que estamos acostumados a ver., porém, para quem estiver aberto a entrar na proposta da cineasta e entender que há outras formas de se contar uma história, logo ficará tomado pelo dia a dia da protagonista e sentirá interesse em observar sua vida dentro dessa rotina. Mais do que isso, interpretará o que o filme pretende dizer através dessa forma peculiar de se apresentar um personagem em uma narrativa que à primeira vista, pode parecer desprovida de um conflito mais óbvio como no cinema clássico.

Essa rotina, no entanto, nos fala muito sobre seus personagens. Jeanne está presa em um cotidiano mecânico que nunca a permitiu parar para pensar. Seu filho, apesar da boa relação com ela, não tem muito diálogo, com exceção da hora de ir dormir quando o garoto faz alguns comentários sobre sexualidade e sabemos um pouco mais sobre seu pai, já falecido. O menino janta com Jeanne enquanto lê e eles praticamente não se olham enquanto fazem as refeições, trocando quase nenhuma palavra. Quando a protagonista lê em voz alta uma carta que chegou de sua irmã, descobrimos como a viuvez de Jeanne preocupa sua família, que diz que “uma mulher bonita como ela não pode ficar sozinha”. Antes de dormir, Sylvain pergunta como sua mãe conheceu seu pai. Nesse momento descobrimos que Jeanne foi liberta por seu marido durante a Segunda Guerra Mundial, provavelmente de um campo de concentração e que o homem, que era militar na época, foi visto pela primeira vez por ela, enquanto jogava doces para as pessoas, incluído ela, que retribuía jogando rosas. Suas tias então, sempre incentivavam o casamento dos dois, principalmente pela boa posição financeira do homem e que ela deveria aproveitar essa oportunidade.

Jeanne foi condicionada a viver uma vida que mesmo não tão explicitamente, foi ditado o que ela deveria ou não fazer. Seu cotidiano é um reflexo daquilo que a sociedade espera de uma mulher; que ela seja prestativa, atenciosa e realize seus afazeres domésticos com perfeição. Essa perfeição está na satisfação com que a personagem sorri enquanto passa alguns bifes no ovo e na farinha para o jantar, quando arruma a cama ou quando cuida do bebê da vizinha.


Tudo isso é retratado com planos longos e pouca variação no ângulo das câmeras. A câmera não nos permite uma aproximação do que de fato está sentindo a personagem, como se qualquer possibilidade de reflexão tivesse cristalizado em Jeanne, restando apenas observarmos suas ações sem direito a close-ups, plano detalhes, nem nada que transpareça seu psicológico. Ao receber seus clientes, não vemos o programa de fato sendo realizado, mas quando a personagem recebe os homens em sua casa, a câmera não enquadra sua cabeça, deixando apenas o corpo no enquadramento. Naquele momento Jeanne é só um corpo.

Mas como em uma narrativa é preciso ter um conflito, o roteiro consegue isso de uma forma bem significativa, mas sem deixar de lado a sutileza. Como disse a própria Chantal em uma entrevista, “Jeanne arruma tempo para pensar”. Seu último momento de contemplação de sua própria mecanização se dá em uma cafeteria onde a personagem é atendida pela mesma garçonete e onde escolhe sempre o mesmo lugar para se sentar e tomar seu café. Após terminar um programa, Jeanne percebe que deixou as batatas cozinharem demais, arruinando assim o jantar. A partir daqui temos a imagem da dona de casa exemplar “arranhada”. A personagem precisa comprar mais batatas no mercado e toda sua rotina atrasa. Enquanto descasca as batatas às pressas, seu semblante muda. Algo está errado com Jeanne. Seus pequenos deslizes ficam mais frequentes. 


No dia seguinte, ela esquece de abotoar um dos botões de seu hobby, não arruma os cabelos como “deveria”, deixa cair objetos no chão, esquece de fechar a janela e não consegue fazer com que o bebê da vizinha pare de chorar. O leite ao ser bebido, parece estar estragado, ou será que ele já não tem mais o mesmo gosto, assim como sua vida? O casaco que falta um botão, já não pode ser mais encontrado nas lojas pela personagem, porque o modelo já saiu de circulação e na cafeteria, ela é atendida por outra garçonete e acaba sentando em outro lugar, porque uma senhora já ocupa seu ligar favorito. Jeanne não aguenta sua própria consciência dos fatos e sua reação não é das melhores. Mesmo assim, ela consegue sentir um alívio em um final agridoce em que ainda consegue esboçar em um sorriso na última cena.

É a partir dessas metáforas de uma dona de casa que Chantal Akerman, nesse que é considerado o melhor filme da carreira da cineasta, fala sobre o papel da mulher para grande parte da sociedade e como é fácil cair numa mecanização de ações que podem ser muito duras de serem confrontadas, gerando um choque com consequências que podem marcar uma vida para sempre. Claro que muita coisa já mudou, mas ainda existem muitas “Jeannes” pelo mundo à espera “das batatas cozinharem demais”.





segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Ainda precisamos falar sobre Os 13 Porquês

Thirteen Reasons Why o Livro e a Série para além das polêmicas e suas críticas sociais 


A série “13 reasons why”, Os 13 Porquês, aqui no brasil lançada no final de março desse ano 2017 pela Netflix, gerou muita polêmica e burburinho na internet, despertando tanto curiosidade, como debates acalorados a respeito de suicídio, tema ainda considerado um tabu em nossa sociedade, e sem muito espaço para debates mais aprofundados, principalmente entre os jovens. A série é baseada no livro homônimo escrito por Jay Asher, e antes de virar atração seriada de forte repercussão, o livro já era um best-seller. 



O blog simulacro chega um pouco atrasado para a discussão a respeito da série e do livro, porém nunca é tarde para discutirmos sobre séries e livros. Então lá vai uma breve análise crítica sobre ambos. Vamos tentar discutir a respeito do livro e da série em um artigo único, comparando os dois, mesmo que isso seja um tanto complicado, já que se tratem de mídias diferentes, no entanto, vale a comparação aqui, para refletirmos um pouco sobre a narrativa contida em Os 13 Porquês.


Partindo da premissa principal do livro, temos uma narrativa um tanto peculiar, já que a história é narrada em primeira pessoa, porém são dois narradores, o principal e protagonista da história, o adolescente de 17 anos Clay Jensen, que alguns dias depois da trágica morte por suicídio, de uma garota de sua escola, recebe uma caixa de sapatos com 13 fitas k7, nas quais continham os relatos da própria Hannah Baker, a garota que havia tirado a própria vida, o que estava mexendo com a vida escolar de todos, e afetando ainda mais a Clay, que sempre foi apaixonado pela garota, mas nunca teve a coragem de se declarar.

A história tem um segundo narrador, que é a própria Hannah Baker, que assume o controle da narrativa e evidencia a partir de seu ponto de vista o que a levou a cometer o suicídio.

Ok temos outros livros com mais de um narrador em primeira pessoa na história da literatura, e também temos livros com relatos de fitas k7, fitas de vídeo, cartas e outras formas de relatos, e partindo dessa afirmação Os 13 Porquês, não teria nada de inovador. Porém não devemos parar por ai, pois esse formato da a história cria uma dramaticidade e um ritmo que prende o leitor a se aprofundar mais na história. Começamos a leitura sabendo que Hannah Baker está morta, mas precisamos saber o porquê, e ter a sensação de ouvir as fitas com Clay nos motiva a seguir a leitura.

Essa forma de narrativa adotada por Asher, ajuda a criar um clima de suspense, mesmo sendo obvio o que aconteceu no final. Acompanhar a jornada de Clay Jansen nos coloca quase que em sua posição, temos uma narrativa intensa, em que o garoto nos conta sua versão dos fatos enquanto ouve as versões de Hannah.

O livro não se aprofunda muito na construção dos personagens, nem mesmo dos protagonistas, chegando a ser um tanto poético em alguns trechos, sem deixar nada muito bem resolvido ou acabado. Vamos descobrindo aos poucos que Hannah Baker sofria bullying na escola onde estudava, e as coisas vão se agravando, até se tornarem insuportáveis.

A série Os 13 Porquês, tenta aproveitar algumas das lacunas deixadas pelo livro, aprofundando-se mais na história dos personagens. Ouvimos sempre dizer que quando um livro é adaptado para um filme ou série, ele acaba perdendo um pouco de sua história, porém aqui o caso é bem o contrário, a série acaba indo muito mais além do que o livro apresenta, o que por um lado é interessante, ainda mais quando se trata de fãs ávidos por mais das histórias que já conhecem e amam, como é o caso dessa geração pós moderna que costuma consumir um mesmo conteúdo exaustivamente em diversas plataformas, e também se levarmos em consideração que o livro é bem pouco descritivo, e nos deixa abertos muitas interpretações.

Mas isso também pode ser interpretado como uma forma de tentar explorar além da conta um determinado conteúdo. Como por exemplo, no livro os adultos mal aparecem e quase toda a história se desenrola em uma noite de angustia, enquanto Clay Jansen ouve as fitas de Hannah Baker, atordoado, e sem poder fazer nada para reverter uma situação já definida, mesmo que amasse a garota, infelizmente havia perdido sua oportunidade de demonstrar enquanto ela ainda estava viva. Provavelmente esse seria o tema principal do livro, o amor impossível e a perca de oportunidades de se declarar. Temos a faceta de uma jovem angustiada que se revela em suas 13 fitas k7s, tentando fazer justiça a si própria, já que ninguém fizera por ela, o que beira a quase uma tentativa de vingança, movida pelo desejo de que todos na escola que a maltrataram de várias formas ficassem cientes do mal que a causaram.

Na série as coisas se desenrolam com um tempo mais lento, temos o mesmo formato de contato com a história, vamos descobrindo junto com o protagonista por que seu nome estava em uma dessas fitas, e cada um dos treze motivos que levaram Hannah Baker a cometer suicídio. Porém enquanto Clay ouve as fitas acompanhamos também a repercussão que as fitas já haviam causado ao serem ouvidas pelas outras pessoas que tinham seus nomes na lista dos 13 porquês de Hannah.  O seriado elabora um personagem para cada porquê, dando algum sentido para as atitudes tomadas pelos garotos que estudavam com Hannah, já que no livro temos apenas breves descrições de cada um, e relatos do que fizeram.

O livro apresenta a história quase que apenas pelas fitas deixadas por Hannah Baker, temos basicamente apenas o seu lado da história, vemos atletas, lideres de torcidas populares sendo cruéis com uma garota novata e insegura de mais para reagir a insumos e boatos que inventaram a seu respeito.

A série da um rosto para  Justin Foley, Alex Standall, Jessica Davis, Tyler Down, Courtney Crimsen, Marcus Cooley, Zach Dempsey, Ryan Shaver, Sheri Holland, Bryce Walker e a senhor Portter.  Todos esses personagens ganham vida de fato, cada um ganha uma história também, e num geral todos tem dramas com famílias disfuncional, ou sofrem com pressões da vida escolar e da sociedade, o que no final das contas, torna tudo muito próximo de todos, e de fácil identificação pelo público em geral. Mas também ajuda a compor o perfil de personagens agressivos.



O formato série tenta explorar mais as relações sociais como a essência de problemas como a violência entre os jovens, o bullying e também o suicídio. O que foi uma sacada até bem lógica e funcional para o formato, já que a história teria que ser aprofundada para ser contada ao longo dos treze episódios.

Como fenômeno social o que a série tenta passar acredito que seja o que vale a pena para assisti-la, e discutimos sim sobre ela, é sempre necessário discutirmos como nos comportamos e como isso afeta de forma direta os outro. O que na época do lançamento da série na Netflix foi pouco ou nada discutido, já que as polêmicas puxaram todos os assuntos para o fato de se podemos ou não falarmos sobre suicídio. E hoje alguns meses depois assistindo a série com olhar critico percebo que a proposta de discussão aqui poderia ser mais rica, como por exemplo toda vez que se fala em Bullying e em depressão as pessoas fogem e são pouco abertas ao debate, e na maioria das vezes fazem vista grossa para o que acontece.

Estamos acostumados com um formato de escola e de sociedade que tenta colocar todos em um molde, esquecendo que cada um é único, e pode encarar a vida de muitas formas diferentes. O embate entre os jovens na escola mostrado na série poderia facilmente levantar uma questão que passou batida, simplesmente pelo fato que estamos acostumados a tratar as pessoas ao nosso redor mal, acreditando que está tudo bem e que não estamos ferindo ninguém, somos uma sociedade egoísta e hipócrita que varremos nossos podres e segredos para baixo do tapete, sempre que necessário, mesmo que isso possa atrapalhar a vida de alguém. Criamos nossos filhos para esse sistema, de ser forte a todo custo, de ser um vencedor a todo custo, mesmo que isso custe a vida dos outros, ou seja apenas uma métrica imposta por uma sociedade falsamente moralista. Naturalizamos o sofrimento alheio para aliviarmos nossas consciências e tentamos nos defender encontrando o defeito dos outro.

Parece algo assustador para se escrever ou dizer, mas essa é a verdade, todos somos agredidos todos os dias, e seguimos adiante  é fácil perceber o quanto somos hostis uns com os outro apenas dando uma passada de olho nas time lines das nossas redes sociais. Mas quando temos a oportunidade de discutimos sobre nossa cultura de invisibilizar o outro, tomamos atitudes parecidas com a dos garotos que se escondem de medo das responsabilidades na série, viramos para alguém e dizemos apenas, “A essa série é muito polêmica”, ou “Não deveriam ficar falando de suicídio com os jovens, isso é incentivar”, ou ouvimos coisas piores como o que é falado na série: "que a garota que se matou fez o que fez para chamar a atenção".

Talvez falar sobre suicídio seja ainda um tabu porque isso exija que paremos para pensar e refletir, o que a muito a nossa sociedade não faz, saímos falando ou escrevendo antes de pensar nas consequências, e quando se trata de assumirmos responsabilidades, somos ainda piores.

A série tratou o assunto com delicadeza sem romantizar a situação, o que é muito bom para a discussão saudável de assuntos polêmicos. Outra questão levantada para a série é com relação a fragilidade da mulher na sociedade, e de como ainda hoje cuidar de uma reputação impecável é muito importante principalmente para mulheres, e que boatos inventados por garotos para construir sua gloria humilhando publicamente uma garota ainda é prática considerada normal, um fato que as meninas deveriam levar com naturalidade, um aspecto que foi pouco falado na época de lançamento da série, mas que deveria ser discutido com atenção.

Tanto na leitura do livro quanto assistindo a série me veio fortemente a cabeça um outro livro chamado “Nada” da escritora  Janne Teller, que recomendo fortemente, principalmente se você assistiu a série e leu o livro. Em "Nada" temos uma turma de estudante ainda mais jovem que ao se deparem com um aluno que se recusa descer de uma arvore por acreditar que a vida não fazia sentido, começam a fazer de tudo para provar ao garoto o verdadeiro valor da vida, porém essa tentativa dos meninos vai aos poucos os consumindo, chegando a extremos que eles não previam.


A série acabou se aproximando ainda mais desse sentido apresentado no livro “Nada”, ao mostrar o embate dos estudantes com suas responsabilidades, consciência e desejos.

O filme “A Mentira” de Will Gluck (2010), trabalha com tema semelhante, ao abordar a vida de uma colegial, que vitima de boatos a seu respeito acaba perdendo o respeito dos garotos da escola se tornando excluída e desprezada até mesmo pelas garotas.  Nesse caso temos um filme mais leve onde tudo acaba se resolvendo bem, mas ainda assim percebemos o quanto é difícil se afirmar socialmente e o quanto os adultos que poderiam ajudar, por vezes acabam se ausentando dessas situações, pois levam tudo com naturalidade, como uma fase, sem esperarem que algo pode realmente dar errado seriamente.



A série acaba colocando os pais das personagens na história, nos comovemos com o sofrimento dos pais de Hannah Baker, o que ajuda a passar uma mensagem de conscientização a pessoas que possam estar enfrentando os mesmos problema que Hannah passou na série, mostrando um caminho que poderiam tentar se abrindo com os pais, ou pessoas que possam oferecer algum tipo de ajuda, antes de chegar a decisões extremas.  

No livro essa ideia se dá pela possibilidade que Hannah teria se tivesse conseguido falar com o Clay. Ou seja nenhum dos dois aborda o suicídio como saída para problemas, e sim nos coloca na perspectiva de possibilidades que ficam em aberto se não tentarmos. E ainda nos alerta para a deficiência que temos em ajudar pessoas que são vitimas de violência, ou que sejam de grupos de risco.

Os 13 porquês deve ser visto, ou lido por uns treze porquês diferentes, mas talvez um dos mais importantes seja para podermos olhar para nós mesmos, e pensar porque ainda não somos uma sociedade capaz de funcionar bem para todos.   

Tecnicamente a série é boa, conta com uma trilha sonora forte com músicas que ajudam a compor muito bem todas as situações, temos cenas fortes e complicadas defendidas com mérito para o elenco, destaque para a protagonista Hannah Baker vivida pela atriz katherine langford.



A fotografia  é muito bonita, e ajudam a dar um ritmo fluido e sentimental a narrativa a série. Um  aspecto da montagem é que ela se aproxima do suspense e por vezes se aproxima dos thrillers para jovens que fizeram muito sucessos no final dos anos 1990 e inicio dos anos 2000, como a série "Pânico"(1996), e "Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado" (1997).

Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado 

talvez a maior falha da série tenha sido estender de mais a história, ainda que para sua pretensão de aprofundar os personagens  funcione, porém soou um pouco exagerado, ainda mais pensando em uma possível sequência, o que já sabemos que acontecerá, e nesse caso a série rompe completamente com o livro, já que tudo que poderia ser adaptado do livro já foi na primeira temporada, por isso os roteiristas terão muito trabalho, para não perderem a mão. 


Erotismo e a cidade: Vidas nuas (1967) de Ody Fraga

  O aspecto mais interessante em Vidas nuas é a fluidez como a cidade de São Paulo é filmada, desde seu primeiro plano quando temos acesso ...